Carlos Baleizão: Da ligação ao Redondo à investigação científica de excelência

A ciência portuguesa tem vindo a afirmar-se além-fronteiras graças ao trabalho de investigadores que, diariamente, procuram respostas para alguns dos maiores desafios da sociedade. Entre eles encontra-se Carlos Miguel Calisto Baleizão, professor associado no Departamento de Engenharia Química do Instituto Superior Técnico (Universidade de Lisboa) e investigador do Centro de Química Estrutural.

Licenciado em Química Aplicada pela Universidade Nova de Lisboa e doutorado em Química pela então Universidade Técnica de Lisboa, tem dedicado a sua carreira à investigação de nanomateriais avançados com aplicações em setores como a saúde, a energia e o ambiente. Paralelamente à atividade científica, tem sido reconhecido pelo seu empenho na formação de novas gerações de engenheiros e cientistas.

Com ligações familiares à Vila de Redondo, Carlos Baleizão é mais um exemplo de como as raízes alentejanas podem acompanhar percursos de excelência e projeção internacional. Nesta conversa para a rubrica “Do Alentejo para o Mundo”, falamos sobre ciência, educação e inovação.

  1. O que o motivou a seguir uma carreira científica na área da Química e dos nanomateriais?

A escolha da Química como área principal no meu percurso universitário foi natural, pois durante o ensino secundário era a disciplina que mais interesse e curiosidade me despertava. Na hora de escolher a licenciatura não houve dúvidas, tinha de ser química. Quanto aos nanomateriais, que é uma área multidisciplinar, foi um processo evolutivo, que começou durante a licenciatura, que continuou no doutoramento, e que culminou com a minha entrada no IST. Nessa altura, tentei aplicar os conhecimentos que tinha adquirido ao longo do meu percurso, e a área dos nanomateriais surgiu naturalmente.

  • Como explicaria ao público em geral a importância dos nanomateriais para o nosso dia a dia? E de que forma a investigação que realiza pode ter impacto na vida das pessoas?

Na palavra nanomateriais, o que faz a diferença é o nano, que vêm de nanómetro que é 0,000000001 mais pequeno que o metro. Para termos uma ideia de quanto pequeno é um nanometro, todos tivemos réguas na escola, as de 20 ou 40 centímetros para as aulas de matemática ou de geometria. A escala mais pequena dessas réguas era 1 milímetro, que é 1000 vezes mais pequeno que o metro. Para continuar a descer na escala, podemos recorrer ao diâmetro das células humanas que dependendo do tipo de órgão podem ter diâmetros entre 10 e 30 micrómetros. 1 micrómetro é 1000 vezes mais pequeno que o milímetro. E para chegar ao nanómetro, podemos pensar na hemoglobina que transporta o oxigénio no sangue, e que tem uma dimensão de aproximadamente 5 nanómetros, que é 1000 vezes mais pequeno que o micrómetro.

Os materiais com que trabalho têm várias composições, mas as suas dimensões são sempre inferiores a 100 manómetros. Desta forma, as vantagens dos nanomateriais são: 1) as suas dimensões reduzidas que os podem levar a locais de difícil acesso (interior das células); 2) devido às suas dimensões reduzidas, apresentam muito área para contacto com o meio circundante em relação ao seu reduzido volume; e 3) alguns materiais quando reduzimos as suas dimensões para os nanómetros exibem novas propriedades que não existem nas grandes escalas.

No caso do meu grupo de investigação, trabalhamos com nanomateriais à base de óxicos metálicos, polímeros, e materiais metálicos, com aplicação na área da saúde, ambiente, e energia.

  • Quais são hoje os principais desafios que os investigadores enfrentam no nosso país? Considera que Portugal oferece atualmente boas oportunidades para quem quer fazer investigação?

O primeiro desafio é o sub-financiamento da ciência em Portugal. O sistema científico portugês tem falta de capital, quer seja público ou privado. O segundo desafio é a falta de diversidade de fontes de financiamento, pois apesar de existirem instituições privadas a financiarem ciência, esse número per capita é muito inferior à maioria dos países europeus. E o terceiro desafio, e o que mais me preocupa, é a deriva das instituições de financiamento nacionais para a ciência aplicada, deixando para segundo plano a ciência fundamental. Esta via vai ter consequências nefastas a médio prazo, pois qualquer tecnologia ou produto que chega ao mercado e fica ao dispor da sociedade teve como base conhecimento fundamental ao nível dos mecanismos de formação e operação. E a ciência fundamental tem de ser financiada de forma constante, e temos de ter a percepção de que muitas vezes a sua aplicação em produtos vai demorar tempo, mas é algo essencial para continuarmos a evoluir como sociedade.

No entanto, e apesar destas dificuldades, os cientistas a trabalhar em Portugal fazem muito com pouco, através do seu engenho e resiliência. A ciência produzida em Portugal, quer fundamental como aplicada, é de elevada qualidade e com impacto. E as instituições científicas portuguesas têm conseguido contornar o paradigma de falta de financiamento nacional com a internacionalização e conseguido captar financiamento europeu. A mensagem que deixo aos jovens quem desejam seguir uma carreira científica em Portugal é que não se deixem impressionar com as dificuldades e sejam criativos e ambiciosos. Existem muitos centros e grupos de investigação com linhas de investigação inovadoras e com muito qualidade e impacto.

  • A inteligência artificial e as novas tecnologias estão a transformar o mundo. Que impacto acredita que terão na ciência e na educação nos próximos anos?

