Não é de admirar que cada vez mais pessoas se enervem com a política. A facilidade com que as principais figuras políticas, sobretudo dos dois maiores partidos, PS e PSD, não considerando para o efeito o partido unipessoal Chega, alinham as suas opiniões conforme o vento que sopra e conforme táticas políticas, muitas vezes elaboradas por assessores profissionais contratados para o efeito, que mais do que a realidade dos factos refletem a realidade das perceções populares que a determinado momento poderão servir ao partido que delas se apropriar em primeiro lugar, tem como consequência última um crescente descrédito para toda uma classe política que deveria ser capaz de chamar para si o máximo respeito e consideração da sociedade civil.
Esperar-se-ia de um sistema democrático saudável que no centro da ação política estivesse a sinceridade. Sinceridade nas ideias, sinceridade nas posições e sinceridade no debate público. Caberia aos partidos, elementos centrais de qualquer sistema democrático, apresentar as suas visões sobre os temas que mais afetam a vida das pessoas, que imbuídas de uma capacidade analítica abaixo daquela que hoje nos é exigida, precisamente por a de hoje não ser a capacidade de detetar uma declaração sincera, mas sim uma estratégia toda concebida em nome de um objetivo muitas vezes definido para o longo prazo, refletiriam e tomariam decisões que considerariam acertadas tendo em conta projetos diferentes, ideias diferentes e caminhos diferentes por onde seguir.
Aproveitando para aprofundar o pouco mais no cerne da questão, essa seria, aliás, a relação ideal entre quem vota e quem é votado. De um lado a capacidade de compreender o mau funcionamento de determinados setores que necessitam de uma mudança. Do outro, a capacidade de acolher os diferentes caminhos propostos para oferecer aos problemas diferentes soluções. No entanto, esta seria uma relação que nunca perderia de vista um elemento central: a sinceridade, a honestidade.
Existe, no entanto, um sistema político desvirtuado, muito aquém daquele idealizado e até praticado nos idos tempo da Grécia Antiga, a que forçosamente fomos habituados a chamar o sistema político real. E o sistema real, em Portugal, está cada vez mais longe de uma relação honesta e sincera entre os dois pilares, já aqui referidos, que compõem este ecossistema político.
Em jeito de exemplo, que sirva para o efeito o mais recente episódio do fim de mandato de Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente da República portuguesa. De repente, parecem tornar-se descobertos tantos admirantes até ao momento escondidos. O Partido Socialista chegou a afirmar que Marcelo Rebelo de Sousa deixa uma marca institucional relevante, construindo uma realidade paralela onde o agora ex-presidente da República teria mantido relações estáveis e construtivas com os sucessivos governos socialistas. Lembramo-nos, porém, dos sucessivos casos de instabilidade que ao longo de oito anos foram abalando os governos liderados por António Costa, que culminaram na dissolução da Assembleia da República em duas ocasiões.
Terminado o mandato de Marcelo Rebelo de Sousa, tudo isso parece ter desaparecido da memória coletiva da política portuguesa.
Incoerências que não ficam por aqui, e que viajam ao vizinho do lado do hemiciclo.
Do lado do Partido Social Democrata, assistimos a outro exercício curioso. Foi de forma repentina que dirigentes sociais-democratas se apressaram na multiplicação de elogios ao novo Presidente da República, António José Seguro, chegando para o efeito a referir que a mensagem levada em campanha pelo agora eleito Presidente terá coincidido com a visão do governo liderado por esse mesmo partido.
Depois de algumas tentativas de compreensão acerca do sucedido, eis que surge uma questão: se a mensagem era assim tão alinhada, então por que razão decidiu o PSD avançar com um candidato que, aqui sim, falando com honestidade, deveria desde o primeiro momento ter reconhecido como um verdadeiro fiasco?
Mais uma vez, aprofundado a questão, revela-se justo e comprovável concluir que foi precisamente a insistência do Partido Social Democrata em Luís Marques Mendes que impediu a direita moderada de discutir com António José Seguro a eleição à presidência da República.
Como se de hipocrisia não estivesse o mundo já farto, vimos ainda líderes do PSD assinalar que o agora eleito Presidente da República tem uma visão alinhada com o governo, enquanto o próprio afirmou inúmeras vezes durante a campanha eleitoral que vetaria a reforma laboral apresentada por esse mesmo governo, uma das grandes bandeiras de Luís Montenegro e que tem dado que falar nos últimos dias.
A conclusão que se retira desta análise é que o atual ecossistema político português se pauta por um cinismo tal, onde a sinceridade é sacrificada no altar da conveniência tática, que corrompe uma das que deveria ser das mais nobres causas de um cidadão, a política, arrastando-a para um ciclo de incoerências que corrói a confiança de quem vota, quando o caminho inverso seria o desejado para manter uma sociedade viva, confiante de si mesma no momento da escolha.



















