A população nacional de sisão está em risco iminente de extinção, depois de ter diminuído cerca de 90% nos últimos 20 anos. Os dados constam dos resultados do 4.º Censo Nacional de Sisão, coordenado pelo BIOPOLIS/CIBIO e publicados esta quinta-feira.
Segundo o censo, a população em Portugal é atualmente estimada em apenas 1736 machos, confirmando o declínio acentuado desta ave estepária, outrora abundante nas planícies alentejanas.
Organizações pedem plano de emergência
Face aos resultados, as organizações SPEA-BirdLife, LPN, WWF-Portugal, Palombar, FAPAS, GEOTA e ZERO apelam à adoção urgente de medidas de emergência para evitar a extinção do sisão em Portugal.
“Os resultados deste censo são alarmantes, mas infelizmente não são inesperados. Estamos a assistir ao desaparecimento do sisão perante os nossos olhos no curto prazo”, afirma Julieta Costa, coordenadora do Departamento de Conservação Terrestre da SPEA-BirdLife.
A responsável considera ainda “incompreensível que o Estado português continue sem implementar medidas de conservação eficazes”, apontando falhas no cumprimento das obrigações previstas na Diretiva Aves da Comissão Europeia.
Ave depende dos sistemas agrícolas extensivos
O sisão, de nome científico Tetrax tetrax, depende de habitats abertos e de sistemas agrícolas extensivos. Por nidificar no solo, torna-se especialmente vulnerável à intensificação agrícola.
Entre as principais ameaças apontadas estão a substituição de culturas de cereais em extensivo por culturas permanentes intensivas, como amendoal e olival, o aumento da intensidade do pastoreio, a redução das áreas de pousio e a crescente instalação de infraestruturas nos meios rurais, incluindo linhas elétricas.
Estas pressões afetam também outras aves estepárias, como a abetarda e o tartaranhão-caçador, que registam igualmente declínios acentuados.
Declínio continua nas zonas protegidas
João Paulo Silva, do BIOPOLIS/CIBIO e coordenador do Censo Nacional de Sisão, recorda que a situação da espécie tem vindo a agravar-se desde o primeiro censo, realizado em 2006.
“Já em 2022 a conclusão foi que o sisão estava em risco de extinção, e por isso foi classificado como Criticamente em Perigo. Passados quatro anos, a espécie continua em declínio, mesmo nas Zonas de Proteção Especial que deviam protegê-la”, sublinha.
Paisagem cerealífera também em risco
As organizações alertam ainda para a perda da paisagem cerealífera em Portugal. De acordo com Joaquim Teodósio, coordenador do projeto LIFE SOS Pygargus, o país perdeu quase 80% da área de cereal desde o final da década de 1980.
A área passou de cerca de 900 mil hectares para aproximadamente 190 mil hectares em 2023, situação que, segundo o responsável, aumenta a dependência de importações para o consumo nacional. A esta tendência junta-se o envelhecimento dos agricultores que ainda produzem cereal.
Medidas propostas
As organizações defendem a criação urgente de um plano de emergência interministerial, com participação de organizações não-governamentais de ambiente, agricultores, universidades e atores locais.
Entre as medidas propostas estão a proteção ativa das áreas de reprodução, a promoção das áreas cerealíferas e dos pousios, a melhoria das medidas agroambientais, a valorização da produção nacional, o ordenamento das infraestruturas energéticas, a limitação do regadio em áreas críticas, a criação de uma rede de reservas e o desenvolvimento de um programa de conservação ex-situ, com reprodução em cativeiro para posterior devolução à natureza.
Sem ação imediata, alertam as organizações, a extinção do sisão em Portugal poderá tornar-se uma realidade a curto prazo.




















