A defesa da rede de ensino superior localizada no interior do país marcou a apresentação do novo livro de João Carrega, realizada esta quinta-feira na Universidade de Évora. A obra, intitulada «Ensino Superior – da interioridade à Europa das Universidades», reúne intervenções produzidas entre 2021 e 2025 e reflete sobre o papel estratégico das instituições do interior no desenvolvimento nacional.
Durante a sessão, João Carrega sublinhou que o tema central das suas reflexões é a necessidade de preservar esta rede, que considera «o principal instrumento de coesão territorial e social». O autor alertou para o impacto económico e social que teria qualquer redução da presença académica em regiões de menor densidade populacional. Na sua intervenção, exemplificou com o caso de Évora, recordando que «a Universidade tem cerca de 10 mil alunos» e que a sua atividade representa um efeito multiplicador significativo nos territórios onde se insere.
João Carrega defendeu que as instituições do interior devem reforçar a sua articulação com autarquias, CCDR, comunidades intermunicipais e entidades económicas. «Importa que as instituições tenham a capacidade de chamar para si toda a sua envolvência» para demonstrar à tutela a importância estratégica destas estruturas no equilíbrio territorial do país.
O autor manifestou preocupação com medidas recentes relacionadas com o acesso ao ensino superior, nomeadamente o aumento de vagas nas instituições de Lisboa e Porto. «Neste momento, 54% das vagas do Concurso Nacional de Acesso estão em duas cidades» e um aumento adicional «vai fazer com que as restantes instituições percam» estudantes, advertiu, sublinhando que tal poderá conduzir a «uma morte anunciada» das instituições do interior, caso não sejam adotadas medidas corretivas.
A obra agora publicada, embora escrita antes destas alterações, aborda de forma transversal os desafios vividos pelas instituições afastadas dos grandes centros urbanos. João Carrega explicou que os textos reunidos procuram valorizar «a rede de ensino superior muito espalhada por todo o país», que permite que os jovens possam aceder ao ensino superior «sem qualquer tipo de problema». Recordou ainda a importância das universidades europeias, destacando que estas alianças promovem mobilidade, projetos de investigação e dupla titulação.
O autor deixou um aviso sobre o futuro: «O meu alerta é feito agora para que depois não digam que já não é possível fazer nada». Para João Carrega, o momento atual é decisivo para impedir a perda de capacidade das instituições do interior face às pressões de concentração no litoral. «É preciso ter algum cuidado», afirmou, considerando que o país pode enfrentar no futuro questões estruturais se não houver políticas que assegurem a permanência destas instituições.
A sessão contou com apresentação de Noémi Marujo, vice-reitora da Universidade de Évora e autora do prefácio, e foi presidida pela reitora, Hermínia Vasconcelos Vilar. A obra é editada pela Caderno do Século, com produção da RVJ Editores.

































