O dia do Pai é, ou deveria ser, todos os dias.
Dias e noites regados de amor, afeto e partilha. Na esteira do dia do Pai vamos poder vislumbrar, um conjunto de imagens ternas, frases de afeto e uma ideia quase consensual de cuidado, proteção e presença. Mas há uma realidade que raramente entra nesse retrato. A dos filhos para quem a paternidade, tal como a maternidade, foi vivida no interior de relações marcadas pelo conflito, pela rutura e pela instrumentalização afetiva. Há filhos que cresceram entre silêncios, disputas, ausências e lealdades impossíveis. E também esses filhos merecem ser vistos. Hoje, muitos desses filhos nem sequer poderão estar com os seus pais, mas, em boa verdade, estou em condições de poder afirmar que, aquilo que se passa, agora na infância, ficará vincada e armazenada nos corpos daqueles que foram, supostamente, concebidos com amor.
É dessa urgência de escutar quem tantas vezes permanece fora do foco que nasce o título escolhido por mim, para marcar este dia – Filhos do (des)amor – de certa forma, o título que dei a um dos meus livros que resultou da investigação que desenvolvi no âmbito do Mestrado em Sociologia, na Universidade de Évora. O ponto de partida para o escrever foi simples, mas sociologicamente decisivo. Perceber o que acontece aos filhos quando a separação dos pais deixa de ser apenas uma mudança conjugal e se transforma numa experiência prolongada de conflito.
Pois, com efeito, nas últimas décadas, a família mudou profundamente. Tornou-se mais plural, mais instável, mais exposta às lógicas da individualização e da fragilidade relacional. Sabemos hoje que o divórcio e a separação fazem parte das configurações familiares contemporâneas. O problema não está, por si só, na rutura. O problema está, muitas vezes, na forma como ela acontece e no lugar que nela é atribuído às crianças. Quando o conflito entre adultos se prolonga, quando os filhos são chamados a tomar partido, quando se tornam mensageiros, reféns emocionais ou depósito da dor parental, aquilo que está em causa já não é apenas a reorganização da vida familiar. É a própria experiência da infância.
Durante demasiado tempo, os filhos foram tratados como efeitos secundários das separações litigiosas. Como se estivessem ao lado do problema, e não no seu centro. No entanto, o que a investigação revela é precisamente o contrário. As marcas deixadas por contextos de rutura conjugal conflituosa não desaparecem com o tempo administrativo do divórcio. Permanecem na forma como estes filhos, já adultos, olham para si próprios, constroem relações, vivem a intimidade e transportam consigo memórias de perda, instabilidade e desamparo.
Através dos testemunhos de filhos, hoje adultos, que viveram a separação dos pais na infância ou na adolescência, torna-se possível compreender não apenas o impacto imediato dessas ruturas, mas sobretudo a forma como elas se inscrevem, de modo duradouro, nos percursos de vida. Ao longo dos últimos anos, no trabalho de análise e reflexão que tenho vindo a desenvolver sobre esta realidade, têm-se tornado visíveis feridas que raramente chegam à superfície do debate público. Feridas invisíveis, lutos por elaborar, processos de alienação parental e múltiplas estratégias de adaptação revelam que a infância é, muitas vezes, um território de sofrimento silencioso e de resistência discreta. Não estamos perante casos isolados, nem perante meros episódios da intimidade familiar. Estamos perante um fenómeno social de grande profundidade, com efeitos emocionais, relacionais e identitários que persistem no tempo. E é precisamente por isso que importa aproveitar este espaço, e o simbolismo do dia de hoje, para refletirmos em conjunto sobre aquilo que tantas vezes continua por dizer.
Os filhos procuram estabilidade. Aliás, eles, precisam dela. Carecem de segurança emocional, de previsibilidade, de cuidado e de um ambiente familiar onde não sejam forçados a escolher lados nem a carregar conflitos que não lhes pertencem. Precisam de uma família sustentada por decisões partilhadas, e não por imposições unilaterais. Precisam, acima de tudo, de poder viver os seus afetos em liberdade. Sempre que possível, devem poder crescer com o amor do pai e da mãe, sem entraves, sem manipulações, sem condicionamentos que lhes sequestram os vínculos e lhes empobrecem a infância. Porque nenhuma criança devia ser privada do direito de amar ambos os pais, nem afastada da riqueza afetiva da sua família alargada.
Este é, por isso, um tema que exige muito mais do que compaixão privada. Exige, também a atenção sociológica, responsabilidade institucional e maturidade coletiva. Quando o sofrimento infantil decorrente de ruturas parentais conflituosas é desvalorizado, naturalizado ou remetido para a esfera do doméstico, a sociedade falha. Falha a justiça, falha a escola, falham os dispositivos de apoio e falha, sobretudo, a nossa capacidade de reconhecer que nem todas as feridas da infância são visíveis.
Escrever sobre isto no dia do Pai não é um gesto de provocação. É um gesto de verdade porque a inquietude continua latente. Continuo a inspirar-me nas narrativas que teimam em vir ao meu encontro, quase sempre, vertidas em lágrimas. Celebrar a paternidade não pode significar apenas repetir imagens idealizadas. Tem de significar também interrogar as formas concretas como se exerce a responsabilidade parental, sobretudo quando a relação conjugal chega ao fim. Um filho não pode ser transformado em arma, em prova, em intermediário, em palco de ressentimentos que pertencem ao mundo adulto. O amor parental mede-se também pela capacidade de proteger a infância da guerra emocional dos pais.
O título escolhido para este artigo de opinião procura precisamente isso. Tirar do silêncio uma experiência frequentemente invisibilizada e colocá-la no centro da reflexão pública. Não para alimentar condenações fáceis, mas para lembrar que a infância não é um detalhe colateral das crises familiares. É um lugar decisivo de formação emocional, social e identitária.
Neste dia do Pai, talvez valha a pena alargar o sentido da homenagem. Talvez valha a pena incluir também os filhos que cresceram entre ruínas afetivas, os que aprenderam demasiado cedo a conviver com o medo da perda, os que ainda hoje transportam no corpo e na memória as marcas de conflitos que nunca escolheram. Escutá-los é mais do que um gesto de sensibilidade. É um imperativo de justiça.
Ainda assim, permitam-me terminar com uma palavra de reconhecimento. Aos filhos que tiveram o privilégio de crescer com o amor partilhado dos pais, unidos ao longo de décadas por laços de afeto, cuidado e presença, deixo uma saudação sentida. E deixo também uma nota de profundo respeito aos pais que, tendo deixado de ser um casal conjugal, souberam transformar-se, com amor, maturidade e bom senso, num verdadeiro casal parental, digno do respeito e da confiança dos seus filhos.
Pela liberdade de afetos de todos os filhos, desejo a todos amor, saúde e a lucidez necessária para proteger aquilo que na infância é mais sagrado: o direito de amar sem medo.
Nuno Vilaranda
Doutorando em Sociologia na Universidade de Évora, mediador familiar e autor de vários livros, entre eles – Filhos do (des)amor e “Pai, vem me ver…”

















