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“Se tocar numa pessoa, já está ganho”: Albano Jerónimo leva “Revelação” à Sé de Évora

O ator apresenta este sábado o espetáculo “Revelação”, construído a partir de textos de José Tolentino Mendonça. Em entrevista ao Jornal ODigital, Albano Jerónimo destacou a relação entre a palavra, a arquitetura da Sé de Évora e a necessidade de criar novos espaços de atenção.

O ator Albano Jerónimo apresenta este sábado, 18 de julho, na Sé de Évora, o espetáculo “Revelação”, integrado na programação da Évora_27 – Capital Europeia da Cultura. A criação, encenada por John Romão e construída a partir de textos originais do cardeal e poeta José Tolentino Mendonça, propõe um encontro entre a palavra, a espiritualidade e a arquitetura religiosa.

Em entrevista ao Jornal ODigital, Albano Jerónimo explicou que o espetáculo foi pensado para acontecer exclusivamente em igrejas, procurando retirar o texto do contexto convencional de uma sala de teatro e colocá-lo num espaço marcado pela simbologia, pela acústica e pela presença da palavra.

A igreja como espaço da palavra

Segundo o ator, a escolha da Sé de Évora não funciona apenas como cenário, mas como parte integrante da própria criação artística.

“Esta ‘Revelação’ tem essa característica de só acontecer em igrejas”, afirmou Albano Jerónimo, explicando que o encenador John Romão pretendia que o texto encomendado a José Tolentino Mendonça mantivesse “uma certa aura” e uma dimensão associada à religiosidade.

Ao retirar o espetáculo de um teatro convencional, acrescentou, a criação ganha uma outra forma e uma relação diferente com o público.

“No fundo, aquilo que nós queríamos era criar um espaço da palavra. A igreja, por excelência, é um espaço de palavra”, referiu.

O ator descreve-se, neste espetáculo, como uma espécie de “explorador sonoro”, que procura utilizar a arquitetura de cada igreja para descobrir novas possibilidades de interpretação.

“Vou à procura, através da arquitetura, das formas e daquilo que contém um espaço, dos sons que posso tirar daí”, explicou, sublinhando que a arquitetura da Sé de Évora “fala por si” e transporta uma simbologia reconhecida pelo público.

Um tempo diferente da rapidez quotidiana

Para Albano Jerónimo, “Revelação” procura também contrariar o ritmo acelerado da sociedade contemporânea e a exposição permanente à informação.

O público, afirmou, vai encontrar “um outro tempo”, diferente da “overdose permanente” de estímulos e de um “aparente conhecimento oco”.

“Aqui pretendemos exatamente criar outro espaço de atenção, para que as pessoas também se disponibilizem a entrar”, disse o ator.

A própria entrada numa igreja, considera, pressupõe uma atitude física e comportamental distinta, que poderá contribuir para criar uma maior disponibilidade para escutar e acompanhar os textos de Tolentino Mendonça.

Durante o espetáculo são abordados temas como a sede, a espera, a fome e a família, através da escrita poética do cardeal.

“As pessoas podem esperar ouvir temas que o cardeal, de forma poética, como só ele sabe escrever, trata de uma forma que nos toca e nos traz para a escrita dele de forma absolutamente única”, salientou.

Albano Jerónimo considera ainda que qualquer objeto artístico permanece incompleto sem a participação do público.

“Todos os objetos que se criam são imperfeitos e carecem sempre de um interlocutor, neste caso de um público, para que sejam completados”, afirmou.

A cultura como espaço de conhecimento

Questionado sobre a integração do espetáculo na programação da Évora_27 – Capital Europeia da Cultura, o ator destacou a importância de participar num projeto cultural desta dimensão no seu próprio país e numa região como o Alentejo.

Albano Jerónimo defendeu que a cultura pode proporcionar conhecimento, diferentes perspetivas e espaço para reflexão, contribuindo para aproximar as pessoas e promover a aceitação da diferença.

“Através do conhecimento queremos convocar, sem nenhum sentido paternalista, porque não nos compete isso, mas chamar a atenção das pessoas, dar-lhes outras perspetivas e dar-lhes espaço para pensar”, afirmou.

Para o ator, a cultura pode criar condições para que o público aceite “a diferença” e “o outro”, num contexto social em que considera necessário reforçar o conhecimento e a capacidade de reflexão.

“Acredito que, através do conhecimento, há uma forma inteligente e interessante de chegar às pessoas e ao público”, acrescentou.

“Que as pessoas saiam com pensamentos inquietos”

Albano Jerónimo rejeita a ideia de que o espetáculo deva transmitir uma mensagem única ou fechada. O objetivo, explica, é provocar reflexão e permitir que cada espectador construa a sua própria leitura.

“Aquilo que eu pretendo é que as pessoas saiam daqui com pensamentos inquietos, com pensamentos sobre si próprias, sobre os outros e sobre aquilo que ainda não conhecem”, afirmou.

O ator espera que a cultura possa funcionar como “uma porta” para uma paisagem desconhecida, levando o público a querer conhecê-la e a mergulhar nela.

Albano Jerónimo considera que uma das funções do artista é, por um lado, contribuir para a harmonia da sociedade e, por outro, dinamizá-la através do trabalho artístico.

“Esse é sempre em prol do outro”, salientou, acrescentando que procura convocar o público para criar reconhecimento e empatia perante aquilo que inicialmente se desconhece.

“No fundo, que através da cultura, da arte e das artes de palco se possa chegar a uma ilha comum, a um mundo melhor ou, pelo menos, a um mundo com esperança”, declarou.

Procura de bilhetes levou à abertura de nova sessão

A adesão do público ao espetáculo levou ao rápido esgotamento da primeira sessão e à abertura de um horário adicional.

Albano Jerónimo descreveu esta resposta como uma das experiências mais satisfatórias para um artista.

“Em poucos minutos esgotámos a primeira sessão e tivemos, obviamente, necessidade de abrir uma segunda. Ter essa resposta por parte do público é sinal de que as pessoas têm interesse”, afirmou.

O ator considera que esta procura demonstra a vontade do público em contactar com outras propostas culturais.

“As pessoas querem outro tipo de alimentação e nós, artistas, estamos aqui para dar outro tipo de menu”, disse, convidando o público a “partilhar este buffet através da palavra de Tolentino Mendonça”.

O ator destacou ainda que a adesão registada em Évora contraria a ideia de que o público alentejano estaria afastado deste tipo de programação.

“A resposta do público foi altamente musculada e queremos responder com um músculo ainda maior em cena”, afirmou.

Albano Jerónimo mostrou-se também expectante quanto à sessão adicional, marcada para as 23h00, num horário que permitirá explorar de forma diferente a atmosfera e a acústica da Sé de Évora.

“Que a palavra possa ressoar às 23h00, no meio das entrelinhas deste vento que corre aqui, e que possa tocar em alguém. Se tocar numa pessoa, já está ganho”, concluiu.

Dois espetáculos na programação da Évora_27

“Revelação” integra uma noite de programação dupla promovida pela Évora_27 – Capital Europeia da Cultura.

O primeiro espetáculo decorre na Sé de Évora, seguindo-se, às 22h00, “MA”, uma criação do artista francês Maxime Houot, apresentada no Salão Central Eborense.

As propostas foram concebidas como dois momentos complementares, num percurso entre a palavra, a espiritualidade, o gesto, a luz e a tecnologia.

A entrada é gratuita, mediante levantamento prévio de bilhete na plataforma BOL.

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