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And in the end, The love you take, Is equal to the love you make

Aos 83 anos, Paul McCartney poderia limitar-se a administrar o património artístico mais influente da música, surgir ocasionalmente em palco para interpretar os clássicos que moldaram gerações e recolher, com toda a legitimidade, os aplausos de uma carreira irrepetível. No entanto, o seu mais recente álbum, “The Boys of Dungeon Lane” demonstra que a inquietação criativa continua intacta.

O título não engana, é um disco sobre um pedaço de Liverpool com a nostalgia de alguém que já viveu muito. É McCartney a admitir que, depois de tudo, continua a ser o rapaz de Penny Lane, da barbearia “beneath the blue suburban skies”.

Desde os primeiros segundos de “As You Lie There”, percebe-se a natureza deste trabalho. A canção apresenta um McCartney despojado de artifícios, apoiado numa interpretação intimista e profunda. A voz revela o desgaste inevitável dos anos, mas longe de constituir uma limitação, só o torna autêntico. Muitos artistas veteranos procuram esconder a idade através de produções excessivas, McCartney faz precisamente o contrário, aceita-a e integra-a na narrativa do álbum.

Há ecos do rock clássico, mas filtrados na recusa em perseguir a juventude. Aceita a idade, incorpora‑a na voz, na respiração, no andamento das canções, assume a idade, adapta-se a ela e transforma-a numa força criativa.

Em “Days We Left Behind”, o single, percebemos que o velho artesão continua vivo. A canção entra e de repente, já está instalada, como se a conhecêssemos desde 1964, parece existir há décadas. Esta capacidade de escrever o familiar sem cair no banal é o tipo de coisa que acompanha McCartney desde os tempos dos Beatles e continua surpreendentemente intacta.

Já “We Two”, para mim a melhor música do álbum, explora a cumplicidade humana nas suas várias formas, amor, amizade ou simples resistência partilhada ao longo dos anos. A frase de abertura é um hino ao amor (“I wanna live for love, So many people do, Over, over again, My thoughts return to you, You give me what I want, You show me how it’s done”), é mais uma reinterpretação da mensagem maior da sua carreira.

 “Home to Us”, conta com a participação de Ringo Starr. A reunião destes dois sobreviventes da maior revolução da música popular tem inevitavelmente um peso especial. Quando cantam sobre “casa”, não evocam um conceito abstrato, mas um lugar concreto, moldado pela chuva, pelas fábricas e pelas ruas de Liverpool.

Depois de conquistar o mundo, McCartney não surge como uma figura monumental a contemplar o próprio legado, apresenta-se como alguém que continua ligado às memórias fundadoras da sua vida. As fotografias mentais da sua vida tornam-se matéria-prima para um trabalho sublime.

O álbum evita as despedidas artísticas de outros gigantes da música. Não possui o experimentalismo crepuscular de Blackstar, de David Bowie, nem a depuração espiritual dos últimos trabalhos de Leonard Cohen. O que o torna original. McCartney limita-se a continuar a fazer aquilo que sempre fez a vida toda: a escrever boas canções.

O fecho com “Momma Gets By” é de uma simplicidade brutal. “A mãe sobrevive”.  A simplicidade da frase que dá corpo à canção encerra uma verdade universal sobre sobrevivência, resiliência e adaptação. Entre guerras, trabalhos, filhos, contas, doenças, a vida vai sendo isto uma sucessão de “gets by”.

 “The Boys of Dungeon Lane” é um trabalho que todos devíamos agradecer existir. Não porque venha mudar o rumo da música, isso ele já fez, várias vezes, mas porque prova haver pessoas que não se reformam do seu génio e jovem interior.

McCartney não quer ser o mais moderno, o mais radical, o mais venerado. Quer, ao que parece, continuar a escrever canções sobre aquilo que lhe importa.

É McCartney a assumir uma das suas melhores frases:

 “And in the end,

 The love you take,

Is equal to the love you make”

Luís Nunes dos Santos

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