A área ocupada por culturas cerealíferas na zona de influência do Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva (EFMA) manteve-se estável em 2024, registando um ligeiro aumento de 9% face ao ano anterior, segundo o Anuário Agrícola de Alqueva 2024, publicado pela Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva (EDIA). A cevada foi a cultura que mais contribuiu para este crescimento, com um acréscimo de cerca de 200 hectares.
De acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), a área dedicada aos cereais em Portugal tem vindo a diminuir significativamente ao longo da última década. Em 2023, estas culturas ocupavam aproximadamente 188 mil hectares no território nacional, menos 113 mil do que há dez anos. No Alentejo, região onde se situa o EFMA, a área semeada de cereais foi de 67 mil hectares, registando uma redução de cerca de 80 mil hectares no mesmo período.
A tendência de decréscimo das culturas cerealíferas em Portugal é justificada pela baixa rentabilidade económica destas produções face a outras culturas de maior valor acrescentado, como o olival, o amendoal e as frutícolas intensivas. Apesar disso, os cereais de regadio continuam a ter alguma relevância em Alqueva, sobretudo o milho, que ocupa uma posição estratégica, embora a área dedicada a esta cultura tenha diminuído cerca de 30% em relação a 2023.
O Anuário Agrícola de Alqueva 2024 revela ainda que as culturas cerealíferas mais cultivadas na região são o trigo e a cevada. A cevada, em particular, tem registado um aumento na área de produção devido ao programa de fornecimento para malte promovido pela empresa Maltibérica, que tem estabelecido contratos de produção com os agricultores da região, garantindo melhores condições de escoamento e preços competitivos.
Em 2018, o Governo português aprovou a Estratégia Nacional para a Promoção da Produção de Cereais (ENPPC), com o objetivo de aumentar o grau de autoaprovisionamento nacional para 38%, incluindo metas específicas para o arroz (80%), milho (50%) e cereais praganosos como trigo, cevada e aveia (20%). No entanto, seis anos após a sua implementação, os resultados da estratégia ficaram aquém do esperado, com a produção nacional a continuar a diminuir e a dependência das importações a manter-se elevada.
Segundo o Anuário, a área dedicada aos cereais no EFMA estabilizou nos últimos anos em torno dos 3.150 hectares, sendo que, em 2024, se verificou um crescimento de 9% em relação ao ano anterior, impulsionado pelo aumento da produção de cevada. Os restantes cereais mantiveram-se praticamente inalterados, refletindo a incerteza dos agricultores face à volatilidade do mercado.
A produção nacional de cereais continua a depender das condições meteorológicas, que nos últimos anos têm sido desafiantes. O relatório aponta que, após duas campanhas afetadas pela seca, 2024 apresentou condições mais favoráveis, permitindo um aumento das produtividades entre 10% e 130% face ao ano anterior. No entanto, os preços pagos aos produtores foram inferiores aos registados em 2022 e 2023, refletindo uma normalização do mercado após o impacto inicial da guerra na Ucrânia.
A EDIA sublinha que, nas áreas onde existe disponibilidade de rega, os agricultores têm optado cada vez mais por converter terrenos de culturas anuais em culturas permanentes, como olival e amendoal, que oferecem maior rentabilidade e estabilidade económica. Em parcelas sem acesso à rega, o risco climático e a variabilidade produtiva levam muitos produtores a optar por pastagens extensivas ou, em alguns casos, pelo abandono da atividade agrícola.
José Pereira Palha, da Associação Nacional de Produtores de Cereais (ANPOC), destaca no Anuário Agrícola de Alqueva 2024 a importância de reforçar as reservas hídricas no país para garantir a viabilidade da produção de cereais. «É essencial que sejam promovidas mais reservas de água em todo o território, permitindo a continuidade da atividade agrícola, a fixação das populações e a manutenção da economia rural», refere.
Com a progressiva transformação da paisagem agrícola do Alentejo e a aposta crescente em culturas permanentes, os cereais continuam a ter um papel relevante no setor agrícola da região. No entanto, a sua sustentabilidade a longo prazo dependerá de medidas que promovam a competitividade do setor, incluindo o apoio à modernização das explorações, o desenvolvimento de cadeias de valor mais eficientes e a criação de incentivos para a produção nacional.



















