InícioAlentejoAlentejo CentralAna Paula Amendoeira: «A...

Ana Paula Amendoeira: «A identidade cultural não deveria nunca ser instrumental»

Historiadora destacou, em Évora, a importância do património megalítico, urbano, mineiro e imaterial para a coesão territorial

A historiadora Ana Paula Amendoeira defendeu, em Évora, que o património cultural constitui uma base essencial para compreender a identidade do Alentejo e a sua coesão territorial.

A intervenção decorreu no encontro «Identidade Cultural, Coesão e Valorização do Território», promovido pelo Núcleo Distrital de Évora da SEDES – Associação para o Desenvolvimento Económico e Social, no Palácio D. Manuel.

Na sessão, Ana Paula Amendoeira centrou a intervenção no tema «Identidade Cultural e Coesão Territorial», sublinhando que há vários elementos estruturantes para compreender a identidade cultural alentejana, desde o património megalítico ao património romano, urbano, mineiro, industrial e imaterial.

A historiadora destacou o património megalítico e arqueológico da região, bem como a sua relação com a paisagem. Segundo Ana Paula Amendoeira, a arte rupestre e o megalitismo «não podem existir sem paisagem» para serem compreendidos hoje como «um dos aspetos mais importantes a nível internacional da nossa cultura e da investigação científica no domínio da história».

Património romano e urbano na identidade do território

Ana Paula Amendoeira defendeu que a compreensão do património romano é «fundamental para a compreensão da região do Alentejo e para a sua organização e identidade até aos nossos dias».

A historiadora recordou a importância de cidades como Beja, Évora, Alcácer do Sal, Mértola e Santiago do Cacém na estruturação histórica do território. No caso de Évora, referiu a antiga Liberalitas Julia como cidade de direito latino antigo, situada entre Beja e Lisboa.

Na sua intervenção, sublinhou ainda a relevância do património urbano histórico do Alentejo, considerando que a região possui uma riqueza cultural e patrimonial «única no nosso país e internacionalmente também», quer pela concentração e quantidade, quer pelo estado de conservação, autenticidade e integridade.

Ana Paula Amendoeira destacou que o Alentejo possui «o maior conjunto de cidades de fundação medieval de urbanismo planeado, com forte componente de padrão geométrico», apontando este património como um fator de diferenciação regional.

Para a historiadora, este valor patrimonial confere ao território uma «qualidade territorial e paisagística única» e constitui «um fortíssimo fator identitário».

Valorização cultural e turística das vilas e cidades

A historiadora defendeu que o urbanismo histórico deve ser entendido como um domínio de trabalho para a valorização cultural e turística das aldeias, vilas e cidades do Alentejo.

Segundo Ana Paula Amendoeira, esta área representa hoje, na Europa, um nicho relevante de complementaridade da oferta cultural e turística ligada à história e ao património.

Por isso, afirmou, é necessário insistir «na salvaguarda do urbanismo histórico e não apenas dos edifícios per si», defendendo uma leitura integrada entre património, paisagem, redes viárias históricas e caminhos de Santiago.

A historiadora sublinhou que estes elementos «uns sem os outros não se podem compreender em toda a plenitude do seu sentido histórico, territorial e cultural».

Património mineiro, imaterial e saber-fazer em risco

Ana Paula Amendoeira apontou também o património mineiro e industrial como elementos de forte identidade no Alentejo, destacando a existência de vestígios antigos e, em alguns casos, únicos.

Na intervenção, defendeu que o património mineiro, quando articulado com o ambiente, pode assumir um papel relevante na promoção do território. A valorização dos antigos sítios mineiros, das pedreiras e dos percursos associados à mineração apresenta, segundo a historiadora, «grande potencial de atração de pessoas».

A historiadora incluiu ainda os museus, arquivos, bibliotecas, organizações culturais, bandas filarmónicas e grupos de cante entre os fatores identitários da região.

Ana Paula Amendoeira alertou, contudo, para o risco de desaparecimento de parte desse património imaterial. «O nosso património imaterial é o nosso saber fazer, grande parte em risco de desaparecer», afirmou.

Cultura, raízes e transmissão entre gerações

Na sua reflexão, Ana Paula Amendoeira defendeu que a cultura e a identidade no Alentejo não devem ser tratadas apenas como instrumentos de promoção ou desenvolvimento, mas como dimensões essenciais da vida coletiva.

