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7.000 fogos à vista em Évora

Acredito em Évora quase como se fosse uma religião.

Quando cheguei à cidade, em setembro de 2017, senti que passaria por aqui mais tempo do que tinha previsto. E foi isso que aconteceu. Já passaram alguns anos e Évora deixou de ser apenas o lugar onde vim estudar. Tornou-se uma cidade onde vivi, cresci, criei laços e onde aprendi a olhar para o futuro com mais exigência.

Vejo em Évora um potencial enorme. Vejo-o na sua história, no seu património, na sua universidade, na sua localização e na capacidade que tem para ser muito mais do que uma cidade bonita para visitar. Mas também vejo uma cidade que, demasiadas vezes, parece pequena debaixo da alçada de poucos; uma cidade onde as decisões parecem demorar mais do que os problemas e onde o futuro nem sempre é discutido com a ambição que merece.

Por isso, a proposta da 4.ª revisão do Plano de Urbanização de Évora merece atenção.

Falar de mais de 7.000 novos fogos e da possibilidade de acolher cerca de 15 mil novos residentes é falar de uma mudança profunda na cidade. Não é um detalhe técnico, nem apenas um conjunto de linhas num mapa. É uma decisão sobre a Évora que queremos nas próximas décadas.

E é também uma oportunidade.

A habitação é hoje um dos maiores bloqueios ao desenvolvimento de Évora. Quem vem estudar tem dificuldade em encontrar quarto. Quem quer trabalhar tem dificuldade em arrendar casa. Quem quer constituir família vê-se confrontado com preços que não acompanham os salários. E quem nasceu na cidade, muitas vezes, é empurrado para fora dela.

Não podemos querer uma Évora mais jovem, mais dinâmica e mais qualificada sem criar condições para as pessoas viverem cá.

Mas importa dizer com clareza: construir mais não pode significar apenas construir mais caro.

Os 7.000 fogos previstos só serão uma resposta real se incluírem habitação acessível para estudantes, jovens trabalhadores, famílias e população envelhecida. Se forem apenas mais casas para quem já tem capacidade financeira, estaremos a aumentar a cidade sem resolver o problema. E uma cidade que cresce sem incluir torna-se apenas mais desigual.

O Plano aponta também para novas áreas económicas, para o reforço dos parques empresariais, para uma plataforma logística e para um cluster da saúde junto ao futuro hospital central do Alentejo e ao polo de saúde da Universidade de Évora. São sinais positivos. Évora precisa de emprego qualificado, de empresas, de investigação aplicada e de oportunidades para que os jovens que aqui estudam possam escolher ficar.

Porque não basta atrair estudantes. É preciso conseguir retê-los.

Enquanto dirigente estudantil, esta é uma preocupação constante. A Universidade de Évora traz milhares de jovens à cidade todos os anos. Traz conhecimento, diversidade, atividade económica e vida. Mas muitos desses jovens saem quando terminam o curso, não por falta de ligação a Évora, mas porque não encontram condições para construir aqui o seu futuro.

Se queremos uma cidade com mais habitantes, temos de garantir que há razões para permanecer. Habitação, emprego, mobilidade, serviços públicos, cultura e participação. Não se fixa população apenas com promessas, fixa-se população com qualidade de vida.

É por isso que a discussão pública deste Plano não pode ser uma formalidade. Não pode servir apenas para cumprir calendário ou recolher contributos que depois ficam esquecidos numa gaveta. É uma oportunidade para jovens, empresários, trabalhadores dizerem que cidade querem habitar.

Uma cidade mais construída não é necessariamente uma cidade melhor. Será melhor se for mais acessível, mais inclusiva, mais sustentável e mais aberta àqueles que nela vivem.

Évora tem agora uma oportunidade rara: deixar de pensar pequeno.

Os 7.000 fogos podem ser o início de uma nova fase. Mas só serão uma verdadeira conquista se forem acompanhados por coragem política para garantir que esta cidade não cresce apenas em números, mas também em justiça, oportunidades e futuro.

Acredito em Évora. E é precisamente por acreditar nela que não me conformo com pouco.

Ana Beatriz Calado

Presidente da Associação Académica da Universidade de Évora

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