Ontem fui curioso ao cinema ver a “Odyssey” de Christopher Nolan, prevenido de que se trataria de mais um produto “woke”, uma reescrita militante do poema de Homero, descentrada e ideologicamente enviesada. O que encontrei não foi nada disso. Encontrei um filme que fala de compromisso, lealdade, família, saudade e da difícil arte de saber esperar, um filme ancorado precisamente em alguns dos valores que temos vindo a maltratar.
Não, o filme não é “woke”. É a interpretação que Nolan nos oferece, pode até ser discutível, mas não é uma versão definitiva e canónica do texto de Homero, para perceber isso é preciso ir vê-lo e não ficar pelo “ouvi dizer”.
Li por aí que Nolan teria traído a Grécia, Homero e toda a antiguidade clássica, submetendo-as à multiculturalidade racial e ao “empoderando” de personagens femininas para agradar ao espírito do tempo. Essa leitura só existe com má vontade.
“The Odyssey” não é um filme sobre Helena de Troia, seja qual for a cor da atriz que a interpreta, a sua presença é episódica, aparece cinco segundos, num filme de três horas, é a história de um homem que tenta regressar e de uma mulher que decide continuar a esperá‑lo.
Ulisses é o herói, que passa dez anos em combate e outros tantos, perdido no mar, atravessando ciclopes, sereias, feiticeiras e deuses. Mas sem Penélope, não há história, sem a casa que resiste, sem a ilha que se mantém em suspensão, a viagem não tem destino, não tem sentido, não tem sequer objetivo.
Penélope é uma figura que subsiste e administra a crise, gere a escassez, negocia com homens armados que confundem hospitalidade com direito de conquista. O seu célebre estratagema do sudário de Laertes, “teço de dia, desfaço de noite” é uma forma de ganhar tempo, mantendo viva a possibilidade do regresso de Ulisses.
A Grécia de Nolan é um cosmos onde o poder circula entre homens e mulheres, deuses e mortais, exatamente como no poema. Atena sussurra, Circe e Calipso retêm o herói, o feminino está inscrito na própria textura da Odisseia, não é um enxerto woke modernaço, até porque os dramas contemporâneos não existiam na Grécia antiga.
Um dos aspetos menos discutidos, e que Nolan trata com inteligência, é o da hospitalidade sagrada. Em Homero, Zeus é guardião dessa lei, acolher o estrangeiro, respeitar o hóspede, tratar o desconhecido como portador potencial de qualquer deus.
A viagem de Ulisses é, em boa parte, uma sequência de testes a essa lei, com casas que acolhem (Feácios), casas que devoram (Polifemo), casas que seduzem e retêm (Circe, Calipso).
Na leitura indignada de alguns, a diversidade étnica de deuses e mortais é rotulada como “multiculturalidade extemporânea”, quando, na verdade, apenas torna visível, no ecrã, uma variedade de rostos e corpos que não cabem na ficção de pureza fabricada a posteriori por Hollywood e assumida, sem grande exame, pelo ocidente.
Que filme é este, então?
É o filme de um homem que passa todas as tormentas para voltar para casa e também de uma mulher que toma decisões enquanto ele se perde. O herói atravessa monstros visíveis, a rainha enfrenta o monstro invisível do tempo. Dez anos de guerra, dez anos de mar, vinte anos de ausência.
As críticas ao filme “The Odyssey” são infundadas, porque tudo serve para imediatamente ser convocado para a guerra cultural entre extremos ou é “woke” ou é “reacionário”, ou é “progressista” ou é “fascista”, e o espaço intermédio, onde a arte pensa, parece cada vez mais estreito. Há quem prefira agarrar‑se às margens para não olhar o centro. Qualquer detalhe lateral serve desde que evite encarar o que o filme realmente propõe tal como Homero escreveu.
Esta é história de um homem que quer voltar a casa para a sua mulher e de uma mulher que faz tudo para se manter fiel ao compromisso com esse homem. É uma epopeia sobre lealdade, compromisso, de promessa mantida contra o tempo e contra a pressão (daquele) mundo.
Quem não vê isto, está mais ocupado a reparar em pantones de cores, contar quotas, a potenciar indignações nas redes sociais e a desprezar Homero e a interpretação que Nolan faz dele.
Luís Nunes dos Santos



















