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Campanha de tosquia arranca no Alentejo com mais ovelhas e sinais de recuperação: “Em 2024 ninguém queria a lã”

A campanha de tosquia já arrancou no Alentejo, com mais animais e sinais de recuperação do mercado da lã após um ano sem procura.

A campanha de tosquia já começou no Alentejo e deverá prolongar-se até meados de junho, num ano em que os produtores antecipam mais animais e uma ligeira recuperação no mercado da lã, após um período marcado pela falta de procura.

Segundo Miguel Madeira, vice-presidente da Associação de Agricultores do Sul (ACOS), em declarações ao jornal ODigital.pt, as equipas iniciaram os trabalhos no final do mês de março, com “muitos animais para tosquiar”.

“O ano passado tosquiámos mais de 200 mil ovelhas e este ano a fasquia ainda está um bocadinho mais alta”, vincou o vice-presidente.

Depois de um ano sem procura, lã volta a ter saída

O arranque da campanha de tosquia acontece num contexto diferente do registado nos últimos anos, marcados pela quebra acentuada do mercado da lã.

“Em 2024 ninguém queria a lã e ela não tinha valor comercial, ou muito pouco valor comercial”, recordou Miguel Madeira, sublinhando que, em muitos casos, “não justificava o transporte da exploração para o sítio onde ela devia de ser concentrada”.

A falta de procura levou mesmo à acumulação de lã nas explorações, sobretudo entre produtores sem ligação a organizações, numa fase em que o produto deixou de ter escoamento.

Este ano, o cenário apresenta sinais de mudança. “Já há sinais de que há alguma movimentação nos mercados internacionais”, afirmou o vice-presidente da ACOS, embora ressalve que os preços continuam aquém do necessário para garantir sustentabilidade económica.

Campanha depende do tempo seco

A campanha de tosquia decorre sob forte dependência das condições meteorológicas, sendo o tempo seco um fator determinante para garantir a qualidade da lã e a eficácia dos trabalhos no terreno.

“Para tosquiar temos de ter tempo seco, mas, por outro lado, também precisamos de chuva para a agricultura”, explicou Miguel Madeira, apontando para a necessidade de equilibrar duas exigências distintas no setor.

A chuva pode comprometer diretamente a operação, uma vez que a lã perde valor quando os animais estão molhados no momento da tosquia. “Não se podem tosquiar ovelhas molhadas, porque a lã depois estraga-se”, realçou.

Para contornar essa limitação, os produtores recorrem a explorações com infraestruturas cobertas, onde é possível manter os animais abrigados em dias de precipitação e garantir a continuidade dos trabalhos.

Apesar destas condicionantes, a campanha arrancou com normalidade, com equipas técnicas e tosquiadores já no terreno e um número elevado de inscrições, o que aponta para uma operação prolongada até meados de junho.

Lã continua a não compensar custos

Apesar da retoma da procura, a lã mantém um peso reduzido no rendimento das explorações, sendo frequentemente encarada como um encargo.

“Quase sempre é um encargo e não um benefício”, confessou Miguel Madeira, explicando que, ao contrário do passado, a lã deixou de ser uma mais-valia relevante para os produtores.

Ainda assim, há sinais de melhoria face aos últimos anos. “Os preços ainda estão baixos relativamente ao que seria desejável para os produtores não terem prejuízo com a operação tosquia, mas já estão acima dos do ano passado e de há dois anos”, referiu.

Dependência do exterior agrava dificuldades

Um dos principais constrangimentos da fileira da lã em Portugal prende-se com a incapacidade de assegurar todo o processo em território nacional.

“Temos muita dificuldade em fazer todo o circuito da lã em território nacional, porque fomos perdendo lavadouros de lã”, esclareceu Miguel Madeira, apontando a falta destas infraestruturas como um dos principais entraves ao setor.

Atualmente, uma parte significativa da lã produzida em Portugal tem de ser enviada para o estrangeiro para ser lavada, numa operação que, segundo o responsável, “se está a deslocar para Oriente, para a China e para a Índia”.

O fenómeno é justificado por fatores económicos e regulatórios. “Por questões de contexto económico, mão de obra mais barata, mais facilidade de licenciar esses estabelecimentos, do ponto de vista ambiental”, acrescentou, sublinhando a dificuldade de competir com esses mercados.

Falta de mão de obra e custos pressionam setor

A campanha de tosquia enfrenta também constrangimentos ao nível da mão de obra, com escassez de profissionais em Portugal e na Europa.

“Estamos a tosquiar com tosquiadores que vêm do hemisfério sul. No nosso caso, vêm do Uruguai e da Argentina, porque não temos tosquiadores em número suficiente em Portugal”, admitiu Miguel Madeira.

A par desta dificuldade, o aumento dos custos de transporte e energia está a afetar toda a cadeia agrícola, num contexto internacional marcado por instabilidade.

“Tudo isto seguramente vai encarecer quer os alimentos, quer todos os outros produtos que têm origem na parte agrícola, pecuária e florestal”, alertou.

Novos usos procuram valorizar a lã

Perante este cenário, o setor procura alternativas para valorizar a lã, sobretudo a de menor qualidade, que não tem destino na indústria têxtil.

Entre as soluções em desenvolvimento estão a utilização como fertilizante, a incorporação em materiais de construção ou a produção de pellets para uso agrícola.

Ainda assim, o objetivo principal mantém-se: “Que as boas lãs tenham como destino a fiação ou a produção de tecidos”, uma vez que representam maior valorização económica no mercado.

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