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A ajuda às famílias afetadas pelas cheias de Alcácer do Sal prolongou-se para além dos dias de emergência, com visitas porta a porta e entrega de bens para voltar a equipar as casas. Mafalda Panoias integrou esse trabalho através do grupo de voluntárias «As Queridas», cujo percurso recorda no podcast VÄLIDO Talks.
«Não faço nada sozinha, nunca», sublinha, ao explicar que a resposta depende das pessoas que recebem os pedidos, procuram soluções e disponibilizam aquilo que outras famílias perderam. A prioridade, acrescenta, é «não deixarmos ninguém para trás».
Das entregas de bens ao apoio porta a porta
Segundo Mafalda Panoias, quando os bens recolhidos em diferentes espaços passaram a estar concentrados num armazém municipal, um grupo de voluntárias com quem trabalhava deu continuidade à ajuda através de visitas às habitações.
O percurso começou na freguesia de Santiago e avançou em direção à de Santa Maria. A abordagem passava por falar diretamente com os moradores e perguntar o que faltava em cada casa.
A voluntária conta que, em muitos casos, conseguiram entregar no dia seguinte os bens identificados como necessários. O trabalho incluiu mobilar habitações depois de pintadas e foi desenvolvido em articulação com a autarquia, contando também com o apoio de associações.
À data da gravação, Mafalda referia que o grupo continuava a receber solicitações. «Há alguém que pede ajuda a uma de nós e entre nós tentamos arranjar solução», explica, descrevendo uma atividade mantida a par dos empregos e das responsabilidades pessoais de cada voluntária.
A organização da ajuda durante as cheias
Antes desse acompanhamento às famílias, houve a resposta à subida da água.
Mafalda recorda pedidos para fazer chegar sacos de areia à cidade e tentativas de proteger estabelecimentos comerciais. Numa das manhãs, ajudou a elevar vitrinas de espaços de restauração, enquanto os voluntários procuravam resguardar o que conseguiam.
A recolha de bens exigiu também organização. Segundo relata, em cerca de um dia e meio foram criados centros de logística, onde pessoas sem experiência nesse trabalho começaram a receber e a separar donativos. A roupa e os produtos de higiene estavam entre os bens encaminhados para a população.
Num desses espaços, um apito e um rádio portátil ajudavam Mafalda a orientar as tarefas. «Cada um tinha a sua função», recorda, ao descrever a distribuição do trabalho entre os voluntários.
Houve ainda situações em que foi necessário preparar alimentos e roupa para chegarem de barco a pessoas alojadas fora de casa. Ao recordar esses dias, Mafalda reconhece o trabalho dos funcionários municipais, bombeiros, forças de segurança, Proteção Civil e voluntários. «Eu acho que fizemos o que podíamos», afirma.
A chegada de pessoas de fora de Alcácer permanece entre as suas memórias dessa resposta. «Cada pessoa que passou por nós deixou-nos uma marca», diz, referindo-se a quem se deslocou para ajudar.
Ajudar sem expor quem precisa
O voluntariado de Mafalda Panoias não começou com as cheias. Trabalha na lota da Carrasqueira e explica que, no quotidiano, funciona como ligação entre quem precisa de um bem e quem tem condições para o oferecer.
«Quando peço ajuda, ninguém me pergunta para quem é», refere. Para a voluntária, essa confiança facilita a resposta e permite proteger a privacidade das famílias numa cidade onde muitas pessoas se conhecem.
Mafalda descreve situações de «pobreza escondida» e «pobreza envergonhada» no concelho. Por isso, procura que a ajuda não se transforme numa exposição de quem a recebe. «Eu não quero que ninguém saiba que eu ajudei a pessoa A, B, C ou D», afirma.
O exemplo que passa à geração seguinte
A ligação à comunidade tem raízes familiares. Mafalda associa a disponibilidade para ajudar ao exemplo recebido da família materna e identifica a mãe como a sua principal referência, pelos valores de respeito pelo outro e de entreajuda que lhe transmitiu.
É também através do exemplo que procura dar continuidade a esse envolvimento. Conta que a sobrinha começou a acompanhá-la nas entregas quando era pequena, levando os sacos mais leves, e continuou a querer participar.
«Eu quero muito deixar este legado a alguém, não sendo eu mãe», afirma, ao explicar o significado que atribui à participação da sobrinha.
Reservar tempo para cuidar de si
A disponibilidade para os outros convive com uma reorganização dos próprios hábitos. Na entrevista, Mafalda fala de um plano de treino adaptado aos seus objetivos e da aprendizagem de praticar exercício em grupo, depois de estar habituada a correr sozinha.
«Aprendi a dormir. Aprendi a comer. E aprendi a treinar com outras pessoas», resume, destacando o apoio encontrado entre os técnicos do ginásio e os companheiros de treino.
A mudança incluiu desligar-se do telefone e da televisão a partir das 20h00 e reservar a leitura para o período antes de adormecer. O objetivo que apresenta é envelhecer com qualidade de vida e mobilidade, mantendo a capacidade de realizar as tarefas do quotidiano.
Quando a conversa chega à felicidade, Mafalda não a associa apenas ao cumprimento de objetivos. Fala de ler um livro, acompanhar o nascer do dia ou ir de mota ver o pôr do sol. «Ser feliz é isto. E são momentos», conclui.
A entrevista integra a parceria entre o Jornal ODigital.pt e o VÄLIDO Talks.
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