Viana do Alentejo: Festival Ressoar quer mostrar que o mundo dos chocalhos “vai muito para além do objeto”

Entre 19 e 25 de julho, o festival leva a Aguiar, Alcáçovas e Viana do Alentejo sinos, música, conversas e património ligado aos chocalhos e à pastorícia.

O concelho de Viana do Alentejo recebe, entre 19 e 25 de julho, a primeira edição do Festival Ressoar, uma iniciativa que pretende recuperar os sons ligados aos chocalhos, aos guizos e aos sinos, mas também explicar a relação deste património com a pastorícia, a música, a agricultura e as comunidades locais.

Em declarações ao jornal ODigital.pt, o vice-presidente da Câmara Municipal de Viana do Alentejo, António Padeirinha, explicou que “este mundo associado aos chocalhos e ao seu fabrico vai muito para além do objeto”.

Segundo o autarca, o festival procura apresentar o chocalho como parte de uma paisagem sonora que durante décadas acompanhou os rebanhos nos campos alentejanos, mas também como instrumento musical e elemento ligado à atividade agropecuária.

“Os rebanhos andavam pelos campos” e os sons produzidos pelos chocalhos faziam parte da paisagem do montado, recordou António Padeirinha, salientando que estes objetos continuam a poder ser utilizados para localizar os animais, além da função ornamental que atualmente lhes é atribuída.

Sinos vão tocar em simultâneo no concelho

Um dos elementos da programação será o toque dos sinos das igrejas de Aguiar, Alcáçovas e Viana do Alentejo.

Entre os dias 19 e 23 de julho, pelas 18h30, músicos da Banda Filarmónica da Sociedade União Alcaçovense vão fazer soar os sinos de vários edifícios religiosos do concelho.

Ao contrário dos toques tradicionalmente associados a “funerais, casamentos ou outras cerimónias religiosas”, os sinos vão interpretar composições criadas para o Festival Ressoar pelo maestro Hugo Monteiro.

“Serão composições simples, que não são fúnebres nem de festa ou casamento, mas próprias deste momento”, explicou António Padeirinha.

Segundo o vice-presidente, a intenção é também provocar a curiosidade da população. “As pessoas vão ouvir, a uma determinada hora, um som que não é normal”, afirmou, acrescentando que esse elemento poderá levá-las a procurar perceber “o que está a acontecer”.

António Padeirinha destacou ainda a ligação entre os mestres chocalheiros e as bandas filarmónicas. “A capacidade de afinar um chocalho tem a ver com a capacidade de o interpretar enquanto instrumento musical”, explicou.

De acordo com o autarca, vários mestres chocalheiros tiveram ligação à música filarmónica, o que ajuda a explicar a participação da Banda Filarmónica da Sociedade União Alcaçovense na programação do festival.

Festival ligado à salvaguarda do fabrico de chocalhos

A realização do festival surge cerca de uma década depois de o fabrico de chocalhos ter sido inscrito pela UNESCO na lista do Património Cultural Imaterial com Necessidade de Salvaguarda Urgente.

António Padeirinha reconhece que, ao longo dos últimos anos, foram realizadas ações de comunicação e promoção, mas considera necessário avançar com um plano de ação mais abrangente.

“A salvaguarda da arte só acontecerá se tivermos pessoas que dominem este saber”, afirmou, alertando para o reduzido número de mestres chocalheiros existentes no país.

O Festival Ressoar é apresentado pelo município como mais um passo para promover a transmissão do ofício. Para o vice-presidente, esta aprendizagem “não tem obrigatoriamente de ficar limitada a pessoas que pretendam viver exclusivamente da atividade”.

O autarca considera possível envolver pessoas interessadas em conhecer e praticar o fabrico de chocalhos, mesmo que não façam desse saber a sua principal profissão. Entre as possibilidades apontadas estão ainda o desenvolvimento de experiências turísticas e a procura de novas funções para o chocalho numa atividade agropecuária com maior presença de tecnologia.

Ressoar pretende reforçar temática da Feira do Chocalho

O festival está associado à Feira do Chocalho, que começa no dia 24 de julho, em Alcáçovas.

Segundo António Padeirinha, a intenção não é criar uma iniciativa concorrente, mas reforçar a ligação do certame ao património que lhe dá o nome.

“Queremos marcar a temática do chocalho de uma forma mais vincada”, afirmou o vice-presidente, defendendo que os visitantes devem compreender a importância do fabrico de chocalhos e as razões que levaram à classificação atribuída pela UNESCO.

A programação inclui conversas e conferências sobre produtos ligados ao mundo rural, raças autóctones, economia, cultura, museografia e património cultural imaterial.

No dia 24 de julho, às 20h00, será ainda assinado, no recinto da Feira do Chocalho, um memorando para a salvaguarda e promoção económica do fabrico de chocalhos.

O acordo envolve os municípios de Viana do Alentejo, Reguengos de Monsaraz, Estremoz e Cartaxo, além da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo.

António Padeirinha explicou que o objetivo é envolver outros territórios com tradição chocalheira, alargar a rede de parceiros e reforçar o trabalho destinado à preservação do selo da UNESCO e ao aumento do número de pessoas que conhecem o ofício.

Festival termina com carrilhão e banda filarmónica

A primeira edição do Festival Ressoar termina no dia 25 de julho, às 22h30, com um espetáculo no recinto da Feira do Chocalho.

O concerto junta a carrilhanista Ana Elias, do Carrilhão de Constância, à Banda Filarmónica da Sociedade União Alcaçovense, dirigida pelo maestro Hugo Monteiro.

Promovido pelo Município de Viana do Alentejo e pela Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo, o festival conta com o apoio das paróquias de Aguiar, Alcáçovas e Viana do Alentejo e tem coordenação de Paulo Lima, responsável pela candidatura do fabrico de chocalhos à UNESCO.

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