Nestes tempos, onde juntar mais que dez palavras para exprimir uma opinião é visto e lido como “complicar as coisas” e onde a frase “não há outra forma de dizer isto” parece ser a muleta de cada vez mais gente com a responsabilidade de comunicar, é preciso defender a vilipendiada palavra, “mas”.
Condenar uma acção e utilizar o “mas” para enquadrar historicamente essa acção, permite, de imediato, a uma chusma de furiosos adeptos da luta entre o bem e mal, sempre valores absolutos para os moralistas de serviço, partirem para a colagem do utilizador da palavrinha proibida ao lado rotulado de mau da questão controvertida.
Muita gente já escreveu textos de análise e ensaios sobre como o empobrecimento da linguagem é causa e consequência do empobrecimento do pensamento crítico, que permite fugir das armadilhas da manipulação mais grosseira e que nos empurra para aquilo abismo que andamos todos a adivinhar.
Podemos discordar do que se diz a seguir à palavra “mas” e recusar, fundamentadamente, argumentações que apenas servem para justificar o que na nossa opinião poderá ser injustificável, mas fazer parar uma argumentação após a verbalização da palavra maldita é algo que, a mim, que gosto de palavras, não me faz qualquer sentido.
A palavra “mas” assume-se como uma resistente, nestes tempos de linguagem binária, de “opiniões” em 130 caracteres, de prós e contras, de formação de “opinião” sem ter em conta o conhecimento necessário sobre o assunto alvo da opinião.
É verdade que sempre existiu esta tendência para a simplificação, para a rotulagem agregadora que permite uma comunicação mais imediata mas, começo a tropeçar demasiadas vezes nesta diabolização da fundamentação, do domínio de conceitos e da análise das matizes de todos os cinzentos, por parte de gente que tem a obrigação, por formação, história de vida e até por reconhecida inteligência, de pensar de forma diferente.
Quanto menos palavras usarmos, quanto mais agregarmos coisa diferentes sobre o mesmo “chapéu” (a palavra evento para designar coisas completamente diferentes, é já um exemplo clássico), quanto mais empobrecermos a nossa capacidade de ler a realidade, com todas as suas matizes, mais espaço se abre ao processo manipulador que leva ao colo o PREC, o processo reacionário em curso.


















