Tem 85 anos e ensina como se faz uma flor das Festas do Povo de Campo Maior (c/vídeo)

Aos 85 anos, Odília de Vasconcelos ensinou o ODigital a construir uma flor e contou uma vida de quase sete décadas em Campo Maior.

Com um arame fino entre os dedos, Odília de Vasconcelos prende a primeira peça de papel, roda-a e junta a seguinte. São quatro para formar o «olho» e cinco para completar a flor.

Aos 85 anos, a mulher conhecida em Campo Maior como «a mulher das televisões» mostrou ao ODigital.pt como transforma papel em flores. Enquanto trabalhava, contou uma vida ligada à vila há quase sete décadas.

A demonstração decorreu durante o acompanhamento das Festas do Povo pelo ODigital.pt. A edição de 2026 assinala o regresso do evento após 11 anos e é a primeira desde a inscrição da tradição na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade, em 2021.

Cinco pétalas e um arame fino

«Estou a enrolar arames para poder depois colar as folhas», começa por explicar Dona Odília, sem interromper o movimento das mãos.

A flor nasce a partir do centro. As primeiras peças, recortadas em duas cores, formam aquilo a que chama o «olho». Seguem-se os elementos maiores, colocados e presos ao arame, um de cada vez.

O gesto repete-se até a flor ficar completa. Cada modelo, porém, exige um corte e uma montagem próprios. As rosas não se fazem como os girassóis, as camélias ou as dálias.

«Cada pessoa tem o seu modo de trabalhar. Eu procuro imitar o mais possível a realidade da flor», afirma.

O método começa, muitas vezes, numa flor verdadeira. Odília compra-a, desmonta-a e utiliza cada elemento para criar os moldes que depois serão reproduzidos em papel.

Não frequentou cursos nem recebeu formação nesta área. «Aprender, não. Eu sou autodidata», esclarece.

A mesma técnica é aplicada noutros trabalhos. À sua volta estão quadros construídos com papel recortado e colado, incluindo representações de papoilas e malmequeres. Não são pintados. As cores e as formas resultam da sobreposição das peças.

Da televisão às flores de papel

«O meu nome é Odília, mas aqui na terra sou conhecida por mulher das televisões. Diga Odília de Vasconcelos», apresenta-se.

Natural do Ribatejo, chegou ainda nova a Campo Maior. Vive na vila há quase 70 anos e acompanhou várias gerações das Festas do Povo, primeiro como residente e depois como responsável de rua.

Antes de se dedicar ao trabalho manual, exerceu atividade como técnica de televisão. O trabalho obrigava-a a transportar aparelhos de um lado para o outro, uma tarefa que deixou de conseguir realizar com o passar dos anos.

A morte do marido, há 19 anos, marcou também uma mudança na sua vida. Foi nessa fase que as flores e os restantes trabalhos em papel passaram a ocupar parte dos seus dias.

«Dediquei-me a isto porque é a minha maneira de não estar parada e de não estar a pensar naquilo que passou. Penso naquilo que vou vivendo, dia a dia», conta.

O papel recortado, os moldes e os arames tornaram-se, assim, uma atividade regular. Cada flor começa com a observação de um modelo verdadeiro e termina depois de várias peças cortadas, coladas e montadas.

«Foram feitas por muitas mãos»

Apesar de não ter nascido em Campo Maior, Odília de Vasconcelos participou durante décadas na preparação das Festas do Povo. Até à edição anterior, foi cabeça de rua, assumindo responsabilidades na organização dos trabalhos realizados por homens e mulheres.

A experiência ensinou-lhe que nenhuma rua pode ser construída por uma só pessoa. A transformação de Campo Maior depende da repetição do mesmo gesto por centenas de moradores, durante meses.

«Foram feitas por muitas mãos. Não são feitas só por mim», sublinha, enquanto continua a trabalhar.

Dona Odília recorda uma população habituada ao trabalho manual. Muitas pessoas faziam as flores depois de regressarem do campo, aproveitando o tempo disponível em casa para preparar a edição seguinte.

O resultado apenas se tornava visível na montagem. Até esse momento, cada rua procurava manter o respetivo projeto longe dos olhares das restantes.

O segredo entre as ruas

«Antigamente, quando se faziam as festas, esta rua não sabia o que ia fazer nem o que a outra ia fazer. Era segredo», recorda.

Os moradores reuniam-se, escolhiam um motivo e distribuíam tarefas. Podiam ser flores, frutos ou outras figuras, mas o desenho permanecia reservado ao grupo.

As cores do papel eram mais difíceis de esconder, porque tinham de ser encomendadas através da estrutura organizativa. Ainda assim, segundo Odília, ninguém conhecia os motivos preparados pelas outras ruas.

Os telemóveis alteraram essa dinâmica. Imagens e modelos podem agora circular entre os participantes antes da montagem. Na perspetiva de Dona Odília, essa mudança reduziu o elemento de surpresa que caracterizava as edições anteriores.

Ao mesmo tempo, reconhece a entrada de novos participantes. «A gente nova, a rapaziada nova, agora está-se a integrar», afirma.

Essa participação assume particular importância depois de um intervalo de 11 anos, durante o qual uma geração cresceu sem acompanhar diretamente a preparação das ruas floridas.

Uma responsabilidade que passou a outros

Aos 85 anos, Odília de Vasconcelos decidiu deixar a coordenação de rua. A preparação exige meses de trabalho, divisão de tarefas e capacidade para responder às necessidades da montagem.

«Isto parece uma brincadeira, mas não é. Tem de ter uma estrutura completa, tem de ter uma responsabilidade», salienta.

Quando voltou a ser abordada para assumir funções na edição de 2026, explicou que já não tinha força para ficar à frente dos trabalhos. A responsabilidade passou para outras mãos.

O conhecimento, porém, permanece. Durante a conversa com o ODigital.pt, Dona Odília identificou cada parte, corrigiu movimentos e explicou como o arame deve prender o papel.

No final, a flor estava concluída. Um trabalho feito em poucos minutos, mas sustentado por décadas de observação e prática.

Nas ruas de Campo Maior, o processo repete-se milhares de vezes. Como Dona Odília recorda, as Festas do Povo não resultam de uma única pessoa. São construídas por muitas mãos.

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