Vou começar a escrever sobre livros que são a nossa memória coletiva e que todos devíamos ler. Já escrevi neste fórum sobre o “Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico”, vou por isso intercalar este tipo de análise literária com as crónicas da política atual, porque só assim consigo vislumbrar sucesso nas discussões sobre a opções políticas que temos feito na região e para onde queremos levar o Alentejo.
“Ricos e Pobres no Alentejo” é uma monografia antropológica exemplar sobre a vida no Alentejo, o latifúndio característico dos anos 60 na região e um texto descritivo sobre a natureza rural no Portugal do Estado Novo, que resulta de trabalho de campo entre 1965 e 1967 numa freguesia do Alentejo a que Cutileiro chamou “Vila Velha”, perto de Évora, publicado em 1971 em inglês pela Oxford University Press e apenas em 1977 em português, já depois do 25 de Abril.
Cutileiro inscreve‑se na grande vaga da antropologia europeia sobre sociedades rurais mediterrânicas, oferecendo o contributo português a esse debate comparado.
A obra é organizada nos blocos temáticos da posse da terra e estratificação social, família e parentesco, vizinhança e compadrio, estrutura política e religião. Os episódios, retratos de pessoas concretas, diálogos e pequenas cenas do quotidiano tornam legível o labirinto das suas relações sociais.
A construção de “Vila Velha” como personagem coletiva surge com voz própria, com moralidade, medos, invejas, formas de honra e vergonha. A atenção à intimidade, amizade, namoro, casamento, papel da mulher, gestão familiar é essencial, porque é aqui que se vê como a dominação económica e política se infiltra nos afetos e na vida doméstica.
Há também uma ironia discreta na forma como Cutileiro descreve tanto os grandes proprietários como os pobres que deles dependem, evitando o panfleto critico e deixando que os factos falem. Essa contenção estilística reforça o efeito pretendido.
O livro descreve uma sociedade agrária profundamente marcada por grandes propriedades, forte concentração da terra e desigualdades. A estrutura fundiária gera classes sociais distintas e marcadas por grandes proprietários, rendeiros, trabalhadores permanentes e eventuais, num sistema hierárquico.
Cutileiro mostra que o poder dos ricos é simultaneamente económico, político e simbólico.
Ao mesmo tempo, o autor distingue entre grandes explorações eficientes, vistas com respeito pelos trabalhadores, e proprietários absentistas, que alimentam os ressentimentos contra o “rico que tem bastante para si e não se preocupa com a comunidade”. Esta nuance importante, impede a leitura simplista de “ricos maus, pobres bons” e aproxima o livro de uma análise social justa.
“Ricos e Pobres no Alentejo” é também o estudo dos mecanismos da estrutura política do Estado Novo no mundo rural, mostrando como a ditadura se apoiava na aliança entre grandes proprietários, poderes locais e Igreja.
No posfácio da edição portuguesa, escrito anos depois, Cutileiro é explícito sobre a ambivalência da Reforma Agrária: substituir as grandes famílias pela tutela direta do Estado não eliminou o controlo de poucos sobre muitos. Na descrição das cooperativas, surgem relatos de favoritismo, intriga política, abuso de autoridade e reprodução, sob outra vertente ideológica, de padrões tradicionais de mando.
Esta leitura é particularmente relevante, porque sugere que as mudanças de proprietário, do senhorio privado para o Estado ou para estruturas cooperativas, pouco alteraram as lógicas profundas de poder.
Relido à distância, “Ricos e Pobres no Alentejo” ajuda a perceber porque é que certas fragilidades da região persistem: concentração de poder, fragilidade da classe média local, emigração, desconfiança em relação a projectos de mudança exógenos.
O livro antecipa, de certa forma, a dificuldade em construir um desenvolvimento regional verdadeiramente autónomo. Do ponto de vista da cultura política, a obra oferece uma matriz para pensar a tensão entre pertença comunitária, lealdades pessoais e exigência de Estado de direito, que está no centro da consolidação democrática em regiões periféricas.
É a partir deste mundo rural que podemos perceber as ligações sociais que atravessam ainda hoje a malha do Alentejo. O mundo mudou, o nosso Alentejo também, mas persistem resquícios do que fomos.
Por isso é decisivo manter aberto o diálogo entre gerações, para que o futuro se construa com o passado, não como peso morto, mas como matéria a corrigir, depurar e melhorar.
As estruturas sociais deixam marcas longas, quem não compreende a estrutura profunda do Alentejo continuará a errar nas suas soluções.
É um livro a ler com atenção.
Luís Nunes dos Santos

