Os Estados Unidos celebram 250 anos de independência. A República americana nasceu da síntese de algumas das ideias políticas mais influentes do Iluminismo, Locke forneceu a noção de direitos naturais, Montesquieu inspirou a separação de poderes, a tradição constitucional inglesa legou garantias como o habeas corpus e o júri, e o republicanismo clássico acrescentou a exigência de virtude cívica.
Os Pais Fundadores procuraram transformar esse património intelectual numa arquitetura institucional capaz de proteger a liberdade e limitar o poder. A originalidade americana esteve menos na invenção dessas ideias do que na forma como as adaptou a uma nova nação, desconfiando tanto dos governantes absolutos como da tentação da acção dos demagogos.
John F. Kennedy tornou-se um dos grandes símbolos dessa confiança no futuro. Quando afirmou que “a mudança é a lei da vida, e aqueles que apenas olham para o passado ou para o presente estão destinados a perder o futuro”, condensou uma convicção que remonta à geração de 1776, a de que os cidadãos podem construir instituições melhores do que aquelas que herdaram.
Donald Trump surge num contexto profundamente diferente. Soube interpretar um mal-estar real de muitos americanos, a desindustrialização de algumas regiões, a perda de estatuto de setores da classe média, a desconfiança crescente em relação às elites políticas e culturais. O problema não foi identificar esse descontentamento, mas transformá-lo numa política assente no ressentimento. Em vez de mobilizar os cidadãos para um projeto comum, a sua narrativa organiza-se em torno da ideia de que alguém lhes roubou o lugar e de que a solução passa por identificar culpados.
Onde Kennedy perguntava “o que podes fazer pelo teu país”, Trump sugere que o país foi capturado por elites, estrangeiros, juízes, jornalistas e universidades, cabendo ao “verdadeiro povo” recuperar aquilo que lhe pertence. O passado deixa de ser uma fonte de aprendizagem para se transformar numa promessa de restauração.
A política transforma-se, então, numa linha direta de reclamações. O eleitor deixa de ser coautor de um projeto coletivo para se tornar um cliente indignado, à espera de que alguém resolva todas as injustiças em seu nome.
Essa diferença manifesta-se também na relação com o tempo. Para Kennedy, o futuro era o espaço da construção e da responsabilidade. Insistia que “os problemas do mundo não podem ser resolvidos por cínicos cujos horizontes estão limitados pelas realidades óbvias”, porque uma democracia precisa de cidadãos capazes de imaginar aquilo que ainda não existe.
O trumpismo representa o oposto dessa tradição. Parte da ideia de que todos mentem, todos manipulam e todas as instituições estão corrompidas, reduzindo a política a um confronto permanente entre lealdades tribais. Nessa lógica, as instituições deixam de servir para moderar o poder e passam a valer sobretudo enquanto instrumentos de combate contra os adversários.
Ao longo de dois séculos e meio, a força dos Estados Unidos nunca residiu apenas na sua riqueza ou no seu poder militar. Resultou também da capacidade de acreditar que a liberdade exige instituições sólidas, responsabilidade cívica e confiança no futuro.
Se a América quiser durar mais 250 anos, precisará de menos políticos dispostos a explorar a mágoa e de mais líderes capazes de convocar os cidadãos para uma tarefa mais difícil, a de construir. As democracias não sobrevivem por alimentarem o ressentimento, sobrevivem quando continuam a acreditar que o futuro pode ser melhor do que o passado.
Luis Nunes dos Santos

