A inteligência artificial generativa levará a uma alteração radical na forma como a ciência e a educação se desenrola hoje, e acredito que seja no sentido positivo. Na ciência, vamos ter a possibilidade de analisar e encontrar correlações utilizando volumes muito grande de dados, que não seria possível analisar e correlacionar no passado recente. O tempo necessário para a descoberta e desenvolvimento de novos produtos e tecnologias será reduzido, sendo colocados ao dispor da sociedade mais rapidamente. Na educação, vamos ter à nossa disposição ferramentas pedagógicas que vão levar ao aumento da qualidade dos materiais pedagógicos para as aulas e para o estudo dos alunos. Adicionalmente, temos de preparar os alunos para a sua utilização responsável, para que quando saírem para o mercado de trabalho estejam confortáveis em utilizar nso seus desafios profissionais.

No entanto, em toda a interacção com ferramentas de inteligência artificial generativa temos de ser críticos e analisar a informação que nos é fornecida. E a sua utilização tem de ser responsável.

  • Além da investigação, o Professor tem também uma forte ligação ao ensino. O que mais aprecia na relação com os alunos?

O que é mais importante ensinar às novas gerações num mundo em rápida transformação?

O conhecimento hoje não está só disponível em livros como há décadas. Com o aparecimento da internet, o conhecimento passou a estar disponível à distância de um clique. E com a inteligência artificial generativa a evolução é ainda maior. Desta forma, o ensino tem sofrido uma grande evolução, deixando de ser um processo de transmissão de conhecimento verbal e suportado por livros com grafismo e imagens reduzidas, tornando-se num processo onde mais do que transmitir esse conhecimento, o professor tem de estar preparado para conseguir ter uma visão mais alargado sobre o tema que ensina, mostrar a relação com outras áreas, e ser um árbitro das várias fontes que os alunos utilizam no seu estudo.

As novas gerações, e não só, têm de ter espírito crítico bem desenvolvido, questionar a informação que lhe é fornecida e questionar. Sem espírito crítico, passamos a ser uma sociedade amorfa e pomos em causa liberdades e valores que deram muito trabalho a conquistar.

  • Sabemos que tem fortes ligações ao concelho de Redondo. Qual é a sua relação com esta terra? E que recordações guarda do Redondo e do Alentejo?

Os meus pais nasceram ambos na aldeia do Freixo, concelho do Redondo, e após casarem foram viver para Almada. E durante a minha infância e adolescência as minhas férias (Natal, Páscoa, Verão) eram passadas no Freixo, com os meus avós, tios, primos, e amigos. E as recordações que tenho guardo-as com muito carinho, e a principal envolve a liberdade de estar sempre fora de casa (em contraste ao viver numa cidade), bem como a percepção do tempo, pois tinha sempre tempo para fazer tudo o que tinha planeado, em contraste com o presente em que o tempo nunca chega para tudo o que queremos fazer.

  • Como observa a evolução do Alentejo ao longo das últimas décadas?

Essa é uma pergunta complexa de responder. O Alentejo, tal como o resto do interior de Portugal, sofreu um êxodo para o litoral e grandes centros urbanos nas últimas décadas. As razões dessa migração são válidas, pois as pessoas vão há procura de melhores condições de vida e oportunidades profissionais. O resultado para o interior é o abandono de largas áreas de terrenos, e a redução da capacidade produtiva dessas regiões, independentemente do sector industrial. E no seguimento desta redução de população vem a diminuição da qualidade e quantidade dos serviços públicos, menos empregos, menos qualidade de vida. A resposta que deveria ter sido dada no passado era a implementação de políticas de retenção da população, com o reforço dos serviços públicos, de apoio à natalidade, aumento de emprego de preferência qualificado. Felizmente, na última década temos assistido à implementação desses tipo de políticas e iniciativas em muitos concelhos do interior do País e nomeadamente do Alentejo. Claro que existe um longo percurso a percorrer, mas creio que está no caminho certo.

  •  O que considera fundamental para atrair mais jovens qualificados para o interior do país?

Por um lado, o estado tem de aumentar a qualidade dos serviços públicos no interior, especialmente na área da saúde e escola pública (as restantes áreas dos serviços públicos como finanças ou segurança social, já estão muito informatizadas e as idas físicas a esses serviços são cada vez mais reduzidas). Por outro, têm de existir planos para atrair empresas de cariz tecnológico que necessitem de mão de obra qualificada. Em relação às vias de comunicação, a rede rodoviária portuguesa tem qualidade e está bem implantada, mas a rede ferroviária não. E do ponto de vista de empresas do sector primário e secundário, uma boa rede ferroviária é essencial para a sua implantação no interior.

  • Finalmente, sendo esta uma rubrica intitulada “Alentejo que investiga”, Que valores ou ensinamentos do Alentejo levou consigo para o mundo académico e científico?

A resiliência. O Alentejo é uma região de uma beleza imensa, com muitos tesouros arquitetónicos e paisagísticos, e com uma população de coração aberto para quem bem de fora. Mas por outro lado é uma região agreste, com amplitudes térmicas entre verão e inverno de várias dezenas de graus dificultando a vida a quem trabalha na agricultura, pecuária, vinha, etc. Por vezes o que é necessário (chuva ou calor) vem na altura errada. E quando corre mal, a única reacção possível é continuar a trabalhar, pois não há tempo a perder, há que continuar a lutar. Na ciência, quando delineamos novos projectos envolvendo novas moléculas, materiais, ou processos, tudo é possível obter. Como costumo dizer, no papel o rendimento é sempre 100%, e consegue-se sempre à primeira tentativa. Mas a realidade depois é outra bem diferente. Na grande maioria dos dias vamos para casa sem se ter obtido os resultados desejados, ou sem se perceber os resultados que obtivemos. E a única reacção possível é sermos resilientes, continuarmos a trabalhar, e quando conseguimos atingir os nossos objectivos, a alegria desses momentos compensa os dias de frustração. Como tal, a resiliência que me acompanha na minha vida académica e científica é alentejana.

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