A história de Noelia, a jovem que morreu em Espanha após a administração da eutanásia, não terminou com a sua morte. Pelo contrário: talvez seja agora que verdadeiramente começa. Não para reabrir o debate, tantas vezes polarizado, sobre a concordância ou discordância em relação à eutanásia, mas para nos obrigar a uma reflexão mais profunda, mais incómoda e mais humana: onde começou, afinal, o sofrimento de Noelia? É essa pergunta que deve inquietar-nos.
Ao ler que esta jovem viveu, aos 14 anos, uma separação litigiosa dos pais, fui imediatamente levado a pensar que a sua história não começou no desfecho que ontem conhecemos. Começou muito antes. Começou, provavelmente, numa sucessão de feridas indizíveis, de ruturas emocionais, de solidões acumuladas, de dores sem nome e sem aquele abraço. E, como tantas outras histórias que vemos passar apressadamente nas notícias, a de Noelia obriga-nos a olhar para montante, para a origem, para o terreno onde o sofrimento se instala antes de se tornar irreversível.
Quase ao mesmo tempo, chega-nos outra tragédia: a de um ex-guarda da Gendarmerie francesa, detido em Portugal depois de matar a ex-mulher e a companheira, num contexto marcado por conflito, perseguição e disputa em torno da guarda de um filho. Mais uma vez, uma criança ou um adolescente apanhado no centro da violência dos adultos. Mais uma vez, uma história onde o amor falhou, a proteção falhou, os limites falharam e a humanidade cedeu espaço ao abismo.
À primeira vista, são casos diferentes. Mas não são assim tão distantes. Num deles, uma jovem procura pôr fim a um sofrimento íntimo, profundo, talvez já insuportável. No outro, um homem, incapaz de lidar com a perda, com a frustração e com a recusa, transforma-se em agente de destruição. Uma deseja morrer; o outro decide matar. Em ambos os casos, porém, há vidas atravessadas por violência emocional, por fragilidades não cuidadas, por ruturas familiares mal resolvidas, por crianças e jovens expostos a conflitos que nunca deveriam carregar.
Que sociedade é esta que, apesar de todos os avanços civilizacionais, tecnológicos e jurídicos, continua a falhar naquilo que é mais essencial: proteger a infância, cuidar da saúde emocional, prevenir o sofrimento antes de ele se tornar destino? É urgente trabalhar a montante. Não apenas quando a tragédia já aconteceu, não apenas na hora do comentário mediático ou da indignação passageira, mas muito antes: na salvaguarda efetiva dos direitos das crianças e dos jovens que sobrevivem, tantas vezes em silêncio, às guerras dos adultos. Crianças que, no meio de separações destrutivas, são usadas como armas de arremesso, instrumentos de vingança, troféus emocionais. Crianças que crescem entre lealdades partidas, vergonha, medo, culpa, insegurança e abandono afetivo. E depois admiramo-nos com o que vem a jusante.
Não vale a pena assobiar para o lado. A evidência científica é clara: a exposição prolongada ao conflito parental, à instrumentalização emocional e à instabilidade afetiva tem efeitos graves no desenvolvimento psíquico, relacional e social de crianças e adolescentes. O que falta, na minha opinião, não é conhecimento, mas coragem coletiva nas organizações, na família, para colocar verdadeiramente a criança no epicentro. O mais perturbador é perceber que o fim nunca começa no fim. Começa muito antes, quando se normaliza a violência relacional, se desvaloriza a dor psíquica e se transforma a infância em campo de batalha.
A história de Noelia obriga-nos a perguntar quantas crianças e jovens continuam hoje a sobreviver onde deveriam simplesmente viver. Estas histórias falam de vidas vulneráveis e frágeis muito antes do desfecho. Por isso, mais do que discutir a morte, importa interrogar a vida, os contextos e as omissões que a tornam insuportável. Viver + torna-se imperativo! A final de contas, há mortes que começam muitos anos antes de acontecer.


















