António Lobo Antunes morreu este ano, mas hoje, faz 84 anos que nasceu.
E, como acontece com certos mortos, a notícia da sua morte, em Março, pareceu deslocada, como se tivesse chegado ao país errado. Foi por isso que demorei a escrever este texto, precisei de o ir ler e tentar perceber.
Há escritores que pertencem naturalmente ao seu tempo e ao seu lugar, e há outros, raros, que vivem em permanente desajuste com ambos. Lobo Antunes escreveu sempre a partir de um lugar onde Portugal ainda não chegou e talvez por isso o país nunca tenha sabido muito bem o que fazer com ele.
Houve admiração, claro. Houve reverência, entrevistas cerimoniais, aquela forma portuguesa de elogiar alguém mantendo sempre uma distância confortável daquilo que ele realmente fez. Mas o que António Lobo Antunes fez com a língua portuguesa não foi exatamente literatura no sentido tranquilo da palavra. Foi uma espécie de desmantelamento.
Frase após frase, desmontou todas as ilusões que o país conta a si próprio. A infância, a família, Lisboa, a memória, o império, tudo surgiu nos seus livros como nas casas antigas quando se levanta o soalho, com pó, vozes antigas, objetos deslocados, coisas que ninguém queria voltar a encontrar, mas que estiveram lá sempre.
No fundo de quase tudo estava Angola.
Uma Angola que regressa em fragmentos, em febres antigas, em noites que não acabam. Nos livros de Lobo Antunes, o ultramar é um eco permanente que se vai renovando, uma guerra que continua a acontecer no interior da sua/nossa memória.
Talvez seja por isso que as suas páginas parecem sempre habitadas por fantasmas.
Falam todos ao mesmo tempo, soldados, mães, filhos, médicos, velhos, crianças, pobres e ricos, históricos e anónimos. Ninguém termina uma frase porque ninguém terminou verdadeiramente aquela história. A literatura dele é uma casa cheia de vozes que tentam explicar o mesmo acontecimento sem nunca conseguirem organizá‑lo.
E talvez não haja forma de o organizar.
Se o prémio Nobel fosse apenas uma questão de grandeza literária, ambição formal, persistência de obra, capacidade de reinventar uma língua, António Lobo Antunes teria estado há muito tempo na lista inevitável da literatura europeia. Não porque representasse Portugal, mas porque poucos escritores escreveram o seu próprio país com tanta fidelidade.
Ele não consolava a história portuguesa. Escutava‑a. E escutá‑la significava ouvir aquilo que ficou por dizer depois das cerimónias, das comemorações, das narrativas nacionais bem compostas.
Nos seus livros há sempre um resto que não cabe no discurso oficial, há a humana vergonha, o medo, a ternura inesperada, a infância que regressa quando já é demasiado tarde.
Portugal prefere escritores que organizem a memória. Lobo Antunes fez o contrário e mostrou o que acontece quando a memória se desorganiza.
É por isso, que durante décadas, tenha parecido excessivo para alguns leitores. Demasiadas vozes, demasiadas frases que se dobram sobre si próprias, demasiada insistência em olhar para aquilo que o país preferia manter fechado.
Mas era precisamente aí que estava a sua grandeza, enquanto muitos tentaram explicar Portugal, ele mostrou que Portugal era inexplicável.
Agora que morreu, o país começará inevitavelmente a arrumá‑lo. Virão os títulos definitivos: “grande romancista, consciência da guerra, mestre da língua”. Essas fórmulas respeitáveis que servem para colocar um escritor numa estante confortável da memória nacional.
Mas Lobo Antunes nunca escreveu para caber em estantes.
Escreveu como quem nunca regressa inteiro, trazendo consigo fragmentos, vozes partidas, memórias desalinhadas, silêncios que não encaixam. Como quem sabe que há histórias que não se esclarecem, apenas se mantêm, para não se perderem de vez.
Escreveu para o que sobra depois de o país se explicar a si próprio, o rumor do que ficou por dizer, o peso do que não encontra forma, a guerra que persiste, discreta, dentro das pessoas, muito depois de ter saído das notícias.
Provavelmente seja esse o seu verdadeiro epitáfio.
Não que Portugal tenha perdido um dos seus maiores escritores, embora o tenha perdido. Mas que houve um homem que passou a vida inteira a escutar as vozes que o país preferia não ouvir.
E que, agora que ele se calou, talvez descubramos que não era só a vida dele que estava ali, era a vida de todos nós.
Luís Nunes dos Santos

















