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Universidade de Évora integra projeto europeu que cria plataforma para ensino da suinicultura: “Não substitui o campo”

Projeto europeu com a Universidade de Évora quer criar uma ferramenta de apoio ao ensino da produção de suínos através de realidade virtual.

A Universidade de Évora integra um projeto europeu que está a desenvolver uma plataforma de realidade virtual e aumentada para apoiar o ensino da produção de suínos no ensino superior.

A ferramenta, criada no âmbito do ART-SWINES, pretende permitir aos estudantes experienciar o ambiente de uma exploração de suínos e aceder a conteúdos técnicos e científicos através de um formato digital e interativo.

O projeto é financiado pelo programa Erasmus+ e liderado pela Universidade de Saragoça, em Espanha. A Universidade de Évora foi convidada a integrar o consórcio para desenvolver conteúdos ligados à produção extensiva de suínos, tendo como referência a produção de porco alentejano no montado.

Em entrevista ao ODigital.pt, Rui Charneca, professor do Departamento de Zootecnia da Universidade de Évora e responsável pelo projeto na instituição, explicou que a plataforma nasce como “um complemento, não uma substituição” da formação prática nesta área.

“Este projeto visa preparar uma forma de ensinar diferente para esta área da produção de suínos”, afirmou Rui Charneca, sublinhando que a ferramenta deverá ajudar os estudantes a contactar com realidades produtivas que nem sempre estão disponíveis nas universidades ou acessíveis em contexto de visita de estudo.

Realidade virtual para ultrapassar limitações no ensino prático

Segundo o professor, o ensino da produção de suínos enfrenta atualmente duas dificuldades principais. Por um lado, as universidades nem sempre conseguem manter instalações atualizadas com as tecnologias e práticas usadas nas explorações comerciais. Por outro, o acesso dos estudantes a explorações de referência é cada vez mais condicionado por razões sanitárias e de biossegurança.

“É muito difícil as universidades terem instalações com todas as novidades”, referiu Rui Charneca, explicando que as instituições de ensino não têm a mesma lógica económica das unidades de produção. A esse fator junta-se a dificuldade em levar turmas a explorações tecnologicamente mais avançadas, precisamente aquelas que seriam mais relevantes do ponto de vista pedagógico.

“Há sempre o medo de introdução de doenças”, acrescentou o docente, lembrando que as visitas de estudo envolvem grupos de alunos e exigem cuidados acrescidos por parte das explorações.

A plataforma pretende responder a esse contexto através da criação de um ambiente virtual de exploração de suínos. Os estudantes poderão utilizar óculos de realidade virtual para percorrer cenários, consultar informação técnica, observar equipamentos, contactar com procedimentos e realizar exercícios de autoavaliação.

“A ideia do projeto está exatamente em criar um ambiente virtual de exploração de suínos que permita aos alunos, através da realidade virtual e aumentada, experienciar o que é estar dentro de uma exploração”, explicou Rui Charneca.

Uma ferramenta de apoio, não uma substituição do campo

Apesar do recurso à tecnologia, Rui Charneca sublinhou que a plataforma não pretende substituir o contacto com animais, instalações e explorações reais. A ferramenta deverá funcionar como preparação e complemento das aulas práticas e das visitas de estudo.

“A realidade virtual não é a realidade e não substitui o campo”, afirmou o professor, referindo que há dimensões do contacto direto com uma exploração que não podem ser reproduzidas integralmente, como o movimento dos animais, os cheiros, os ruídos e outras sensações associadas ao trabalho no terreno.

Ainda assim, a plataforma permitirá repetir experiências que, no modelo presencial, são muitas vezes pontuais. Uma visita de estudo depende da disponibilidade das explorações e, por regra, acontece apenas uma vez. No ambiente virtual, os estudantes poderão regressar aos conteúdos, rever procedimentos e consolidar aprendizagens.

Rui Charneca explicou que os módulos não terão como objetivo substituir semanas de aulas, mas oferecer uma experiência concentrada e orientada. No caso da componente de produção extensiva desenvolvida pela Universidade de Évora, a duração prevista ronda os 30 minutos, devido ao cansaço associado à utilização prolongada de óculos de realidade virtual.

Universidade de Évora desenvolve conteúdos sobre produção extensiva

No consórcio internacional, as tarefas foram divididas entre os parceiros científicos e tecnológicos. A Universidade de Saragoça e a Universidade de Pádua, em Itália, trabalham os conteúdos ligados à produção intensiva de suínos. A Universidade de Évora ficou responsável pela componente de produção extensiva.

“Vamos usar como modelo, pela experiência que temos e porque é um modelo interessante, a produção de porco alentejano no montado”, explicou Rui Charneca.

A equipa da Universidade de Évora está a preparar conteúdos visuais, técnicos e científicos relacionados com este sistema produtivo. O objetivo é que os estudantes possam compreender as principais características da produção extensiva de suínos, com base numa realidade associada ao território alentejano.

A componente tecnológica está a ser desenvolvida por uma empresa sediada em Saragoça, especializada na criação de experiências de realidade virtual e aumentada. Além das universidades envolvidas, o consórcio inclui ainda parceiros ligados à validação dos conteúdos, à formação e à divulgação junto do setor.

Plataforma deverá ser gratuita para instituições de ensino superior

A ferramenta será inicialmente desenvolvida em inglês, língua de trabalho do consórcio, e posteriormente traduzida para português, espanhol e italiano. A fase de validação deverá envolver estudantes, docentes e outros públicos ligados ao ensino e à formação.

De acordo com Rui Charneca, a expectativa é que a plataforma possa ser utilizada no ano letivo 2027/2028, depois da conclusão dos conteúdos, da avaliação por utilizadores externos, dos ajustes necessários e das traduções.

Antes da versão final, poderá ser apresentada em Évora uma versão preliminar da experiência. Rui Charneca admitiu a possibilidade de mostrar partes da plataforma durante a Noite Europeia dos Investigadores, em setembro, ainda em formato de teste.

Quando estiver concluída, a plataforma deverá ficar disponível online e de forma gratuita para instituições de ensino superior. A sua utilização exigirá, no entanto, equipamentos adequados, nomeadamente óculos de realidade virtual.

Na Universidade de Évora, está a ser preparada uma sala específica para este tipo de utilização, no polo da Mitra, com vários equipamentos de realidade virtual. A intenção é permitir que os estudantes possam aceder à experiência em contexto de aula prática.

Para Rui Charneca, a plataforma representa uma ferramenta adicional para o ensino da produção animal e responde também à relação dos estudantes com tecnologias digitais.

“Este formato de ferramenta de ensino também é apelativo para os alunos”, afirmou, defendendo que os futuros técnicos terão de desenvolver competências tecnológicas para acompanhar a evolução do setor.

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