O regime iraniano é abominável. Não há outra palavra. Um sistema que se sustenta na repressão, no medo e na morte de quem exige o mais básico dos direitos humanos, a liberdade, não merece relativizações nem análises excessivamente sofisticadas. Felizmente este regime parece hoje mais próximo do fim do que em muitos outros momentos da sua história recente. Não por generosidade de quem está no poder, mas porque há um povo que insiste em não se resignar.
A minha solidariedade é total com os protestantes iranianos. Homens e mulheres que sabem perfeitamente que sair à rua pode significar prisão, tortura ou morte, e que ainda assim o fazem com toda a convicção. Pessoas que não pedem privilégios, apenas direitos básicos: viver sem medo, sem opressão, respirar liberdade. Os iranianos que protestam diariamente contra o regime lembram-nos do quanto custa conquistar a liberdade, mesmo que em certos momentos a relativizemos sem darmos conta.
Registe-se, ainda assim, o quase silêncio da comunicação social portuguesa. Não é um silêncio total, claro está. Falo de uma seletividade que me parece profundamente injusta. O Irão aparece raramente, de forma lateral, sem destaque, sem urgência, em notas de rodapé. Como se milhares de mortos, que segundo várias organizações já passam os 2500, incluindo funcionários da Cruz Vermelha, fossem um simples detalhe que pode incomodar, mas não o suficiente para motivar horas de debates, aberturas de telejornais e aquelas famosas manifestações de rua.
Esta é uma ironia que não pertence só aos órgãos de comunicação social. Esta é uma oportunidade para voltarmos a lembrar os grandes ativistas de ocasião. Aqueles que enchem as ruas com bandeiras da Palestina, que fazem vídeos a chorar, que falam, e bem, do direito dos povos à autodeterminação e à liberdade. Curiosamente, esses mesmos ativistas ignoram os mortos no Irão. Não os vemos em protestos na rua, não os ouvimos em discursos inflamados, não organizam
flotilhas nem vigílias. Pessoas assassinadas sem dó nem piedade por lutarem pela liberdade parecem não encaixar bem na narrativa certa, com os vilões certos. Vemos até crónicas de opinião que optam por desculpabilizar ações do regime iraniano, preferindo, como sempre, colocar no centro da polémica os culpados do costume para quem vive na sua bolha: os Estados Unidos e o Ocidente. Um detalhe curioso.
Desejo sinceramente que o regime iraniano caia rapidamente. Que o Irão possa finalmente celebrar a liberdade que lhe tem sido roubada há décadas. E que, quando isso acontecer, muitos dos que escolheram o esconderijo da sua hipocrisia tenham a decência de admitir que ficaram em silêncio quando mais importava falar.


















