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Dar às crianças oportunidades para escolher, conversar e participar nas tarefas quotidianas é uma das propostas que Beatriz Conceição apresenta no VÄLIDO Talks. A terapeuta da fala defende que o acompanhamento não deve ficar limitado à consulta, mas envolver também as relações e as rotinas em casa e na escola.
«As crianças têm de ter uma opinião», sustenta a profissional, natural de Baleizão e coordenadora técnica da Clínica Escutamente. Ouvir o que pensam não significa aceitar todas as suas escolhas, mas permitir que expressem ideias e participem em decisões adequadas à sua idade.
A autonomia pode começar na escolha da roupa
Quando os pais lhe pedem jogos ou atividades para fazer em casa, Beatriz Conceição responde, por vezes, com exemplos das próprias rotinas familiares.
Escolher entre uma blusa rosa e uma azul ou participar na preparação da comida são situações que utiliza para mostrar como a interação pode acontecer sem acrescentar uma tarefa separada ao dia da família.
Na sua perspetiva, «estarmos a dar mais tarefas para fazer em casa só vai frustrar os adultos», sobretudo quando as propostas se tornam difíceis de concretizar e a criança não reage da mesma forma que na consulta. A alternativa que apresenta é aproveitar aquilo que a família já faz.
A participação na cozinha, com supervisão, e a ajuda a pôr a mesa surgem também na conversa. Beatriz reconhece que os adultos tendem a fazer essas tarefas por ser mais rápido, mas questiona o espaço que fica para a criança experimentar e assumir responsabilidades.
Conversar sobre uma história e perguntar o que pensam
Para trabalhar a expressão de ideias, a terapeuta sugere conversar sobre uma notícia com crianças mais crescidas ou discutir uma situação apresentada num livro com as mais pequenas.
O que aconteceu, o que poderia ter sido diferente e qual é a opinião da criança são perguntas que propõe integrar nesses momentos. «Por muito que às vezes nos pareça descabida, elas têm de ter opinião», afirma.
Beatriz recorda ainda uma atividade em que recortou palavras de revistas com uma criança para construir um texto. O exercício, explica, permitiu descobrir vocabulário e dar-lhe uma utilização diferente.
A abordagem deve, contudo, acompanhar a idade. A profissional distingue a forma de conversar com uma criança de três anos daquela que se utiliza com um adolescente, defendendo que cabe aos adultos encontrar uma linguagem adequada ao interlocutor.
O contexto também faz parte da intervenção
Ao longo da entrevista, Beatriz Conceição chama a atenção para situações em que uma criança consegue realizar determinadas atividades durante a sessão, mas não as reproduz em casa.
«Mas o contexto continua igual», observa, ao explicar por que valoriza o trabalho com famílias, educadores e professores. Estar na escola permite-lhe acompanhar a criança no ambiente onde surgem algumas dificuldades e articular estratégias com quem está diariamente com ela.
A própria organização das consultas mudou com a experiência. No início da profissão, conta que procurava seguir planos de sessão muito fechados, mas percebeu que a criança podia chegar frustrada ou não querer fazer a atividade preparada.
Passou, por isso, a separar o objetivo da sessão da brincadeira escolhida para o trabalhar. «Eu sei o que é que eu quero trabalhar com eles naquela sessão», explica. A partir daí, conversa com a criança e adapta a intervenção ao jogo ou à atividade que esta escolhe.
A leitura que faz dos casos acompanhados inclui, assim, não apenas as dificuldades individuais, mas também as oportunidades de comunicação e participação existentes nos diferentes ambientes da criança.
Ecrãs, refeições e espaço para brincar
Beatriz Conceição não propõe ignorar as tecnologias. «Nós não podemos ignorar as tecnologias, porque elas existem», afirma, defendendo um equilíbrio que preserve também a brincadeira e outras experiências fora dos ecrãs.
Uma das suas preocupações é o lugar do telemóvel durante as refeições. Na entrevista, questiona o recurso ao dispositivo para manter a criança ocupada à mesa e considera que essa prática pode afastá-la da conversa e da atenção ao que está a comer.
A reflexão parte também da ligação ao Alentejo e do tempo passado à mesa em família: «Nós somos pessoas que gostamos de estar à mesa, de conversar».
A leitura partilhada surge como outra oportunidade de interação. Beatriz destaca os momentos em que uma criança encontra uma palavra que não conhece e pergunta o significado, abrindo espaço para uma conversa que vai além do texto.
Uma criança de nove anos esteve na origem do livro
A relação com a alimentação levou a terapeuta a escrever «A Colher Mágica e o Mistério dos Sabores».
Beatriz conta que acompanhava um menino de nove anos com seletividade alimentar que «só comia sopa». Numa sessão, a criança perguntou-lhe por que razão os outros meninos conseguiam comer alimentos que ela não conseguia.
A pergunta deu uma direção ao desejo de escrever um livro. A autora quis criar uma história que ajudasse crianças em situações semelhantes a perceber que não estavam sozinhas e que desse a conhecer às famílias a possibilidade de procurar acompanhamento.
Em vez de construir uma única personagem, escolheu dois gémeos com dificuldades diferentes perante os alimentos. A intenção foi mostrar que, mesmo dentro da mesma família, os percursos podem ser distintos.
«Cada criança é uma criança», sublinha, rejeitando a ideia de que a experiência de um irmão deva servir automaticamente de medida para o desenvolvimento do outro.
O sucesso medido nas mudanças de cada criança
A dimensão do trabalho que descreve ultrapassa a execução de uma atividade ou a conclusão de uma sessão. Beatriz conta que os relatos dos pais a ajudaram a perceber mudanças na confiança das crianças e na relação com os colegas, para além das dificuldades inicialmente acompanhadas.
É também nessas mudanças que situa a realização profissional. Ao dar um exemplo do que valoriza, resume: «O sucesso é quando hoje a criança não diz nada e na próxima semana ela diz-me olá».
A entrevista é divulgada no âmbito da parceria entre o Jornal ODigital.pt e o VÄLIDO Talks. Na abertura, o apresentador declara também a parceria do podcast com a Clínica Escutamente e esclarece que a conversa com Beatriz Conceição foi marcada antes desse acordo.
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🎙️ VÄLIDO Talks
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