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Abril não pode ser só memória

O mês de abril remete-nos para a liberdade. Foi em abril que Portugal mudou de rumo, que se reescreveu a sua história e que um povo conquistou aquilo que durante demasiado tempo lhe foi negado.

Mas abril não pode ser apenas memória.

Todos os anos assinalamos o Revolução dos Cravos com discursos, cerimónias e símbolos. E ainda bem que o fazemos. Mas há uma pergunta que importa fazer: será que estamos, de facto, a honrar o significado dessa liberdade no dia a dia?

A liberdade não vive apenas nas datas. Vive nas escolhas. Vive nas oportunidades. Vive na capacidade de cada cidadão participar, decidir e construir o seu próprio caminho.

E é precisamente aqui que o papel dos jovens e em particular dos estudantes se torna central.

As universidades não são apenas espaços de formação académica. São espaços de pensamento crítico, de debate e de participação. São, muitas vezes, o primeiro contacto real com a cidadania ativa. Enquanto dirigente estudantil na Universidade de Évora, essa é uma realidade que se sente de perto: a liberdade também se aprende, exercendo-a.

Mas nem sempre isso acontece como deveria…

Ainda existe afastamento dos jovens da participação cívica, desinteresse pela política e uma certa ideia de que a intervenção não faz diferença. E isso deve preocupar-nos. Porque a liberdade não se perde apenas quando é retirada perde-se também quando deixa de ser exercida.

A liberdade de um povo não se esgota no direito de votar ou de falar. Exige condições reais: acesso à educação, pensamento crítico, literacia e igualdade de oportunidades. Sem isso, torna-se incompleta formal, mas distante da vida concreta das pessoas.

É nas pequenas conquistas do quotidiano que se constrói uma sociedade verdadeiramente livre. No acesso à informação, na capacidade de questionar, na participação ativa seja numa associação, numa sala de aula ou na comunidade.

E talvez seja esse o maior desafio da nossa geração: não dar a liberdade como garantida.

Abril não foi um ponto de chegada. Foi um ponto de partida.

E a melhor forma de o celebrar não é apenas lembrar o passado, mas assumir responsabilidade no presente. Participar mais, questionar mais, exigir mais e, acima de tudo, não ficar indiferente.

Porque a liberdade só faz sentido quando é vivida todos os dias.

Ana Beatriz Calado

Presidente da Associação Académica da Universidade de Évora

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