Um estudo internacional liderado por investigadores do Museo Nacional de Ciencias Naturales (CSIC) e da Universidade de Évora conclui que a diversidade animal terrestre não segue o modelo piramidal descrito nos manuais de Ecologia. A investigação foi publicada a 26 de novembro na Proceedings of the Royal Society B.
A equipa analisou dados de mais de um milhão de espécies terrestres, representando mais de 90% das espécies descritas. Os resultados mostram que a distribuição global da diversidade se aproxima de uma estrutura quadrangular, com proporções constantes entre herbívoros, predadores e consumidores mistos.
Segundo o estudo, cerca de 46% das espécies são consumidores primários, 43% consumidores de níveis tróficos superiores e 11% consumidores mistos. Nos tetrápodes, a proporção de predadores ultrapassa a de herbívoros, enquanto nos artrópodes a elevada diversidade contribui para um padrão mais equilibrado.
Luis F. Camacho afirma que «tendemos a pensar que mais energia na base implica mais espécies de herbívoros e menos predadores», mas a análise global mostra que «os predadores e outros consumidores de níveis tróficos superiores podem ser tão diversos como os herbívoros».
Miguel B. Araújo refere que «os resultados são compatíveis com a ideia de que os predadores podem extinguir-se e diversificar-se mais rapidamente», mantendo níveis elevados de riqueza específica ao longo do tempo. O investigador sublinha ainda que as proporções observadas apontam para «constrangimentos impostos pela estrutura e estabilidade das redes ecológicas».
A investigação reuniu informação de grandes bases de dados de traços biológicos, revisões taxonómicas e fontes de história natural, incluindo 5237 mamíferos, 9271 aves, 8767 répteis, 2477 anfíbios e mais de um milhão de artrópodes terrestres. Cada espécie foi classificada segundo a origem energética da sua dieta.
As análises mostram que as proporções de consumidores primários, mistos e de níveis superiores são consistentes entre diferentes biomas tróficos e à escala planetária. Esta estabilidade sugere que processos eco-evolutivos de longa duração influenciam a forma como a biodiversidade se organiza.
Os autores destacam que políticas de conservação que afetem desproporcionadamente predadores e outros consumidores superiores podem alterar a estrutura típica dos ecossistemas. Defendem também que modelos teóricos de estabilidade e resposta às alterações globais devem integrar proporções tróficas uniformes e possíveis processos de seleção ao nível das redes ecológicas.
Miguel B. Araújo conclui que «se existem constrangimentos universais que determinam como a diversidade se distribui ao longo das cadeias tróficas, é necessário compreendê-los» para antecipar a resposta dos ecossistemas a alterações que removam espécies de níveis tróficos específicos.

















