O Centro Dramático de Évora (CENDREV) alertou esta quinta-feira para a possibilidade de ter de congelar a programação do Teatro Garcia de Resende até ao final do ano e para as dificuldades em preparar a atividade de 2027, incluindo a 18.ª Bienal Internacional de Marionetas de Évora (BIME), devido a verbas que afirma estarem em falta por parte da Câmara Municipal de Évora.
A situação foi apresentada pela direção do CENDREV numa conferência de imprensa realizada no Teatro Garcia de Resende, em Évora, acompanhada pelo Jornal ODigital.pt, na qual participaram José Russo, Ivo Luz e Tânia da Graça.
No centro da questão estão 100 mil euros correspondentes a duas tranches vencidas da contrapartida municipal no âmbito da Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses (RTCP). De acordo com o CENDREV, em outubro vence uma terceira tranche de 50 mil euros, elevando para 150 mil euros o montante em falta nesta componente. A comparticipação municipal prevista é de 200 mil euros anuais e corresponde a metade do financiamento público destinado à programação do Teatro Garcia de Resende, sendo os restantes 200 mil euros assegurados pela Direção-Geral das Artes (DGARTES).
A direção distingue este financiamento do apoio destinado à atividade da própria companhia. Neste segundo caso, o orçamento de 2026 foi preparado considerando uma comparticipação municipal na ordem dos 87 mil euros, mas o CENDREV afirma ter sido informado de que receberá apenas 48% desse valor, correspondendo a uma redução superior a 52%.
Segundo a estrutura, o orçamento anual tinha sido elaborado tendo por base os valores anteriormente recebidos e garantias transmitidas em reuniões realizadas com o atual executivo municipal, em novembro e dezembro de 2025, de que as condições existentes seriam mantidas.
Salários estão em dia, mas CENDREV diz não ter tesouraria para os garantir até ao final do ano
A situação financeira está já a ter consequências na gestão corrente. A direção explicou ao Jornal ODigital.pt que os salários dos 14 trabalhadores se encontram, até ao momento, regularizados, devido às verbas recebidas através de outras fontes de financiamento e às receitas resultantes da circulação e venda de espetáculos.
A Direção explicou, contudo, que a margem financeira disponível está a diminuir. “Neste momento, em total transparência, não temos dinheiro de tesouraria física para garantir salários até ao final de 2026”, afirmou, acrescentando que o CENDREV tem recorrido à gestão da tesouraria disponível para manter os salários e responder a outros compromissos.
os responsáveis revelou também existirem pagamentos em atraso a artistas e companhias que passaram pelo Teatro Garcia de Resende. José Russo referiu que há profissionais à espera dos respetivos cachês “há três meses, quatro meses, cinco meses, seis meses”, relativos a espetáculos apresentados este ano e, em alguns casos, ainda em 2025.
O CENDREV afirma que tem procurado regularizar esses pagamentos à medida que dispõe de capacidade financeira, existindo também dívidas a empresas, fornecedores e parceiros.
A direção sublinhou que as verbas da RTCP não financiam a estrutura permanente do CENDREV, destinando-se à programação do Teatro Garcia de Resende e a despesas diretamente relacionadas com essa atividade, como cachês, logística, equipamento ou serviços técnicos. Já o apoio sustentado destina-se, entre outras componentes, à estrutura e às criações da companhia.
Concerto de Pedro Burmester esteve em causa
As dificuldades financeiras estão também a condicionar a programação em curso. Durante a conferência, José Russo revelou que o concerto de Pedro Burmester, previsto para 25 de setembro no Teatro Garcia de Resende, chegou a estar em causa devido à ausência de garantias quanto ao momento em que o artista poderá ser pago.
Segundo o responsável, o músico tomou conhecimento das dificuldades e aceitou realizar o concerto apesar da incerteza relativamente à data do pagamento. “Ele vai fazer o concerto”, afirmou José Russo, reconhecendo, contudo, que o CENDREV não consegue neste momento indicar quando conseguirá efetuar esse pagamento.
