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Capital da Cultura ou Capital do Abandono?

“Se não houver uma intervenção profunda e urgente em 2026, corremos o risco de receber quem nos visita com buracos e escuridão, oferecendo uma primeira imagem da cidade que desmente categoricamente as promessas de excelência e desenvolvimento que temos tentado vender ao mundo”

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“Se não houver uma intervenção profunda e urgente em 2026, corremos o risco de receber quem nos visita com buracos e escuridão, oferecendo uma primeira imagem da cidade que desmente categoricamente as promessas de excelência e desenvolvimento que temos tentado vender ao mundo”.

Infelizmente, o estado em que se encontra a cidade de Évora não me deixa outra alternativa se não voltar a insistir num tema que tenho vindo a abordar várias vezes. Considero ser da minha responsabilidade enquanto representante político em Évora insistir perante uma situação tão grave de degradação das condições que são oferecidas aos eborenses.

Chegamos ao ponto de em certos casos olharmos para a capacidade de ir do ponto A ao ponto B em Évora como um luxo. Mas será realmente um luxo uma pessoa conseguir chegar de casa ao trabalho em condições? Será que não é o mínimo básico que se pode oferecer a um cidadão de um país desenvolvido garantir que as suas deslocações são feitas em segurança, sejam elas para o trabalho, para casa, para a escola dos filhos, para consultas médicas, para as compras diárias que muitos fazem?

Os pedidos de reparação dos estragos são diários, assim como a indignação, mas é errado olhar para este problema esquecendo tudo aquilo que vem do passado. O problema das estradas estragadas em Évora não é de hoje. Na verdade, dura há muitos anos, mas no último par deles tem-se intensificado de uma forma preocupante.

Como se o problema dos buracos não fosse suficiente, é agora notória a indignação dos eborenses perante a fraca iluminação na cidade em horas de muita circulação. Perto das 7:30, por exemplo, quando já muitas pessoas se deslocam para os empregos ou deles saem, e outras se deslocam para zonas como a rodoviária ou a estação de comboios, para se deslocarem para os empregos

noutras localidades, grande parte da cidade está às escuras, fazendo da única iluminação os faróis dos carros, claramente insuficiente, principalmente em zonas de cruzamentos. Para além disso, em plena hora de ponta, perto das 18 horas, quando em horário de inverno já se aproxima a noite escura, a iluminação pública nas principais variantes está também desligada, prejudicando o campo de visão de muitos condutores.

Este é problema grave. Há muito que deixou de ser uma simples questão estética. Há muito tempo que o problema dos buracos, e também da iluminação nas estradas de Évora, deixou de indignar por uma questão visual, passando a ser uma questão de segurança pública.

Qualquer cidadão bem informado está consciencializado para o perigo diário de andar nas estradas. É, de facto, perigoso andar nas estradas, e por isso são frequentes campanhas de sensibilização com vista a sensibilizar os condutores para uma condução segura. Espera-se, por isso, que uma Câmara Municipal faça o seu melhor para garantir que na sua zona os condutores possam circular da forma mais segura possível, ainda para mais em épocas de alertas constantes para o mau tempo. No entanto, não é isto que os habitantes de Évora sentem.

Numa época em que se multiplicam as partilhas do município sobre as preparações para a Capital Europeia da Cultura, os eborenses observam um agravar das condições nas suas ruas. Fazendo um simples exercício, que colocará a cidade à prova também no que à Capital Europeia da Cultura diz respeito, verificamos que Évora não tem aeroporto, e como tal, todos os turistas que se esperam receber entrarão em Évora pelas nossas estradas. Não poderei, por isso, deixar de lamentar que, a não ser que Évora seja alvo de uma intervenção profunda durante o ano de 2026, a primeira imagem de quem visitará Évora seja uma cidade completamente diferente daquela que lhe prometeram apresentar.

Resumidamente, a situação de degradação das vias públicas em Évora e as graves falhas na iluminação em horas críticas deixaram de ser meros incómodos estéticos para se tornarem um sério problema de segurança pública, que
compromete o direito básico dos cidadãos de circularem em segurança na sua própria cidade. Se não houver uma intervenção profunda e urgente até 2026, corremos o risco de receber quem nos visita com buracos e escuridão, oferecendo uma primeira imagem da cidade que desmente categoricamente as promessas de excelência e desenvolvimento que temos tentado vender ao mundo.

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