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Ser mãe era um dos principais projetos de vida de Soraia Almeida. Durante anos imaginou a família que gostaria de construir, até receber uma informação que colocou esse sonho em causa.
«Eu queria muito ser mãe e era o maior sonho da minha vida. E nessa altura descobri que não conseguia ser mãe», recorda no novo episódio do VÄLIDO Talks, ao falar de um período que viveu praticamente em silêncio.
Seguiram-se consultas, medicação e tratamentos, sem uma explicação clara para as dificuldades em engravidar. Soraia conta que chegou a ouvir que não poderia ser mãe. Depois, num curto espaço de tempo, tudo mudou: «Num dia não podia ser mãe. Num dia estava a fazer um tratamento. Um mês depois, estou grávida. Duas semanas depois estou grávida de gémeos».
Uma experiência vivida em silêncio
Durante o processo, poucas pessoas sabiam aquilo que estava a acontecer.
Soraia recorda que várias amigas estavam grávidas e que determinados encontros sociais passaram a ser emocionalmente difíceis. Mesmo assim, evitava explicar o motivo pelo qual estava diferente.
Esse período coincidiu com aquilo que identifica como uma das maiores mudanças da sua vida. Algumas pessoas afastaram-se, outras não compreenderam o seu comportamento e apenas um pequeno círculo conhecia a situação.
Foi também aí que começou a sentir necessidade de falar sobre o tema. «Não posso ser só eu. Tenho que me ajudar a mim, tenho que ajudar os outros», recorda.
Dois bebés e uma rede de apoio que não chegou como esperava
O nascimento de Benedita e Gabriel concretizou o sonho da maternidade, mas trouxe uma exigência que Soraia admite não ter antecipado.
A mãe de gémeos recorda um período de exaustão em que sentiu falta daquela que costuma ser descrita como a «aldeia» necessária para ajudar a criar uma criança.
«Precisava de ajuda. Precisava de ter ali a tal aldeia que me ajudasse, porque não estávamos a conseguir», afirma, recordando a dificuldade em conciliar as necessidades permanentes de dois bebés com o desgaste físico e emocional dos pais.
Hoje, os filhos têm quatro anos e Soraia reconhece que muitas das decisões que toma enquanto mãe resultam da própria infância. Procura proporcionar-lhes experiências, presença e segurança que considera terem-lhe faltado enquanto crescia.
«Aquilo que eu idealizei estava a acabar»
A separação do pai dos gémeos voltou a alterar o projeto familiar que tinha construído.
A relação tinha raízes na adolescência e atravessara momentos particularmente difíceis, incluindo os problemas de saúde de Soraia e o processo de infertilidade.
Quando a relação terminou, admite que voltou a sentir-se «sem chão». «Aquilo que eu idealizei estava a acabar», recorda, considerando o primeiro ano após a separação particularmente difícil. Atualmente, afirma que ambos mantêm uma relação estável em torno dos filhos.
Quando pedir ajuda deixou de ser um problema
A reconstrução não aconteceu apenas através do tempo.
Soraia fala abertamente sobre acompanhamento psicológico e sobre a necessidade de procurar profissionais quando percebe que não consegue processar sozinha determinadas experiências.
Durante muito tempo, admite, desvalorizou aquilo que sentia porque comparava os próprios problemas com situações que considerava mais graves. «Eu agradeço por estar viva, mas por dentro estive muitas vezes morta da vida. Portanto, eu também tenho que valorizar o que sinto», afirma.
O acompanhamento psicológico passou a fazer parte do processo de cuidar da saúde mental, mesmo quando não existe um problema específico para abordar. Para Soraia, o simples facto de ter um espaço onde é ouvida já representa uma ferramenta de equilíbrio.
Estabelecer limites, mesmo dentro da família
Outra aprendizagem surgiu na forma como passou a gerir as relações pessoais.
Após a separação, Soraia diz ter percebido que algumas ligações familiares lhe estavam a provocar sofrimento e decidiu estabelecer limites. Não interpreta essa decisão como uma rejeição da família, mas como uma escolha sobre quem pode participar mais diretamente na sua vida.
«Tenho que ficar com quem me faz bem», afirma, explicando que deixou de considerar obrigatório manter proximidade com alguém apenas por existir uma ligação familiar.
A criação de uma comunidade de apoio, acrescenta, foi determinante numa das fases em que se sentiu mais fragilizada.
Da experiência pessoal para as redes sociais
Parte dessas vivências passou posteriormente para as redes sociais.
Soraia Almeida explica que não pretende apresentar-se como modelo de vida, mas utilizar aquilo por que passou para chegar a pessoas que possam estar a viver experiências semelhantes.
«Eu acho que nasci para ajudar. Nasci para passar por tudo para ajudar outros», afirma, acrescentando que as partilhas já levaram outras pessoas a contactá-la à procura de apoio ou simplesmente de alguém que compreendesse aquilo que estavam a viver.
Aos 37 anos, considera que muitas das situações que viveu acabaram por definir a forma como hoje enfrenta novos obstáculos. A ideia de que nem tudo acontece no momento em que desejamos é uma das conclusões que retira do próprio percurso: os sonhos podem ser adiados, mas isso não significa necessariamente que deixem de poder concretizar-se.
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