Quem observou diretamente o eclipse solar desta quarta-feira sem proteção adequada deve estar atento a alterações na visão durante as próximas 48 horas. José Branquinho, ortoptista, alerta que a exposição pode provocar uma lesão na retina sem causar dor e cujos primeiros sintomas podem surgir apenas mais tarde.
«Olhar para o Sol diretamente, sem proteção, pode provocar uma retinopatia solar», afirmou o profissional de saúde em declarações ao jornal ODigital.pt.
«Mesmo alguns segundos» podem causar lesões
A retinopatia solar pode surgir quando a observação direta do Sol provoca danos no centro da retina, responsável pela visão central e detalhada. José Branquinho explica que a menor luminosidade durante o eclipse pode levar as pessoas a continuar a olhar para o Sol durante mais tempo.
«Num dia muito claro não conseguimos olhar diretamente para o Sol. Durante o eclipse, como esteve mais escuro, a pupila poderá ter estado um pouco mais aberta, o que permite a entrada de mais radiação e faz com que continuemos a olhar para o Sol durante mais tempo», afirma.
Segundo o ortoptista, essa exposição pode lesionar as células do centro da retina. «Mesmo que sejam alguns segundos, pode ser a diferença entre uma lesão reversível e uma lesão permanente», alerta.
O profissional acrescenta que «quanto maior for o tempo de exposição, maior é a possibilidade de essa lesão se tornar mais grave».
A retinopatia solar é uma lesão fototóxica da retina e pode provocar alterações permanentes na visão central. A duração da exposição é um dos fatores de risco, embora a gravidade também dependa da intensidade da luz e das características de cada pessoa.
Mancha escura é um dos principais sinais
Os sintomas podem não surgir imediatamente. Entre os principais sinais de alerta estão:
- mancha escura no centro da visão;
- visão turva ou distorcida;
- dificuldade em ver linhas direitas;
- alteração da perceção das cores;
- dificuldade em ler ou reconhecer rostos.
«O mais frequente é uma mancha escura. Quando focamos um objeto, colocamo-lo no centro da retina. Podemos estar a olhar para uma pessoa e ver uma mancha escura no rosto dessa pessoa», explica José Branquinho.
O ortoptista acrescenta que também pode ocorrer «distorção da imagem» ou «alteração das cores». Na prática, a pessoa pode perceber que as linhas de um caderno, de um edifício ou de outro objeto parecem tortas.
A ausência de dor não significa que não exista lesão. «Aquilo não tem dor», afirma José Branquinho, acrescentando que «a gravidade depende do tempo de exposição e da dimensão da lesão».
A DGS também alerta para o aparecimento tardio dos sintomas. Já a dor, a vermelhidão, o lacrimejo ou a sensação de areia nos olhos podem estar associados a lesões na superfície ocular provocadas pela radiação ultravioleta, como a fotoceratite. Estes sinais também justificam avaliação médica.
O que fazer perante alterações na visão?
Quem desenvolver uma mancha escura, visão distorcida, alteração das cores, perda súbita de visão ou outro sintoma depois de ter observado o eclipse sem proteção deve procurar avaliação médica.
A DGS recomenda ligar para o SNS 24, através do número 808 24 24 24. Em caso de emergência, deve ser utilizado o 112.
Perante alterações na visão, José Branquinho recomenda que a pessoa procure uma urgência. «A primeira coisa será sempre recorrer a uma urgência para ser feita uma pré-avaliação», afirma.
Depois, poderão ser solicitados exames complementares para determinar a dimensão da lesão. «Serão realizados exames para se conhecer qual foi a dimensão da lesão provocada», explica.
Os casos suspeitos devem ser encaminhados rapidamente para oftalmologia. A avaliação pode incluir a observação do fundo ocular e exames de imagem, como a tomografia de coerência ótica, de acordo com a decisão clínica. Estes exames permitem confirmar a origem das alterações visuais e excluir outras causas que possam ter tratamento.
Não existe tratamento específico comprovado
«Não existe tratamento específico. É uma questão de monitorização e de conhecimento da dimensão da lesão», afirma José Branquinho.
O acompanhamento permite avaliar a evolução da visão e definir estratégias para lidar com eventuais alterações permanentes. «Pode acontecer uma lesão permanente. A partir daí, é encontrar estratégias para que a pessoa possa fazer a sua vida normal», acrescenta.
A evolução pode variar. «Existem relatos de lesões mais leves em que a visão voltou ao normal ou quase ao normal entre um e seis meses. Mas também existem relatos de lesões que perduraram para o resto da vida», alerta.
A evidência clínica aponta igualmente para a possibilidade de recuperação parcial ou total em alguns casos, mas não existe um tratamento específico comprovado para a retinopatia solar.
Pais devem observar alterações nas crianças
As crianças podem ter mais dificuldade em explicar o que estão a ver. Por isso, os pais devem estar atentos a alterações no comportamento visual durante os próximos dois dias.
Entre os sinais possíveis estão:
- queixas de que as linhas do caderno estão tortas;
- dificuldade em ler;
- dificuldade em reconhecer rostos;
- referência a uma mancha escura;
- alterações na perceção das cores;
- dificuldade em fixar objetos.
«As crianças são sempre um pouco mais difíceis de interpretar, mas os sinais de alerta acabam por ser mais ou menos os mesmos. Nós, adultos, temos de nos esforçar um pouco para interpretar os sinais delas», explica José Branquinho.
Perante uma suspeita de exposição direta ou qualquer alteração da visão, a criança deve ser avaliada por profissionais de saúde. Questionado sobre os procedimentos a seguir, o ortoptista responde: «É o mesmo, crianças ou adultos», referindo-se à necessidade de avaliação, exames complementares e acompanhamento médico.




















