O Baixo Alentejo surge entre as zonas portuguesas assinaladas no primeiro mapa europeu da salinização dos rios. Na bacia hidrográfica do Sado, o estudo identifica valores acima da referência natural em duas sub-bacias: numa área atravessada pelo rio Sado, o aumento médio aproxima-se dos 88%, enquanto na zona da Ribeira do Roxo, em Aljustrel, chega aos 225%.
Os resultados colocam a sub-bacia da Ribeira do Roxo entre as pelo menos duas áreas integralmente situadas em Portugal onde a salinidade mais do que duplicou face às condições naturais estimadas. A outra localiza-se no distrito de Santarém.
A investigação foi publicada na revista Nature Communications e desenvolvida por uma equipa internacional que inclui investigadores do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia.
Sub-bacia de Aljustrel apresenta aumento de 225%
Uma análise realizada pelo jornal ODigital.pt ao mapa e aos ficheiros georreferenciados disponibilizados pelos autores permite situar o valor mais elevado do Alentejo numa sub-bacia centrada no concelho de Aljustrel e que abrange a Ribeira do Roxo.
O modelo atribui a esta área uma condutividade natural média de cerca de 595 microsiemens por centímetro. O valor observado aproxima-se dos 1.933 microsiemens por centímetro, uma diferença de aproximadamente 1.338 microsiemens e um aumento de 225%.
A condutividade observada corresponde, assim, a cerca de 3,25 vezes o valor natural previsto. A sub-bacia aparece no mapa na categoria de salinização severa, atribuída a aumentos entre 100% e 500%.
A Ribeira do Roxo integra a bacia hidrográfica do Sado. É nesta linha de água que se encontra a Barragem do Roxo, em Ervidel, no concelho de Aljustrel, utilizada para rega e abastecimento, segundo a Comissão Nacional Portuguesa das Grandes Barragens.
Salinidade também aumentou numa sub-bacia do rio Sado
O mapa assinala ainda uma segunda área na bacia hidrográfica do Sado, abrangendo parte do curso do rio no Baixo Alentejo.
Nesta sub-bacia, a condutividade observada ronda os 858 microsiemens por centímetro, enquanto a referência natural estimada é de aproximadamente 456 microsiemens. A diferença é de cerca de 403 microsiemens, correspondente a um aumento médio de 88%.
A área foi incluída na categoria de salinização moderada, que abrange aumentos entre 51% e 100% relativamente às condições naturais calculadas.
Os valores não significam que toda a bacia hidrográfica do Sado apresente o mesmo nível de salinização. O modelo divide o território em sub-bacias, podendo registar resultados diferentes ao longo do mesmo sistema fluvial.
Portugal integra grupo de 28 países
O estudo, intitulado Rivers of salt: the extent of salinization in European running waters, analisou dados de qualidade da água de 35 países europeus, recolhidos entre 1970 e 2024.
Em 28 desses países, entre os quais Portugal, foram encontrados rios onde a salinidade mais do que duplicou face aos níveis naturais estimados.
Além da área da Ribeira do Roxo, os resultados identificam uma sub-bacia totalmente portuguesa na zona de Alcanena, no distrito de Santarém, com um aumento de aproximadamente 116%.
A investigação recorreu à condutividade elétrica como indicador indireto da quantidade de sais dissolvidos na água. Os valores observados foram comparados com uma referência natural calculada através de modelos que consideram o clima, a geologia, a hidrologia e a proximidade do mar.
A Península Ibérica apresenta uma condutividade natural superior à registada em grande parte da Europa. Esta diferença foi considerada antes de os investigadores calcularem a parcela de salinização acima das condições naturais.
Metade da rede fluvial europeia apresenta salinização
De acordo com o Centro Comum de Investigação, cerca de metade da extensão da rede fluvial europeia analisada apresenta algum nível de salinização.
O estudo classificou 26% da rede com nível baixo, 14% com nível moderado, 9% com nível severo e 1% com nível extremo. Os aumentos chegaram aos 11.377 microsiemens por centímetro.
Mais de 23 mil quilómetros de rios, cerca de 2% da extensão analisada, ultrapassam 1 mS/cm, um nível superior às referências internacionais citadas para a proteção da vida aquática.
Os autores apontam como possíveis consequências alterações nas comunidades aquáticas, redução da biodiversidade, proliferação de algas e mortalidade de peixes. Cerca de 1% da rede europeia ultrapassa as referências consideradas para água destinada ao consumo e 3% excede níveis associados à rega e ao uso industrial.
Estudo não determina a origem do sal no Sado
A salinização resulta da interação entre condições naturais e pressões humanas. A evaporação, a temperatura, o caudal, a profundidade das águas subterrâneas, os solos e a geologia influenciam a concentração de sais e a capacidade de diluição dos rios.
A investigação encontrou também uma associação entre níveis mais elevados de salinização, a pegada humana e a percentagem de território alterado por atividades humanas.
A agricultura de regadio, as águas residuais urbanas, a alteração do uso do solo, a extração de recursos e a utilização de sal nas estradas são algumas das possíveis fontes apontadas à escala europeia.
O modelo não permite, contudo, determinar quais destas pressões explicam os resultados obtidos no rio Sado ou na Ribeira do Roxo. Também não atribui os valores a qualquer exploração agrícola, descarga ou atividade económica concreta.
Valores não representam uma subida desde 1970
Os aumentos de 88% e 225% não correspondem à evolução da salinidade entre 1970 e 2024. Resultam da comparação entre os registos disponíveis e a condutividade que o modelo estima que existiria sem pressão humana relevante.
Os dados foram agregados ao longo de várias décadas e não representam uma medição realizada em 2026.
Os autores classificam a salinização como “um desafio ambiental pan-europeu que exige uma resposta de gestão coordenada e transfronteiriça” e defendem a criação de critérios específicos no âmbito da Diretiva-Quadro da Água.

















