Duarte Tirapicos tinha 33 anos quando comprou a primeira bicicleta de estrada. Não sabia usar pedais de encaixe e a natação era uma dificuldade.
Poucos meses depois, participou na primeira prova de meio Ironman, na Polónia. Desde então, completou provas internacionais, qualificou-se para um campeonato mundial e passou a enfrentar desafios de ultraciclismo com centenas de quilómetros.
No mais recente episódio do VÄLIDO Talks, o atleta eborense explica que o percurso não nasceu de uma facilidade imediata, mas da vontade de encontrar um novo desafio depois de terminar a ligação aos forcados.
“Tinha de arranjar outra coisa para fazer, algo que me desse adrenalina e que me fizesse superar”, afirma, ao recordar a entrada no triatlo em 2021.
Uma queda antes da qualificação
Um dos momentos recordados na entrevista aconteceu durante uma prova na Dinamarca.
Na saída para o segmento de bicicleta, Duarte caiu e perdeu vários minutos. Apesar do impacto e dos ferimentos, levantou-se e continuou a prova, conseguindo no final a qualificação para o Mundial de meio Ironman, disputado na Nova Zelândia.
O episódio resume uma das ideias que orientam a sua forma de competir: um problema não pode condicionar tudo aquilo que ainda falta fazer.
“Não me vou abaixo”, explica o atleta, que prefere manter a calma, avaliar a situação e prosseguir, em vez de permitir que um contratempo determine o resultado.
“Desistir é uma palavra que me dá arrepios”
Quando questionado sobre a possibilidade de desistir, Duarte Tirapicos não hesita.
“Nunca. Desistir é uma palavra que me dá arrepios só de pensar nela”, afirma, embora reconheça que existem situações impossíveis de controlar, como uma avaria irreparável ou um problema de saúde.
O atleta recorda que completou um Ironman em Cascais depois de chegar à prova com uma lesão num pé. Ao longo do percurso, houve momentos em que duvidou da possibilidade de terminar, mas acabou por alcançar a meta.
Vinte horas seguidas em cima da bicicleta
As provas de ultraciclismo colocaram Duarte perante outros limites.
Numa competição de 750 quilómetros, planeava percorrer cerca de 250 quilómetros por dia. Durante a última etapa, descansou por breves momentos debaixo do alpendre de um café, até ouvir passar outro ciclista.
A componente competitiva levou-o a retomar imediatamente a prova. Pedalou durante mais de 20 horas consecutivas, parando apenas para comer e satisfazer necessidades básicas, até concluir o percurso.
Duarte admite que, durante os desafios, pensa várias vezes no motivo que o levou até ali. Mas, quando termina, a dificuldade transforma-se rapidamente na procura de uma nova prova.
“Levas um empeno gigante, acabas de rastos e não queres ouvir falar de nada. No dia seguinte, já estás agarrado ao computador a procurar outro desafio”, relata.
O limite físico e o papel da mente
A entrevista aborda ainda a ideia de que o corpo consegue suportar mais do que aquilo que a mente admite nos momentos de esforço.
Duarte não atribui um valor concreto a essa margem, mas considera que muitas pessoas não conhecem verdadeiramente aquilo que são capazes de fazer.
“Quando pensas que estás no limite, ainda consegues ir mais longe”, afirma, relacionando a evolução com a exposição controlada ao desconforto.
O atleta treina em diferentes condições meteorológicas, incluindo períodos de calor, para preparar o organismo para aquilo que poderá encontrar numa prova que dure dez ou 12 horas.
Consistência antes do resultado
A preparação não se limita aos dias de competição.
Duarte concilia o triatlo com o trabalho na exploração agrícola da família. Há períodos em que começa a treinar às 05h00 para conseguir estar no campo às primeiras horas da manhã. Noutros dias, inicia o treino depois do trabalho e só termina à noite.
“A sorte dá muito trabalho”, afirma, defendendo que os resultados são consequência daquilo que se faz diariamente, muitas vezes longe da atenção pública.
Para o atleta, ter um propósito facilita a disciplina. Quando existe um objetivo definido, torna-se mais simples sair de casa com frio, chuva ou calor e cumprir aquilo que estava planeado.
“Nunca é tarde para começar”
Duarte Tirapicos deixa também um conselho a quem pretende iniciar uma atividade desportiva já na idade adulta.
“Nunca é tarde para conseguir fazer aquilo que se sonha fazer”, sustenta, recomendando, contudo, uma progressão estruturada, acompanhamento adequado e atenção aos sinais do corpo.
O atleta considera que o exercício físico não tem de conduzir obrigatoriamente ao triatlo ou à competição. Uma caminhada, uma corrida ou um passeio de bicicleta podem representar o primeiro passo para uma mudança de hábitos.
Na parte final da conversa, Duarte resume aquilo que hoje considera essencial: “Sou válido com muito pouco, desde que tenha desporto, saúde, família e as pessoas que me são próximas”.
A felicidade, acrescenta, passa sobretudo por saber que aqueles que estão à sua volta estão bem e por poder continuar a praticar desporto com o apoio da família e dos amigos.
Veja aqui a entrevista completa
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