De 29 a 31 de Julho de 1808 fomos para o Maneta

A Batalha de Évora de 29 de julho de 1808 constitui um dos episódios mais singulares da primeira invasão francesa, precisamente porque condensa, num espaço urbano concreto, a tensão entre um imperialismo militar moderno e uma sociedade ainda marcada por estruturas antigas, capazes de mobilização popular intensa. É esta tensão entre disciplina e improviso, estratégia e pânico, violência programada e resistência espontânea que torna Évora um caso exemplar para compreender o que se passou em Portugal durante as invasões francesas.

Em meados de 1808, Portugal encontrava-se formalmente subjugado ao poder Bonapartista. A corte refugiara-se no Brasil, o exército regular fora desarticulado e o governo de Junot assentava mais na força simbólica da presença francesa em Lisboa do que numa penetração efetiva no território.

A partir do momento em que a Espanha é absorvida no dispositivo imperial, com a deposição dos Bourbons e a imposição de José Bonaparte, o equilíbrio precário colapsa. O “dois de maio” madrileno desencadeia uma cadeia de revoltas que atravessa a fronteira e encontra, em Portugal, um terreno predisposto à insurreição com fortes redes locais onde a fidelidade à Casa de Bragança e à religião católica se converteu com facilidade em revolta aberta.

A reação portuguesa à ocupação francesa não nasce de um plano centralizado, nasce sobretudo da emergência de um “povo em armas” que, embora heterogéneo, assume um papel decisivo. Camponeses, pequenos proprietários, artesãos, clero regular e secular, nobres, todos convergem para resisitir.

A confiança francesa na importância decisiva das cidades, partilhada por Napoleão revela-se, assim, parcialmente ilusória, porque dominar Lisboa não era o mesmo que dominar Portugal.

No contexto desta geografia política, o Alentejo assume uma relevância particular, por ser a via mais rápida de trânsito entre Lisboa e a fronteira espanhola e por isso um sítio onde podia haver maior ruído.

É neste quadro que converge, em meados de julho de 1808, uma pluralidade de oficiais portugueses, contingentes espanhóis, juntas locais, clero e populações para organizarem uma insurreição.

Nos dias que antecedem o ataque, Évora transforma-se numa praça militar. Há revista às tropas no Rossio, chegam peças de artilharia, entram forças espanholas, articulam-se as juntas de Estremoz, Beja, Campo Maior, entre outras. O cerimonial público, as vivas ao príncipe regente, missas solenes, beija-mão a imagens de D. João, interpenetra-se com o dispositivo militar, numa coreografia que exprime simultaneamente fervor político, religioso e de revolta contra os franceses.

A defesa é pensada em dois níveis. Extramuros, procurando-se construir uma linha de resistência clássica, com a artilharia colocada nos pontos dominantes (Alto de São Bento, Outeiro de São Caetano, Quinta do Alto dos Cucos e Cruz da Picada), infantaria organizada em torno da estrada real, cavalaria distribuída para conter e retardar o avanço francês. Intramuros, a cidade arma-se como pode, moradores, artesãos, clérigos, todos procuram lugar na defesa, conscientes de que os velhos muros fernandinos, degradados e estruturalmente inadequados à artilharia moderna, não constituíam uma barreira segura.

Quando, na manhã de 29 de julho, o exército de Loisson, o Maneta, se aproximou de Évora, a desproporção de meios é evidente. Do lado eborense, uma força mista luso-espanhola que rondava os dois mil homens, apoiada por uma população armada de forma desigual, do lado francês, sete mil soldados experientes, distribuídos por batalhões de infantaria de linha e ligeira, granadeiros, dragões e artilharia preparada para operações de assalto urbano.

A isto soma-se um fator que não é despiciendo, a familiaridade prévia com o terreno. A presença anterior de destacamentos franceses na cidade e a existência de espiões, confere a Loisson e aos seus subordinados uma vantagem de reconhecimento que a defesa local improvisada, dificilmente conseguia acompanhar.

