As escavações romanas no Alentejo coordenadas pela Universidade de Évora identificaram novos dados sobre a ocupação de Santa Vitória do Ameixial, no concelho de Estremoz, e da Horta da Torre, em Fronteira. Entre os resultados estão uma possível casa do século I, um fragmento paleocristão, restos de banquetes romanos e vestígios de uma cabana dos séculos VI ou VII.
A informação foi divulgada pela Universidade de Évora. Os trabalhos são coordenados por André Carneiro, professor do Departamento de História da instituição, e contam com a participação de estudantes portugueses e estrangeiros.
Santa Vitória aponta para uma casa anterior, do século I
A campanha de 2026 em Santa Vitória do Ameixial concentrou-se na zona mais elevada da villa romana, classificada como Monumento Nacional. Os registos das intervenções realizadas entre 1914 e 1916 indicavam que neste local poderia encontrar-se a área residencial da casa.
A equipa identificou um pavimento e vários muros, cuja disposição revelou duas fases de construção. Até agora, as estruturas conhecidas eram associadas à residência construída nos séculos III ou IV, mas a sobreposição de uma parede a outra aponta para uma ocupação anterior.
«Poderemos estar perante uma casa mais antiga, talvez do século I d.C., que mais tarde é reformulada para se construir um novo ambiente doméstico», explicou André Carneiro, citado no comunicado.
A hipótese terá ainda de ser sustentada pelo estudo dos materiais recolhidos e pela continuação dos trabalhos. A campanha permitiu também identificar um fragmento arquitetónico de época paleocristã, correspondente a um período para o qual, segundo o investigador, ainda não tinham sido comunicadas evidências naquele sítio.
O atual projeto retomou o estudo de um local que, antes deste ciclo de investigação, não era objeto de escavações documentadas desde 1916. A Universidade de Évora participa ainda na elaboração da Carta Arqueológica de Estremoz, permitindo enquadrar a villa no território envolvente.
Vestígios mostram o que era consumido nos banquetes
Na Horta da Torre, em Cabeço de Vide, os trabalhos decorrem desde 2012. A área escavada ultrapassa os 500 metros quadrados, embora os vestígios possam ocupar mais de 30 mil metros quadrados, segundo a estimativa apresentada pelo coordenador.
A campanha arqueológica de 2026 na Horta da Torre incidiu na ala norte de um dos peristilos e numa lixeira de época romana associada à sala de banquetes.
Neste depósito foram encontrados ossos de bovinos e de animais de caça, conchas de ostras e berbigão provenientes do litoral e recipientes cerâmicos utilizados na iluminação e durante as refeições.
A sala integra um stibadium, estrutura onde os convidados se reclinavam durante os banquetes, e um sistema que permitia a circulação de água pelo pavimento. André Carneiro considera que este é «o mais bem preservado exemplar conhecido no território português».
Os materiais recolhidos permitem estudar os alimentos consumidos, a preparação das refeições e os objetos usados naquele espaço. «Temos um imenso volume de dados que nos permite perceber como decorriam os banquetes em época romana», afirmou o investigador.
Cabana ocupou antiga sala depois do abandono da villa
As escavações revelaram também alterações ocorridas depois do abandono da residência romana. Na sala onde se encontrava o stibadium foram identificados buracos de poste associados à instalação de uma cabana.
A estrutura terá sido usada por pastores durante os séculos VI ou VII, numa fase posterior ao período romano. Os vestígios mostram a passagem de um espaço destinado a banquetes para uma ocupação com características diferentes.
A equipa estuda ainda os mosaicos, estuques e restantes elementos decorativos encontrados na Horta da Torre. Apesar do interesse turístico registado, o sítio permanece numa propriedade privada e ainda não dispõe de um modelo de visitação.
Campanhas envolvem 32 estudantes
Os dois projetos recorrem a levantamentos com drones, prospeção geofísica por georradar, modelos digitais do terreno e análises laboratoriais para definir as áreas de intervenção e registar os vestígios.
Em Santa Vitória do Ameixial participaram dez estudantes, distribuídos por dois turnos. A campanha da Horta da Torre reúne 22 alunos de sete nacionalidades, ligados a dez universidades portuguesas e estrangeiras.
André Carneiro apontou a falta de financiamento como o principal condicionamento dos trabalhos na Horta da Torre. O projeto tem recorrido a parcerias com instituições estrangeiras e à participação de estudantes de mestrado e doutoramento.
Em Santa Vitória, o Município de Estremoz assegurou apoio financeiro e logístico para um novo ciclo de quatro anos, que deverá incluir escavação, conservação e restauro. A autarquia prevê também criar um centro interpretativo, uma exposição e um percurso de visita, não tendo sido divulgado um calendário para a concretização destas estruturas.

















