10 anos do Brexit, o que aprendemos?

Uma década é tempo suficiente para que os factos substituam as ilusões. Dez anos após o referendo que conduziu o Reino Unido à saída da União Europeia, o Brexit deixou de ser um acontecimento para poder ser um objeto de análise histórica e, sobretudo de aprendizagem.

Em 2016, muitos viram no Brexit uma espécie de catarse para a recuperação de uma soberania supostamente perdida, a afirmação de uma identidade nacional contra a diluição europeia, a promessa de controlo sobre fronteiras, leis e destino económico. Hoje, o balanço é mau. A ilha inexpugnável de Carlos III, nunca esteve tão desequilibrada politicamente, com 6 Primeiros-Ministros em apenas 10 anos. Para se ter um grau de comparação Isabel II deu posse a 15 Primeiros-Ministros em 70 anos de reinado.

A economia britânica perdeu dinamismo relativo, estudos recentes estimam que, em 2025, a economia britânica era entre 6% e 8% mais pequena do que seria sem Brexit o que é outra forma de dizer que o PIB podia ser cerca de 8% maior se não tivesse havido esta aventura identitária disfarçada de “recuperação de soberania”, a sua capacidade de influência geopolítica diminuiu e as fraturas internas, entre gerações, territórios e identidades, tornaram-se mais visíveis e persistentes.

Mas o Brexit não deve ser lido apenas como uma história britânica. Ele é, antes de mais, um espelho europeu. Um espelho que nos devolve uma imagem incómoda de uma União que, durante demasiado tempo, foi incapaz de se explicar a si própria, de criar pertença política e de responder eficazmente às angústias sociais que alimentam o populismo.

A verdade é que o projeto europeu sempre assentou numa tensão estrutural entre integração económica e construção política. A primeira avançou com rapidez, a segunda ficou muitas vezes refém da prudência, da fragmentação e de um certo medo de si mesma. O resultado foi uma União eficiente a regular mercados, mas hesitante a mobilizar cidadãos.

O Brexit mostrou o custo dessa hesitação.

Quando a Europa é percebida apenas como um espaço de regras, e não como uma comunidade de países, abre-se o terreno para narrativas destrutivas. Quando a integração é sentida como imposição tecnocrática, e não como escolha política partilhada, a tentação de rutura torna-se mais plausível.

Dez anos depois, a principal lição do Brexit não é a de que a saída é um erro, isso tornou-se evidente, mas a de que a permanência exige mais do que inércia. Exige convicção, investimento político e capacidade de reinvenção.

Valorizar a Europa, hoje, implica reconhecer que ela não pode continuar a ser apenas um mercado único com moeda comum. Tem de afirmar-se como um verdadeiro espaço político, capaz de gerar lealdade, participação e sentido de futuro. Isso passa por várias dimensões.

Desde logo, uma Europa que proteja. Num contexto de competição global, transições tecnológicas e insegurança geopolítica, os cidadãos exigem segurança, económica, social e até física. A União não pode limitar-se a enquadrar políticas nacionais, tem de ser agente ativo na proteção das suas sociedades.

Depois, uma Europa que represente. O défice democrático europeu não é apenas institucional; é também narrativo. Falta uma esfera pública europeia robusta, onde os cidadãos se reconheçam e debatam um destino comum. Sem essa dimensão, a União continuará a ser vista como distante, mesmo quando é decisiva.

Por fim, uma Europa que una. As assimetrias entre Estados-membros, regiões e grupos sociais não podem ser ignoradas. A coesão não é um subproduto da integração é uma condição da sua legitimidade.

A memória do Brexit deve servir-nos como antídoto contra a complacência. A União Europeia não é irreversível por natureza, é irreversível apenas se for continuamente escolhida pelos seus cidadãos.

Dez anos depois, a pergunta já não é se o Brexit foi um erro. A pergunta é se aprendemos com ele.

E, sobretudo, se estamos dispostos a fazer da Europa uma verdadeira comunidade com um futuro comum.

Luís Nunes dos Santos

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