Uma cidade aos solavancos

Évora vive hoje um paradoxo de visibilidade. Enquanto os cartazes e as conferências de imprensa nos vendem a imagem de uma cidade vibrante, pronta a assumir o título de Capital Europeia da Cultura em 2027, quem nela habita e trabalha é obrigado a um exercício diário de destreza para evitar os danos colaterais de uma rede de estradas cada vez mais danificada. O estado das nossas ruas deixou de ser um problema pontual de manutenção para se tornar o sintoma mais visível de uma falta de gestão e planeamento de uma cidade nos últimos anos.

A manutenção das estradas públicas não é um luxo, é o cumprimento ao nível mais básico do contrato social entre o cidadão e a autarquia. No entanto, o que observamos, e pelos vistos isso estende-se para a atual liderança da câmara, que espero que tenha realmente a sede de mudança que muitos eborenses têm, é que se gastam recursos em soluções de curtíssimo prazo, que a primeira chuva ou o primeiro veículo pesado se encarregam de expulsar. É caso para dizer que atirar gravilha para cima dos problemas não os vai tapar.

O problema não é apenas financeiro, é de prioridades. Uma gestão municipal eficiente, mas eficaz, exige planeamento, transparência e, acima de tudo, uma mentalidade bem assente de “mãos à obra”. Não podemos aceitar que, a escassos meses de um evento de dimensão internacional, que tem servido para mascarar muito daquilo que a cidade de Évora realmente tem sido, as entradas da cidade e as artérias dos bairros periféricos pareçam pistas de obstáculos.

É necessário romper com a política do “depois logo se vê”. Évora precisa de um plano que saia do papel e que seja executado com rigor técnico, e não ao sabor de conveniências de calendário eleitoral. Se as estradas de uma cidade são o primeiro impacto que quem vem de fora tem ao cá chegar, uma cidade que quer ser capital da cultura não pode ter estradas de terceiro mundo. A cultura também se faz pela forma como tratamos o espaço público e como respeitamos quem paga impostos para que a cidade funcione.

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