Um novo mapa de satélite permite consultar a suscetibilidade ao incêndio nas freguesias de Portugal continental em 2026 e mostra diferenças no Alentejo, com o sul da região a apresentar os maiores desvios face à referência estrutural de longo prazo.
A ferramenta foi desenvolvida pela plataforma A Minha Terra, em parceria com a MEJOR Technologies, e cruza imagens de satélite com informação sobre vegetação, combustível acumulado e condições do terreno.
O mapa [link] cobre as 3.049 freguesias de Portugal continental, com uma resolução de 10 metros, e foi concebido para complementar a Carta de Perigosidade de Incêndio Rural do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, sem a substituir.
Em declarações ao jornal ODigital.pt, Alex Griekspoor, CEO e cofundador da LandOS e da plataforma A Minha Terra, explica que a ferramenta pretende responder a uma pergunta diferente da cartografia oficial.
“O mapa oficial responde a uma questão sobre a geografia do fogo em Portugal a longo prazo. O nosso responde a uma pergunta diferente: o que é que está efetivamente no terreno nesta época específica. Ambos estão corretos e ter acesso a estas duas visões é o que realmente ajuda as pessoas a agir”, afirma.

Segundo a A Minha Terra, o mapa permite aos proprietários perceberem o estado da sua zona nesta época e, através de uma checklist disponibilizada pela plataforma, identificar medidas práticas de limpeza de terrenos. Para municípios e outras entidades com responsabilidade na gestão do território, a ferramenta pretende ajudar a sinalizar freguesias que possam exigir maior atenção em 2026.
Sul do Alentejo com maiores desvios face à referência estrutural
No caso do Alentejo, a leitura feita pela plataforma aponta para um cenário diferenciado entre sub-regiões. De acordo com Alex Griekspoor, “o sinal mais preocupante está no sul”, sobretudo no Baixo Alentejo e no Alentejo Litoral, onde a maioria das freguesias apresenta valores acima da sua linha de base estrutural de longo prazo.
Freguesias acima da linha de base estrutural
Fonte: dados enviados ao jornal ODigital.pt pela A Minha Terra / MEJOR Technologies.
“Isto significa que, após um inverno muito chuvoso, o terreno acumulou muito mais combustível do que o habitual”, refere o responsável.
De acordo com os dados enviados ao ODigital.pt, cerca de 95% das freguesias do Baixo Alentejo surgem acima da linha de base estrutural, com uma classificação sazonal de 0,46, numa escala de 0 a 1, face a uma referência estrutural de 0,27. No Alentejo Litoral, cerca de 94% das freguesias estão acima da referência, com uma classificação sazonal de 0,51, contra 0,30 na leitura estrutural.
No Alentejo Central, cerca de 54% das freguesias apresentam valores superiores à linha de base, com uma classificação sazonal de 0,35, face a 0,28 na referência estrutural. Já no Alto Alentejo, a proporção desce para cerca de 35%, com os valores sazonais e estruturais praticamente alinhados, ambos em 0,39.
“O Alentejo está numa situação mais vulnerável do que o costume, mas importa sublinhar que é sobretudo a metade sul da região que se destaca este ano, enquanto o norte se mantém muito próximo da normalidade”, acrescenta Alex Griekspoor.
Mértola, Ourique e Odemira entre os casos sinalizados
Entre os concelhos destacados pela A Minha Terra estão Mértola, Ourique e Odemira, apontados como casos onde a leitura sazonal de 2026 se afasta da referência estrutural de longo prazo. A plataforma refere ainda subidas acentuadas em freguesias como São João dos Caldeireiros, no concelho de Mértola, e Brinches, no concelho de Serpa.


Nos dados por freguesia enviados ao ODigital.pt, Santa Clara-a-Velha e Sabóia, ambas no concelho de Odemira, surgem entre as freguesias do Alentejo com maior classificação de suscetibilidade absoluta. Também aparecem nas posições superiores Santana, em Nisa, Espírito Santo, em Mértola, Luzianes-Gare, em Odemira, Belver, em Gavião, Santana da Serra, em Ourique, e São João dos Caldeireiros, em Mértola.
Numa outra leitura, que mede a diferença face à referência estrutural, destacam-se freguesias como Porto Covo, em Sines, São João dos Caldeireiros, em Mértola, a União das Freguesias de Santiago do Cacém, Santa Cruz e São Bartolomeu da Serra, Brinches, em Serpa, Santa Clara-a-Velha, em Odemira, e Espírito Santo, em Mértola.
Segundo a A Minha Terra, há também uma continuidade entre o sinal elevado identificado no interior do Algarve e algumas zonas do Baixo Alentejo.
“O sinal de risco elevado no interior do Algarve não pára na fronteira do distrito; estende-se para norte, penetrando no Baixo Alentejo. Mértola, Ourique e Odemira apresentam leituras bastante acima da sua referência estrutural”, afirma Alex Griekspoor.
Mapa mede combustível e condições do terreno
A plataforma sublinha que a maior suscetibilidade identificada este ano não deve ser lida apenas através da classificação tradicional do uso do solo. Segundo Alex Griekspoor, duas parcelas aparentemente semelhantes podem apresentar leituras diferentes em 2026, dependendo do crescimento efetivo da vegetação durante o inverno e do estado em que se encontra à entrada da época de incêndios.
“Tudo depende do crescimento efetivo que a vegetação teve durante o inverno chuvoso e do quão seca está agora”, explica.
A ferramenta cruza sinais de vegetação captados por satélite com a estrutura física da paisagem. O objetivo é identificar onde existe maior acumulação de combustível vegetal num determinado momento, permitindo uma leitura sazonal que se distingue da cartografia estrutural de longo prazo.
Para os proprietários, a plataforma disponibiliza uma checklist gratuita de limpeza de terrenos. Segundo a A Minha Terra, o utilizador introduz os dados da parcela e recebe uma lista de tarefas adaptada ao terreno, incluindo indicações sobre vegetação a cortar, altura de corte e regras de limpeza em redor de edifícios e acessos.
Ferramenta não prevê onde vão ocorrer incêndios
A A Minha Terra sublinha que o mapa não prevê onde vão ocorrer incêndios, nem indica como um fogo poderá começar ou propagar-se. A ferramenta analisa o combustível e a topografia, mas não antecipa ignições, vento, temperatura ou outras condições meteorológicas de cada dia.
“Para haver um incêndio, é precisa a conjugação de três fatores: combustível, uma fonte de ignição e condições meteorológicas propícias à propagação. O nosso mapa analisa apenas o primeiro fator: o combustível e a topografia”, refere Alex Griekspoor.
O responsável defende, por isso, que o mapa deve ser entendido como um instrumento de prevenção e planeamento, e não como uma previsão de incêndios ou uma garantia de segurança para qualquer terreno.
Uma em cada três freguesias do continente com sinais elevados
A nível nacional, o Mapa de Suscetibilidade ao Incêndio de 2026 indica que uma em cada três freguesias de Portugal continental apresenta sinais elevados de acumulação de combustível.
Segundo a plataforma, o interior do Algarve, o Baixo Alentejo e partes do Vale do Tejo estão entre os territórios onde a carga acumulada surge acima do habitual. No interior do Algarve, duas em cada três freguesias apresentam níveis elevados, apesar de a região ser historicamente apontada como tendo menor risco estrutural.
Para a A Minha Terra, os dados refletem o impacto de um inverno chuvoso, que favoreceu o crescimento da vegetação, seguido de um período de temperaturas mais elevadas, com secagem progressiva desse material vegetal.

