O confronto inicia-se com artilharia portuguesa e espanhola a tentar, em vão, quebrar o avanço disciplinado das colunas francesas. A cavalaria defensora, nunca totalmente segura da eficácia do dispositivo, acaba por se retirar antes de entrar em batalha, deixando a infantaria e, em particular, unidades como o regimento de Estremoz exposto e isolado na tentativa de manter uma linha que, na prática, já cedera.

Enquanto a defesa eborense, comanda pelo General Francisco de Paula Leite, concentra o essencial da sua atenção na coluna central francesa, as forças de Loisson executam uma manobra de envolvimento lateral, dividindo-se em três colunas e bloqueando progressivamente as possibilidades de retraimento e reorganização do dispositivo eborense.

Este movimento de “pinça”, articulado com o conhecimento das fraquezas da muralha e das entradas urbanas, tornam inevitável o colapso da linha extramuros e precipita a transição do combate em campo aberto para o assalto à cidade. As horas seguintes marcaram a passagem de uma lógica de batalha para uma lógica de punição, onde o espaço urbano inteiro se converte num campo de violência e banho de sangue generalizado.

Por volta das quatro da tarde, Évora encontra-se militarmente perdida. As posições nas muralhas são abandonadas, a artilharia defensiva é silenciada, e os combates deslocam-se para o interior das ruas, becos e casas, onde a resistência, embora tenaz em muitos pontos, já não consegue alterar o curso geral dos acontecimentos.

O saque de Évora, nos três dias seguintes, inscreve-se num cenário de puro terror típico do período napoleónico, onde as operações militares não se esgotavam na neutralização da resistência, mas prosseguem na forma de violência exemplar sobre pessoas e bens, pensada como advertência exemplar para outras localidades insurgentes.

As fontes coevas são concordantes na descrição de um clima de violência extrema, casas pilhadas, património destruído, incêndios deliberados, execuções sumárias, violações de mulheres em série, crianças e idosos mortos sem distinção. O espaço sagrado deixa de funcionar como refúgio, igrejas e conventos são saqueados, altares profanados, religiosos perseguidos, num gesto que combina a cobiça pelo património existente com um anticlericalismo de matriz revolucionária jacobina.

Do ponto de vista estratégico, Évora não alterou decisivamente o curso imediato da primeira invasão, a convenção de Sintra e a retirada francesa acabariam por depender da intervenção britânica. Mas a experiência eborense deixou marcas profundas em dois planos.

No plano militar, contribuiu para uma aprendizagem rápida por parte das forças portuguesas de que a defesa rígida de cidades e de posições fixas em campo aberto beneficiava o modelo de guerra francês, dotado de artilharia e disciplina superiores, e que a resistência teria de se apoiar antes na mobilidade, na fragmentação e na adaptação ao terreno.

No plano da memória histórica e cultural, Évora cristalizou‑se como símbolo da brutalidade das invasões e da capacidade de sacrifício de uma população que, com meios escassos, decidiu não aceitar passivamente a ocupação. A própria linguagem corrente reteve o eco desta violência, convertendo o nome de Loisson, o “maneta”, em expressão popular de maldição e ameaça, sinal de como os traumas históricos se inscreveram no léxico quotidiano.

Escrevo esta crónica no dia em que faz 218 anos da saída das tropas francesas da cidade de Évora, onde deixaram um rastro de destruição e de pilhagem e de morte que se notou durante muitos anos. Segundo várias fontes, foram massacrados 2 a 8 mil eborenses e 90 mortos do lado francês.

Nesta data, invoco humildemente o nome dos que morreram a defender a nossa cidade para que o seu sacrifício não se perca nas brumas da memória e presto homenagem à figura maior desta resistência, o Arcebispo de Évora, Dom Frei Manuel do Cenáculo, pelo seu exemplo de abnegação e de liderança num momento terrível da nossa história.

Luís Nunes dos Santos

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