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O combate pode durar apenas alguns minutos, mas Manuel Pacheco considera que aquilo que verdadeiramente define um atleta acontece muito antes de entrar no ringue.
No mais recente episódio do VÄLIDO Talks, o fundador e diretor técnico do Stone Boys, em Évora, defende que os resultados são consequência de meses e anos de preparação, disciplina, repetição e aprendizagem com aquilo que não corre bem.
«O processo muda a vida», afirma, explicando que uma preparação obriga o atleta a criar horários, a treinar quando não lhe apetece e a construir hábitos que acabam por transportar-se para outras áreas da vida.
«Nem todos os dias nos sentimos motivados»
Manuel Pacheco distingue claramente motivação de disciplina.
A primeira pode desaparecer de um dia para o outro. A segunda obriga a cumprir aquilo que foi definido, independentemente da disposição daquele momento.
«Nem todos os dias nos sentimos motivados e temos é que ser disciplinados», afirma, recorrendo a uma expressão que procura transmitir regularmente aos atletas: «Disciplina supera o talento».
É também por isso que rejeita a ideia de treinar apenas quando existe vontade. Para o treinador, o exercício deve ocupar na agenda um lugar semelhante ao trabalho ou a outras responsabilidades diárias.
«O fixe não é o combate»
A preparação ocupa uma parte central da filosofia de Manuel Pacheco.
Enquanto as redes sociais mostram habitualmente o resultado final, o treinador considera que é precisamente aquilo que fica fora das imagens que merece maior atenção.
«O fixe não é o combate. O combate é um prémio», sustenta. O valor está, segundo explica, nos dois meses anteriores, entre treinos de manhã e de tarde, alimentação, recuperação física, dores e repetição.
Para Manuel Pacheco, é durante esse período que o atleta se transforma e desenvolve a resiliência necessária para enfrentar a competição.
Um combate obriga a enfrentar o medo
O medo não é entendido como uma fraqueza.
Pelo contrário, Manuel Pacheco considera que um atleta deve sentir receio antes de entrar no ringue, desde que consiga controlá-lo. «O medo é bom. É para tu estares defensivo», explica.
Na preparação para uma competição, o treinador observa diferentes reações: há atletas que não conseguem estar quietos, outros que deixam de ouvir as instruções e alguns que passam noites sem dormir.
O próprio Manuel Pacheco recorda que, quando competia em criança, chegava a passar a noite anterior a rezar para conseguir controlar a ansiedade e acreditar que venceria no dia seguinte.
A derrota pode ensinar mais do que uma vitória
Ganhar não é a única medida de sucesso no trabalho desenvolvido pelo Stone Boys.
Manuel Pacheco considera que os desportos de combate ensinam rapidamente os atletas a conviver com a derrota e a utilizá-la como instrumento de evolução.
«Quando falhamos, temos é que aprender», afirma. Perante um resultado negativo, procura identificar o erro, perceber o que falhou e transformar essa informação em trabalho para a competição seguinte.
O treinador admite, inclusivamente, que alguns dos combates de que mais gostou enquanto atleta foram derrotas contra adversários de nível superior.
«Perdemos, é uma aprendizagem. Siga para o próximo», resume, explicando que a derrota obriga frequentemente a uma análise que uma vitória pode esconder.
Essa abordagem mantém-se mesmo quando um atleta vence. «Na vitória vejo os pontos positivos e os pontos negativos», refere, defendendo que um resultado favorável não elimina aquilo que precisa de ser corrigido.
Objetivos ajustados à realidade
Manuel Pacheco defende ainda que a ambição deve ser acompanhada por objetivos progressivos.
Um atleta que começa a treinar não deve colocar imediatamente como única meta tornar-se campeão mundial. O treinador prefere dividir o percurso em etapas e começar por objetivos mais próximos.
«Porque é que não posso sonhar primeiro ser campeão regional?», questiona, defendendo que os sonhos devem existir, mas acompanhados por uma estrutura que permita perceber aquilo que é necessário fazer diariamente.
Quando alguém chega ao clube e, passado apenas um mês, manifesta vontade de competir, a primeira resposta é simples: antes de pensar no ringue, deve conseguir treinar com regularidade.
«Um atleta compete uma vez e torna-se outro atleta»
Apesar da preparação, Manuel Pacheco acredita que existem aprendizagens que apenas surgem quando o atleta enfrenta uma competição real.
«Um atleta compete uma vez, torna-se outro atleta. Ou desiste ou torna-se outro atleta», afirma.
O confronto com um adversário, o medo, a adrenalina e a necessidade de reagir em poucos segundos obrigam a pessoa a lidar com emoções que dificilmente podem ser reproduzidas em treino.
É por essa razão que considera que os desportos de combate podem contribuir para preparar crianças e jovens para outras dificuldades. Depois de enfrentar um adversário num ringue, sustenta, um teste escolar ou outro desafio quotidiano pode ser encarado de uma perspetiva diferente.
Formar pessoas além de formar campeões
Embora o Stone Boys tenha formado atletas com títulos nacionais e internacionais, Manuel Pacheco afirma que os resultados competitivos deixaram de ser a sua principal motivação enquanto treinador.
«O que me enche o coração» é acompanhar a evolução de um atleta e vê-lo crescer não apenas dentro do desporto, mas também enquanto pessoa.
O treinador descreve alguns antigos atletas como amigos e assume que, depois de vários anos de treinos, viagens e competições, acaba por criar uma relação próxima com quem acompanha desde a adolescência. «Eu sou segundo pai deles», afirma.
Para Manuel Pacheco, os valores assumem particular importância nos desportos de combate. Ensinar alguém a bater implica igualmente ensinar quando não deve fazê-lo.
«Nós criamos armas», afirma, acrescentando que, precisamente por isso, «os valores têm que ser top».
Desporto para a vida
A ideia percorre toda a entrevista: o desporto não termina quando o treino acaba.
Disciplina, capacidade de enfrentar o medo, respeito pelo adversário, gestão da derrota e repetição são competências que Manuel Pacheco considera transferíveis para a vida pessoal e profissional.
«Desporto, para mim, é para a vida», afirma, defendendo que ninguém está completamente preparado para aquilo que vai enfrentar, mas deve ter estrutura suficiente para agir, corrigir os erros e continuar.
Na parte final da conversa, o treinador identifica a família como a sua principal fonte de felicidade. Depois dos resultados, dos campeonatos e dos anos dedicados à formação de atletas, diz que aquilo que mais valoriza é regressar a casa e encontrar a mulher e a filha.
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