A direção considera que esta situação não pode prolongar-se e admite não ter condições para continuar a assumir compromissos sem uma definição sobre o financiamento.
Preparação da programação de 2027 está condicionada
Além das consequências imediatas, o CENDREV alerta para o impacto na preparação da programação do próximo ano. A estrutura tem de apresentar à DGARTES o plano anual de programação de 2027 até aproximadamente ao final de outubro, mas afirma não conseguir atualmente assumir compromissos com artistas e companhias.
“Não podemos avançar. Ou seja, não podemos fazer compromissos com outras companhias”, explicou a direção ao Jornal ODigital.pt, salientando que o atraso pode ter consequências mesmo que venha entretanto a existir uma resposta, uma vez que os calendários das estruturas artísticas vão sendo preenchidos.
O CENDREV refere ainda que a ausência da comparticipação municipal coloca dúvidas quanto ao cumprimento das condições associadas ao financiamento da DGARTES. Segundo Tânia da Graça, a instituição já expôs a situação à Direção-Geral das Artes e aguarda perceber quais poderão ser as consequências.
BIME 2027 tem datas marcadas e 100 mil euros previstos no âmbito de Évora 2027
Entre os projetos diretamente condicionados encontra-se a 18.ª Bienal Internacional de Marionetas de Évora, integrada na programação de Évora 2027 – Capital Europeia da Cultura.
José Russo revelou ao Jornal ODigital.pt que a próxima BIME está prevista para decorrer entre 1 e 6 de junho de 2027 e dispõe de um reforço de 100 mil euros no âmbito de Évora 2027. O responsável explicou, contudo, que o orçamento das últimas edições tem rondado os 170 mil euros e que a realização da Bienal depende também das verbas associadas à RTCP.
“Os 100 mil euros não chegam para fazer a Bienal”, afirmou José Russo, explicando que o financiamento da RTCP tem permitido integrar a iniciativa na programação regular do teatro e assegurar a restante componente necessária à sua concretização.
O calendário constitui, segundo a direção, outro problema. A preparação envolve contactos com companhias nacionais e internacionais, contratação de serviços, definição de datas e alojamento, num ano em que Évora será Capital Europeia da Cultura.
“Já devíamos ter isto tudo arrumado nesta altura”, afirmou a direção, considerando que um prolongamento da indefinição poderá impedir a contratação de algumas das estruturas pretendidas para a Bienal.
CENDREV reúne-se com Câmara de Évora a 22 de setembro
Durante a conferência de imprensa foi ainda revelado um desenvolvimento posterior à elaboração do comunicado que motivou a iniciativa. O CENDREV recebeu, na quarta-feira, um email do executivo municipal a marcar uma reunião para 22 de setembro, destinada a abordar a questão da RTCP.
Segundo Ivo Luz, o contacto surgiu depois de terem sido enviados, ao longo dos últimos meses, vários emails para o Município sem que, segundo a direção, tivesse sido obtida uma resposta concreta.
“Ontem recebemos, por volta das dez e meia, um email do Executivo Municipal a marcar uma reunião connosco sobre o tema da RTCP para dia 22”, afirmou, explicando que o contacto respondeu a comunicações efetuadas anteriormente pelo CENDREV.
José Russo disse esperar que desse encontro resulte “uma solução plausível e razoável” que permita regularizar a situação e avançar com a programação e com a preparação da Bienal.
A direção sustenta que necessita de uma definição num prazo curto. “O nosso deadline é agora. Tem que haver agora uma solução para o problema, seja ele qual for”, afirmou durante a conferência.
Segundo o CENDREV, permanecem também por concluir pagamentos relativos ao apoio municipal de 2025, embora exista neste caso um plano de regularização, cuja última prestação deverá ser paga em outubro. Quanto aos apoios de 2026, a direção afirma não dispor ainda de uma calendarização para os pagamentos.














