InícioOpiniãoA realidade morreu?

A realidade morreu?

Uma das palavras mais usadas nos últimos tempos, até por quem não domina o conceito associado, é a agora famosa “percepção”.

A propósito da segurança, da corrupção, da disforia de género, das dificuldades de funcionamento do serviço nacional de saúde e quase tudo sobre o que é possível efabular.

De todos estes temas, há um que é particularmente querido a quem se dedica a criar realidades percebidas, ainda que não possam ser factualmente comprovadas e facilmente se percebe a razão. Das emoções humanas, o medo será aquela que mais cala fundo na nossa existência.

A criação de percepção da realidade com o objectivo de convencer a maioria de que aquilo que se percepciona existe, deve ser tão velha como a vida organizada em sociedade.

Das sondagens, que nos pretendem criar a percepção da existência de vencidos e vencedores antes de expressarmos nas urnas a nossa vontade, até à grosseira divulgação de uma mentira que, repetida mil vezes, se pretende tornar verdade, a utilização de estratégias para a criação de ondas que se tornam imparáveis em benefício de manipuladores baratos e caros, é algo que atravessa a nossa história enquanto humanos em estado relacional.

O que há de novo, nos tempos que vivemos, é a velocidade com que se pode atingir um público global através das ferramentas de comunicação próprias do nosso tempo. Uma idiotice dita numa taberna atingia a aldeia inteira e pouco mais. Uma idiotice dita numa televisão ou numa rede social atinge o mundo, transformado em aldeia global.

Voltemos à percepção de insegurança. Temos um canal de televisão que se dedica quase exclusivamente a notícias sobre criminalidade, divulgando informação sobre tudo o que é passível de ser crime, desde o homicídio até à condução sem habilitação legal. Temos irresponsáveis políticos que berram sobre insegurança sempre que lhe põem um microfone na frente (e há quem passe a vida a fazê-lo) associando-a à imigração. Temos um primeiro-ministro que vem, em horário nobre das televisões, anunciar “que somos um dos países mais seguros do mundo, mas…”, bem percebendo que o “mas” é verdadeiramente decisivo para quem ouve.

Bem podem os registos de ocorrência das polícias afirmarem o contrário, que a percepção generalizada é de que estamos numa terrível guerra contra a criminalidade. Para a maioria, a realidade mente e a sua “sensação” de insegurança é a verdade.

Estes são tempos perigosos para quem defende ciência assente em evidências comprovadas.

Basta lembrar-mo-nos das mulheres queimadas vivas por causa da percepção geral de que eram bruxas, de Giordano Bruno que teve o atrevimento de afirmar a infinitude do universo, contra a percepção geral de que o calhau onde vivemos era o centro de tudo e acabou na fogueira acusado de heresia, ou do poder nazi que criou a percepção nos arianos de que eram uma raça superior, ou a percepção de que entre todos os povos que existem no planeta há um que foi escolhido pelo demiurgo como seu.

É outra vez o tempo de serem considerados heréticos todos os que não aceitam as crenças nas percepções plantadas e se agarram aos factos e à realidade.

Parece ser um tempo em que os acreditam na inexistência da matéria, como defendia Berkeley no século XVIII, se sentem vitoriosos. A diferença é que o bispo irlandês parecia acreditar honestamente nas suas teorias, enquanto agora são apenas analfabetos funcionais a distribuir mentiras para obterem vantagens políticas.

Kant, citado por Umberto Eco numa das suas lições em La Milanesiana, afirmou “Se um homem recorre a notícias falsas prejudica, não um homem em particular, mas antes toda a Humanidade, pois, se o seu comportamento se generalizasse, o desejo humano natural de conhecer seria frustrado.”

Já cá chegámos meu caro Immanuel. A coisa agora é mais fina. A partir de uma só notícia verdadeira podem-se criar percepções falsas e de repente um cidadão detido por não ter carta de condução é um exemplo de um país de bandidos, que só pode ser posto em ordem por um qualquer candidato a defensor de “pessoas de bem”.

Maus tempos para quem insista em Eppur si muove.

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