O Porto de Sines é identificado como um ponto estratégico de entrada de espécies marinhas não autóctones em Portugal, devido à sua localização no cruzamento de rotas marítimas que ligam a Ásia, o Mediterrâneo, os Estados Unidos e África.
A conclusão consta de um estudo científico a que a agência Lusa teve acesso e que atualiza o levantamento das espécies não indígenas, também designadas introduzidas ou não autóctones, presentes nas águas costeiras portuguesas.
O trabalho concluiu que o número de espécies confirmadas aumentou cerca de 75% numa década, passando de 133 para 231 registos no continente e nas regiões autónomas.
Sines no cruzamento de rotas marítimas internacionais
O estudo destaca Sines entre os portos nacionais e justifica a investigação específica desta zona com a localização do porto no cruzamento de várias rotas marítimas internacionais.
A navegação constitui o principal meio de introdução de novas espécies nas águas portuguesas, segundo Paula Chainho, investigadora do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE), uma das organizações responsáveis pelo projeto.
“A navegação é a principal causa de introdução de novos exemplares”, explicou a investigadora à Lusa. Os organismos podem ser transportados através da incrustação nos cascos das embarcações ou nas águas existentes nos tanques de lastro dos navios.
Estas águas são recolhidas para assegurar a estabilidade das embarcações durante as operações de carga e descarga, podendo ser libertadas posteriormente noutro ponto do mundo. Nesse processo, são transportados organismos vivos entre diferentes áreas geográficas.
A atividade portuária e a ligação de Sines a rotas provenientes de vários continentes colocam, assim, esta zona entre os locais considerados relevantes para a monitorização da entrada de espécies marinhas não autóctones.
Prevenção apontada como prioridade
Paula Chainho defende que a resposta deve concentrar-se na prevenção, uma vez que as espécies aquáticas são frequentemente detetadas apenas quando já se encontram instaladas num determinado local.
Existe uma convenção internacional que obriga ao tratamento das águas de lastro antes da sua descarga. Contudo, segundo a investigadora, não estão disponíveis em Portugal relatórios oficiais que permitam consultar a forma como estas regras têm sido aplicadas.
A aquacultura é indicada como outra possível via de entrada. Além das espécies destinadas à produção, podem ser transportados outros organismos associados. A introdução de espécies não indígenas nesta atividade está sujeita a um requerimento específico, mas a investigadora referiu à Lusa que também não existe informação sobre a verificação do cumprimento destas regras em Portugal.
Estudo confirma 231 espécies nas águas portuguesas
O levantamento incidiu nas águas costeiras, estuários e lagoas costeiras de Portugal continental, Açores e Madeira. Das 231 espécies confirmadas, 159 ocorrem no continente, 81 nos Açores e 62 na Madeira.
Nas águas do continente, 39% das espécies não indígenas identificadas têm origem no Pacífico Norte e 24% são provenientes de outras zonas do Atlântico Norte.
O estudo foi desenvolvido por 31 investigadores ligados a 11 universidades portuguesas e a outras organizações. Liderado pelo MARE e pela Rede de Investigação Aquática (ARNET), o trabalho foi publicado na revista científica Marine Pollution Bulletin.
Lista de vigilância inclui 22 espécies
A equipa criou também uma lista de vigilância com 22 espécies detetadas exclusivamente através de métodos moleculares, como a análise de ADN ambiental, mas cuja presença ainda não foi confirmada pela observação de exemplares.
Este método permite identificar material genético existente na água e sinalizar a possível presença de espécies antes de estas serem observadas no terreno.
Romeu Ribeiro, investigador do MARE e primeiro autor do estudo, citado pela Lusa, considera que o trabalho permitiu identificar padrões de introdução, lacunas no conhecimento genético e prioridades para a monitorização futura das águas portuguesas.















