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O mau é muito melhor que o péssimo

Assisto pela primeira vez na minha vida a uma segunda volta em eleições presidenciais e é apenas a segunda vez que isto acontece na nossa democracia, o que por si só já diz muito sobre o quão raro é sermos empurrados para uma escolha tão estreita, uma segunda volta deixa inevitavelmente grande parte dos eleitores desconfortáveis porque, se numa primeira ronda o eleitor já vota quase sempre no melhor candidato dentro do que existe, e não naquele com quem concorda a 100%, numa segunda volta o espaço de manobra desaparece quase por completo, dado que cerca de 40% dos eleitores ficam sem hipótese de voltar a votar no candidato com quem mais se identificavam e passam a ter de deslocar o voto para um candidato escolhido pelos outros 60%, ou então a aceitar, com um voto em branco ou com a abstenção, que sejam os restantes 60% a definir por si aquilo que deveria ser uma decisão pessoal e consciente.

Abandonamos, portanto, a lógica do “candidato com quem me identifico” para entrar na lógica mais crua do “candidato com quem consigo viver”, passando a votar pela consequência, isto é, não para chegar mais perto da visão que tenho para o país, mas para minimizar risco, e essa transição do voto afirmativo para voto defensivo, tende a ser psicologicamente ingrata, mas politicamente inevitável.

Dentro desse desconforto, aparecem três hipóteses que parecem, à primeira vista, equivalentes em dignidade, mas que não o são na substância, a primeira é o voto em branco, que pode funcionar como um protesto limpo e até esteticamente coerente, mas que, em eleições deste tipo, também pode funcionar como uma forma de abdicação prática, porque o sistema não lê o branco como “nenhum serve” lê sim como “é me indiferente”, e a democracia, sendo um mecanismo de escolha coletiva, transforma a ausência num silêncio que não corrige nada e apenas deixa que outros decidam. A segunda hipótese é a escolha de um candidato que, apesar de se apresentar como o grande guardião da ordem e da identidade nacional, constrói a sua energia política através da divisão persistente do país entre “os de bem” e “os suspeitos”, tratando frequentemente emigrantes, minorias e pessoas dos escalões sociais mais baixos como se fossem um problema moral e não uma realidade humana, e fazendo dessa lógica, de desconfiança, de generalização e de humilhação pública, um método, não um lapso. A terceira escolha possível é a escolha de um candidato vindo de um campo ideológico que não é o meu, mas cuja prática e biografia apontam para uma cultura institucional, para uma noção de responsabilidade e para um tipo de prudência que, em momentos de tensão social, vale mais do que a retórica.

O que me afasta do candidato populista não é a dureza do discurso nem a ambição de “pôr ordem”, é a forma como ele transforma problemas reais em suspeita coletiva, apontando sempre para os mesmos alvos fáceis e tratando grupos inteiros como se fossem um defeito do país, como se a complexidade da imigração, da pobreza ou da insegurança se resolvesse com slogans e com culpados convenientes, porque esse método não resolve nada e apenas habitua o país a aceitar que há pessoas a quem se pode retirar dignidade sem custos.

Há também uma contradição estrutural, apesar da pose “anti-Sistema”, esta candidatura acaba por defender um Estado mais pesado e mais intrusivo, sobretudo na sua face punitiva e disciplinadora, e ao mesmo tempo não hesita em apoiar medidas tipicamente associadas à esquerda quando lhe falamos em controlo político, proteção estatal ou intervenção direta em sectores estratégicos, ou seja, não é um projeto de Estado limitado e previsível, é um projeto de Estado ao serviço do impulso, pronto a apertar, controlar e decidir caso a caso, mesmo quando isso implica normalizar ideias que empurram a política para a lógica do castigo e do espetáculo.

E, no fundo, o decisivo é que esta maneira de fazer política é incompatível com um mínimo de cultura humanista e, para quem, como eu, se revê numa matriz cristã, colide com o núcleo mais elementar dessa tradição, não por uma questão de “boa educação religiosa”, mas porque o cristianismo assenta numa ideia radical de igual dignidade, a pessoa não vale pelo passaporte, pela utilidade económica, pela origem ou pelo estatuto social. Sinto que me seria impossível votar neste candidato, porque há uma linha que não quero ver o país a cruzar, a forma como tratamos o estrangeiro, o pobre e quem não tem voz diz muito sobre quem somos. Quando um projeto político normaliza a desconfiança coletiva, reduz pessoas a categorias suspeitas e transforma o sofrimento alheio em instrumento de mobilização, está a substituir a ética da responsabilidade e da misericórdia por uma lógica de pureza tribal e de castigo exemplar, o que não é apenas pouco cristão, é a negação prática de uma comunidade fundada na fraternidade e na contenção do poder sobre o fraco.

Do outro lado, existe um candidato que, mesmo pertencendo a um espaço ideológico à esquerda, não se apresenta como revolucionário, nem como purista, nem como homem do ressentimento, mas antes como alguém que, no passado, mostrou capacidade de reconhecer que há momentos em que o país precisa de estabilidade institucional mais do que precisa de uma oposição pesada, e que, perante um governo em circunstâncias extraordinárias, optou por uma postura que muitos criticariam por não ser “dura”, mas que, vista com maturidade, foi uma postura de responsabilidade, porque uma democracia não é apenas o direito de derrubar é também a capacidade de sustentar o essencial quando o contexto económico e social fica à beira do colapso.

Esse mesmo candidato transmite, ainda, sinais importantes de temperamento, não precisa de transformar a política numa carreira eterna, foi capaz de sair quando entendeu que o seu contributo já não era relevante naquele formato, teve percurso fora do aparelho e contacto real com o mundo privado, e sobretudo, pertence a uma ala da esquerda que foi uma voz critica dos acordos com a extrema-esquerda, por perceber que certas alianças criam incentivos para a irresponsabilidade e para a fantasia económica, e que a governabilidade, num país pequeno e exposto como o nosso, é um bem público que se destrói rapidamente e se reconstrói com enorme dificuldade.

É por isso que, numa segunda volta, a pergunta decisiva não é “quem me representa melhor?”, porque quase ninguém se sente plenamente representado neste tipo de duelo final, mas “qual destas opções preserva melhor o centro de gravidade institucional do país?”, ou, dito de forma mais simples, “qual destas opções mantém o debate dentro das regras e não tenta transformar o jogo democrático numa guerra cultural permanente?”, porque um Presidente não governa como um primeiro-ministro, mas valida, amplifica e condiciona o espaço público, e quando um Presidente transforma a política em caça ao inimigo interno, o resultado não é apenas barulho mas sim é degradação progressiva do respeito, da confiança e da coesão nacional.

Assim, quando olho para as três hipóteses concluo que o voto em branco pode ser confortável para a consciência, mas é fraco perante a realidade, estando assim obrigado a escolher o “mau” para impedir o “péssimo”, não porque o “mau” seja bom, mas porque a política, em certos momentos, é precisamente isto, uma escolha de contenção, uma escolha de limites, uma escolha que aceita a imperfeição para evitar a degradação.

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