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«A diferença entre o muito bom e o excelente são os detalhes.» A frase acompanhou Tomás Dias desde os tempos em que esteve ligado aos forcados e tornou-se uma das ideias que aplica hoje aos cavalos, à música e à construção do próprio negócio.
No novo episódio do VÄLIDO Talks, o cavaleiro de dressage e empreendedor explica que atingir um nível elevado não depende apenas de talento. A capacidade de sofrimento, a atenção aos pormenores e a disponibilidade para aprender são, na sua perspetiva, fatores que podem separar alguém que é muito bom de alguém que consegue chegar mais longe.
A reflexão começa ainda no desporto. Tomás recorda pessoas que encontrou no futebol e nos forcados e que passaram a funcionar como referências precisamente pela forma como trabalhavam os detalhes.
Talento não substitui a capacidade de sofrer
Tomás Dias admite que, durante o percurso escolar, foi muitas vezes o aluno que conseguia «desenrascar» sem estudar tanto quanto outros colegas.
Com o tempo, essa realidade levou-o a relativizar a importância atribuída apenas à inteligência ou às capacidades naturais.
Uma pessoa pode ter mais facilidade, considera, mas outra pode compensá-la através da capacidade de permanecer dez horas a estudar ou a trabalhar num objetivo. Essa «capacidade de sofrimento» pode acabar por ser uma característica mais determinante do que o talento inicialmente disponível.
A lógica acompanha-o também enquanto empreendedor.
Começar uma empresa quando ainda não sabemos fazer tudo
Criar uma empresa praticamente do zero obrigou Tomás Dias a confrontar-se com tarefas que não dominava.
«Tens que fazer», resume ao recordar situações em que teve de procurar informação, aprender procedimentos novos ou pedir ajuda para resolver problemas que surgiam na atividade.
Uma das aprendizagens passou precisamente por mudar a forma como reage aos obstáculos. Durante muito tempo, admite, ouvir uma lista de dificuldades podia ser suficiente para abandonar uma ideia antes de a experimentar.
Hoje procura fazer o contrário: identificar os problemas e perceber como os pode resolver.
«Já perdi muitas ideias e já não fui para a frente por muita coisa» devido ao peso dado às dificuldades apresentadas por outras pessoas, reconhece.
«Essa pessoa já escalou essa montanha»
Essa experiência levou-o a outra conclusão: nem todos os conselhos têm o mesmo valor para todos os problemas.
Tomás começou a procurar pessoas que respeita e que já fizeram percursos semelhantes àquele que procura construir.
Ao falar com quem tem experiência empresarial, apercebeu-se de que determinados problemas que lhe pareciam demorados e complexos podiam ter uma solução rápida.
Não porque a dificuldade nunca tivesse existido, mas porque aquela pessoa já tinha adquirido conhecimento suficiente para reconhecer o caminho.
Tomás utiliza uma imagem para explicar a ideia: «Essa pessoa já escalou essa montanha». Quem ainda está no início terá de aprender o percurso; quem já chegou acima reconhece os obstáculos e sabe como ultrapassá-los.
Deixar o ego de lado para aprender
Pedir ajuda implica, contudo, aceitar que alguém pode saber mais.
É aí que Tomás Dias coloca a questão do ego.
Na sua perspetiva, um ego demasiado elevado impede a evolução porque leva alguém a acreditar que já domina aquilo que ainda pode melhorar. Mas uma confiança demasiado baixa pode produzir o efeito contrário e transformar qualquer alerta sobre riscos numa razão para não avançar.
O equilíbrio passa por reconhecer as próprias limitações e escolher cuidadosamente as pessoas a quem pedir opinião.
Quando enfrenta decisões importantes, Tomás diz procurar duas ou três referências em quem confia, escolhidas pela experiência ou pela forma como encaram a vida.
O princípio é simples: se alguém já fez bem aquilo que pretendemos fazer, há conhecimento naquele percurso que pode ser aproveitado.
«A motivação aparece de vez em quando»
O mesmo raciocínio surge quando a conversa entra na disciplina.
Tomás rejeita a ideia de que seja necessário estar motivado todos os dias para cumprir um objetivo. «A motivação aparece de vez em quando», afirma.
Para o empreendedor, a disciplina está mais próxima do caráter e da forma como alguém responde a um compromisso.
Se marcou um treino com outra pessoa, tem de aparecer. Se aceitou um concerto, tem de estar presente. Se assumiu uma responsabilidade com os cavalos ou com a empresa, o cumprimento não pode ficar dependente da disposição daquele dia.
Foi também por isso que começou a organizar a semana com antecedência, recorrendo a um planeamento onde regista aquilo que tem para fazer. Quando abriu a empresa, percebeu que as horas pareciam insuficientes e que trabalhar mais não resolveria tudo se continuasse sem estrutura.
Os detalhes também chegaram à música
O percurso musical foi construído de forma autodidata e através de sucessivos erros.
Tomás começou por observar músicos com mais experiência, reconhecer aquilo que faziam melhor e transportar parte dessas aprendizagens para a própria atuação.
Essa abordagem não fica limitada à execução musical. Nos casamentos e eventos, passou também a valorizar o contacto com quem o contratava, a proximidade criada antes da atuação e os momentos posteriores ao concerto.
São pequenos gestos que associa novamente à diferença entre prestar um serviço «muito bom» e proporcionar uma experiência que considera «excelente».
Também os erros passaram a ser encarados de outra forma. À medida que ganhou experiência, deixou de interpretar uma atuação menos conseguida como prova de que deveria desistir e passou a vê-la como parte de um percurso que inclui falhanços.
Trabalhar naquilo que se gosta
Apesar das horas investidas na empresa, nos cavalos e na música, Tomás Dias evita separar de forma rígida trabalho e felicidade.
Logo no início da entrevista explica que prefere não utilizar a palavra «trabalho» quando fala dos cavalos, porque montar é precisamente aquilo de que gosta de fazer.
«Acordo de manhã e estou feliz. Vou montar», afirma, reconhecendo que existem tarefas menos agradáveis associadas à atividade, mas sem que isso altere a relação que mantém com os cavalos.
É também essa possibilidade de construir uma vida em torno de diferentes interesses que percorre a conversa.
Entre dressage, música e empreendedorismo, Tomás Dias não apresenta o percurso como uma sucessão de conquistas sem dificuldades. Pelo contrário, fala de erros, dúvidas, rejeições e horas de trabalho que nem sempre produzem resultados imediatos.
A diferença, na sua perspetiva, está em começar, reconhecer aquilo que ainda não se sabe, procurar quem sabe mais e continuar.
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