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Tinho Pinho tinha os fins de semana preenchidos com atuações até ao final do ano e planeava investir as receitas em gravações quando o confinamento interrompeu a atividade. No VÄLIDO Talks, o músico recorda que já conseguia viver da música e juntar dinheiro para desenvolver o trabalho em estúdio.
«Foi um grande choque», reconhece. A perda dos concertos deixou-o sem os rendimentos com que contava e obrigou-o a procurar outro emprego, numa fase em que não sabia como dar continuidade aos planos que tinha feito.
O período acabaria também por trazer mudanças na relação com o público e na forma de trabalhar as próprias canções. As transmissões em direto e a aprendizagem de ferramentas de produção musical tornaram-se alternativas para manter a ligação à música.
Procurar outro emprego para pagar as contas
A interrupção aconteceu quando Tinho começava a estudar possibilidades para gravar um disco ou desenvolver músicas com apoio de estúdio. Tinha investido em equipamento e procurava perceber como poderia financiar as etapas seguintes.
Nas primeiras semanas de confinamento, conta que parou e recuperou algum descanso. Mas, com as contas a acumular e sem dinheiro a entrar, a necessidade de encontrar uma solução tornou-se a preocupação central: «Eu tenho que fazer qualquer coisa, mas não sei o quê».
A resposta passou por um emprego numa pizzaria. «Comecei a saldar as dívidas aos poucos», recorda, explicando que essa atividade lhe permitiu reorganizar as finanças e voltar a investir.
Não era a primeira vez que trabalhava fora da música para financiar o percurso artístico. A primeira guitarra elétrica tinha sido comprada depois de um mês e meio de trabalho de verão. Mais tarde, as receitas das atuações foram sendo aplicadas numa guitarra melhor, microfones e cabos, com o objetivo de melhorar as condições dos espetáculos.
O público que encontrou nas redes sociais
Sem concertos, os vídeos passaram a ter outro peso.
Tinho recorda que as publicações que fazia costumavam alcançar algumas centenas de visualizações. Durante o confinamento, uma interpretação de uma música de Bryan Adams chegou, segundo relata, às 10 mil, levando-o a olhar de outra forma para a possibilidade de chegar ao público através do telemóvel.
Começou a trabalhar mais os vídeos e a fazer transmissões em direto. O interesse estava também na interação: quem assistia podia comunicar com ele enquanto cantava.
O alcance dessas sessões tornou-se visível mais tarde, durante uma entrega que fazia no âmbito de outro trabalho, na distribuição. Uma mulher reconheceu-o pelas transmissões e recordou a presença da irmã, que também participava nesses momentos. Para o músico, o encontro mostrou que a relação criada à distância tinha permanecido.
Outro episódio que guarda foi um comentário deixado numa interpretação dos Lighthouse Family. Segundo conta, uma pessoa agradeceu-lhe por ter conseguido voltar a ouvir uma canção que associava a um amigo falecido.
A mensagem ajudou-o a perceber uma dimensão do trabalho que não se mede apenas em visualizações: «Coisas que tu achas que são pequenas, para outros são gigantes».
Aprender produção para desenvolver as próprias canções
O confinamento trouxe também tempo para experimentar programas de produção musical.
Tinho começou a procurar tutoriais e a testar diferentes ferramentas até encontrar uma forma de trabalhar as ideias que antes guardava sobretudo em gravações no telefone. Passou a construir maquetas, dando uma primeira estrutura às músicas antes de as levar a outros profissionais.
A intenção não era dispensar todo o trabalho de estúdio, mas chegar a essa fase com uma ideia mais definida. «Já é mais fácil. É tudo muito mais fácil, tudo muito mais rápido», explica sobre a preparação que passou a fazer.
À data da gravação da entrevista, referia ter dois singles publicados e um terceiro em fase de conclusão, já com videoclipe realizado. Admitia ainda desenvolver trabalho na produção e no acompanhamento de outros artistas, procurando disponibilizar ferramentas que sentiu falta de encontrar no início do próprio percurso.
A passagem pelo Ídolos não resolveu todo o caminho
O percurso até viver da música tinha passado pelos concertos com os Little Birds e pela participação no Ídolos, em 2015.
Tinho chegou ao grupo dos dez finalistas, mas reconhece que, nessa altura, ainda não sabia exatamente como aproveitar a exposição televisiva. O objetivo com que entrou era mais limitado: passar a avaliação dos jurados. Tudo o que viesse depois seria um acréscimo.
A experiência deu-lhe contacto com outros intérpretes e com práticas que desconhecia, incluindo exercícios de técnica e aquecimento vocal. A construção da carreira continuou, depois, através das atuações e do investimento no próprio trabalho.
Realização para além da notoriedade
A possibilidade de chegar a mais pessoas continua entre os objetivos, mas Tinho não faz dela a única medida da realização profissional.
«Eu posso não vir a ser o artista mais conhecido», admite. O que procura é continuar a desenvolver as próprias músicas, atuar e conseguir retorno de uma atividade de que gosta. Na entrevista, recorda também as atuações nos palcos principais do Évora Wine e dos Santos, em Évora, como momentos em que sentiu essa realização.
A paciência é outra das características que associa ao percurso. Não a descreve como esperar sem agir, mas como trabalhar sem ter garantia de um resultado imediato: «Tive que ter também essa paciência para trabalhar para elas», afirma, referindo-se às oportunidades que foi procurando construir.
Quando fala das referências que o acompanharam, identifica a mãe, a irmã e a mulher alemã que a família considerava avó. São relações que liga à forma como aprendeu a enfrentar dificuldades e a olhar para os outros.
A entrevista integra a parceria entre o Jornal ODigital.pt e o VÄLIDO Talks.
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