Fui ver o filme sobre o homem que ajudou a decidir, através da meteorologia, o momento do desembarque aliado na Normandia. É uma história extraordinária, com muitos mapas, pressões atmosféricas, marés, nuvens, relatórios contraditórios, noites sem dormir e uma decisão que determinou o destino da Europa e o sucesso do desembarque.
A 5 de junho de 1944, Eisenhower (Bredan Fraser) estava a decidir se avançava com a maior operação anfíbia da História, pondo em risco centenas de milhares de homens, ou se adiava, arriscando perder a oportunidade militar. A previsão de uma curta melhoria do tempo abriu a janela para o desembarque de 6 de junho.
É legítimo que o cinema encontre aí uma grande narrativa. Há heroísmo, inteligência, tensão e drama. Vemos Eisenhower e Montgomery com os meteorologistas que tentavam arrancar ao céu uma estimativa através de dados analógicos e métodos inovadores.
Mas há uma coisa que estes filmes, e em muitas das narrativas contemporâneas sobre a Segunda Guerra Mundial, tendem a diluir a natureza do inimigo.
A guerra torna-se uma sucessão de operações militares e de decisões estratégicas. Os Aliados aparecem como os homens livres que enfrentaram as adversidades. Mas não se fala da brutalidade dos ideais tenebrosos do inimigo que os aliados combatiam.
Os homens que os americanos, britânicos, canadianos, franceses e tantos outros enfrentaram na Normandia não estavam ali simplesmente porque a Alemanha tinha perdido uma guerra anterior, porque Hitler era expansionista ou porque as nações europeias voltaram a entrar em conflito. Estavam ao serviço de uma ideologia. E essa ideologia tinha um nome, um programa e consequências concretas para o caso da derrota aliada.
Não se tratava somente de conquistar mais território, tratava-se de organizar a Europa pela hierarquia racial, pela eliminação dos considerados inferiores e pela supressão de toda a liberdade política. O antissemitismo era uma das suas colunas principais, a perseguição aos opositores outra.
Por isso, talvez devêssemos voltar a ler Mein Kampf. Não para lhe reconhecer qualquer grandeza intelectual, porque não tem, muito menos para transformar Hitler numa figura de fascínio histórico. Porque é útil recordar que, naquele livro monstruoso e confuso, estavam anunciadas muitas das ideias que depois seriam implementadas de forma absurdamente brutal. A obsessão racial, o ódio aos judeus, a destruição da democracia liberal, a necessidade de expansão territorial, a glorificação da força, estava lá bem descrita, numa prosa maníaca.
Não devemos tratar o passado como uma coisa segura. Como se a derrota militar do Nazismo em 1945 tivesse liquidado definitivamente as ideias que permitiram a catástrofe. Como se o mal estivesse encerrado num bunker em Berlim.
Não está.
As ideias não morrem nas datas dos armistícios. Perdem batalhas, recuam, mudam de linguagem, adaptam-se às circunstâncias e reaparecem com novas máscaras. Falam de ordem, de identidade, de pureza, de decadência, de inimigos internos.
É por isso que a memória não pode ser apenas comemorativa. Não basta depositar flores nos cemitérios militares, celebrar o desembarque da Normandia ou ver filmes sobre a coragem dos Aliados. É preciso perceber e reafirmar por que razão aqueles homens tiveram de atravessar o Canal da Mancha e morrer numa praia que não era a sua.
Foram combater uma tirania que submetera a Europa, essa é a parte que nunca pode desaparecer da narrativa.
Temos museus, livros, testemunhos gravados e os cemitérios. Mas, paradoxalmente, quanto mais fácil se torna aceder ao passado, mais fácil se torna consumi-lo sem o sentir. A História é transformada em conteúdo, a guerra é convertida em entretenimento.
O Dia D não foi uma aventura gloriosa, foi uma necessidade. Podemos admirar os meteorologistas que ajudaram a prever uma abertura no mau tempo, devemos reconhecer a responsabilidade de Eisenhower e a coragem de quem desembarcou na Normandia. Mas não podemos deixar que a beleza cinematográfica dessas histórias esconda o essencial.
Aqueles homens não combateram apenas contra tropas alemãs. Combateram em nome do mundo livre contra ideias de subjugação.
Luís Nunes dos Santos

