A historiadora afirmou que «a cultura é promotora da liberdade» e deve assumir riscos de pensamento crítico, especialmente numa relação que considera difícil com a verdade, o tempo e a memória.

Ana Paula Amendoeira alertou ainda para aquilo que designou como uma «crise de transmissão», defendendo que as sociedades contemporâneas correm o risco de perder a ligação entre herança, memória e futuro.

«Somos sempre herdeiros daquilo e daqueles que nos precederam», afirmou, acrescentando que, na contemporaneidade, passou a faltar «uma explicitação do ato de transmitir um enunciado de memória capaz de oferecer uma genealogia e uma raiz ao futuro de cada pessoa e ao nosso futuro comum».

A historiadora citou o antropólogo alentejano José Cutileiro para sublinhar a relação entre cultura e pertença: «Ser culto é ser de um sítio». Para Ana Paula Amendoeira, esta frase «encerra em si todo um programa» e poderia ser «um slogan para o Alentejo».

Identidade cultural não deve ser instrumental

Ana Paula Amendoeira defendeu que a tecnologia, a era digital e a inteligência artificial devem ser encaradas como instrumentos, e não como substitutos da identidade cultural.

«A tecnologia e a era digital e artificial deveriam ser instrumentais. Nem boas nem más. A identidade cultural não deveria nunca ser instrumental», afirmou.

A historiadora alertou ainda para os riscos de colocar «acriticamente toda a confiança no processo tecnológico», considerando que essa opção pode contribuir para a perda de vínculos interpessoais, intergeracionais e interculturais.

Na sua intervenção, defendeu que a salvaguarda dos territórios não se limita à conservação isolada de objetos patrimoniais. Para Ana Paula Amendoeira, é necessária «uma compreensão cultural mais vasta» que justifique a relevância do património «para a vida e para o bem viver das comunidades».

Investimento técnico e ético nos serviços públicos

Na parte final da intervenção, Ana Paula Amendoeira alertou para a perda de capacitação técnica, competências e recursos humanos especializados, considerando que essa realidade dificulta uma ação estruturada no terreno.

A historiadora defendeu ser «necessário investir numa recuperação da capacitação técnica e ética dos serviços públicos e no serviço às pessoas», aproximando o exercício do poder público das comunidades.

Para Ana Paula Amendoeira, o investimento cultural deve ajudar a «servir, explicar o sentido e o valor da nossa terra única», através de uma política que combine rigor administrativo com a dimensão humana e cultural do território.

A historiadora concluiu que o Alentejo deve trabalhar com os recursos existentes, sem perder «a força e a dignidade», valorizando a sua matriz identitária e a continuidade dos saberes que sustentam o território.

Mais notícias

“Em Casa d’Amália” encerra este domingo a Feira do Chocalho em Alcáçovas

A Feira do Chocalho termina este domingo, 26 de julho, em Alcáçovas, no concelho...

Évora lidera rendimento no Alentejo e Alandroal é o município com menor desigualdade do país

O valor mediano do rendimento declarado, depois de deduzido o IRS liquidado, atingiu 12.022...

Municípios e Turismo Alentejo unem-se para reforçar salvaguarda e promoção económica do fabrico de chocalhos

Os municípios de Viana do Alentejo, Reguengos de Monsaraz, Estremoz e Cartaxo, juntamente com...

Vila Viçosa: Há uma nova peça no Museu do Mármore e fazia funcionar o relógio da Igreja de São Bartolomeu

O Museu do Mármore, em Vila Viçosa, tem uma nova atração. Trata-se da máquina...

Alcáçovas: Feira do Chocalho é um “motor para a economia local”, afirma Maria João Carvalho

A presidente da Junta de Freguesia de Alcáçovas, Maria João Carvalho, considera que a...

Feira do Chocalho abriu portas em Alcáçovas com dezenas de expositores e muita animação (c/fotos)

A edição de 2026 da Feira do Chocalho arrancou esta sexta-feira, em Alcáçovas, concelho...

Évora recebe 398 atletas no Torneio Luso-Espanhol de Badminton e Para Badminton

Évora recebe, este sábado e domingo, 25 e 26 de julho, a 19.ª edição...

Évora: Colisão entre dois carros provoca quatro feridos perto de São Miguel de Machede

Uma colisão entre dois veículos ligeiros de passageiros teve lugar esta tarde, ao quilómetro...

Câmara de Évora aprova adesão à rede europeia Eurocities

O Município de Évora aprovou a adesão à Eurocities, uma rede europeia que reúne...