A rádio interna criada no Estabelecimento Prisional (EP) da Guarda, no âmbito do projeto “Ar Livre”, dinamizado pela associação Terceira Pessoa, vai ser alargada a mais quatro cadeias portuguesas, foi hoje anunciado.
“O impacto do projeto ‘Radioatividade’ foi de tal forma positivo que a Fundação Calouste Gulbenkian nos convidou a replicar o projeto em mais quatro estabelecimentos prisionais e é isso que está agora a acontecer. Vamos continuar a fazer peças de teatro radiofónicas e criar uma rádio em cada prisão”, revelou o diretor artístico da Terceira Pessoa, Óscar Silva, à agência Lusa.
O responsável acrescentou que o EP da Guarda é “o ‘farol’, a referência e o grande exemplo para os restantes”.
Assim, o projeto está a ser implementado no EP de Izeda (Bragança), Santa Cruz do Bispo (Matosinhos), Coimbra e Pinheiro da Cruz (Grândola), além da Guarda.
Óscar Silva falava à margem da apresentação dos resultados do projeto “Ar Livre”, que decorreu esta manhã no café-concerto do Teatro Municipal da Guarda (TMG).
O objetivo é fazer “um ‘Radioatividade’ nacional e peças de teatro radiofónicas, que, a partir de agora, serão emitidas na Antena 1”, adiantou.
“Com isto, queremos construir também uma rádio interna prisional nacional – e talvez também única no mundo – se conseguirmos fazer com que estas rádios prisionais fiquem interligadas”, disse aquele responsável.
Levado a cabo com o apoio do EP guardense, o “Ar Livre” é um projeto pluridisciplinar de cocriação, formação e intervenção artístico-social com a população reclusa masculina e feminina da cadeia da Guarda.
A iniciativa decorreu desde setembro de 2025 e culminou com a estreia do espetáculo de teatro “Suster”, no dia 29 de maio, no TMG.
“Mas a Terceira Pessoa começou a trabalhar no EP da Guarda em 2020”, lembrou.
Desta vez, segundo o diretor artístico desta organização, as atividades realizadas tiveram um impacto “muito positivo nos reclusos, no grupo de pessoas envolvido e também no clima institucional prisional”.
“Os resultados comprovam que estamos a fazer um trabalho de desconstrução de preconceitos e de acessos também à inclusão social que é muito importante através destas práticas artísticas”, afirmou Óscar Silva.
Na Guarda, a Terceira Pessoa já criou a peça de teatro “Para que lado ficou amanhã?”, no âmbito do projeto “Espíritos Livres”, está a desenvolver teatro radiofónico, atividade apoiada pela Fundação Calouste Gulbenkian e a Fundação ‘La Caixa’, tendo como parceiro a rádio Antena 2, que culminou na criação de uma rádio interna que tem emissão semanal.
A rádio do EP da Guarda passou a integrar uma rede mundial de rádios prisionais.
Para Óscar Silva, destas atividades fica “uma experiência muito poderosa, muito transformadora”, para os reclusos.
“Fica também a mensagem de que nós todos somos seres humanos, temos valores, e podemos errar na vida, mas também devemos ter o direito de nos recompor”, realçou.
O projeto “Ar Livre” envolveu cerca de 35 reclusos, maioritariamente homens, bem como técnicos, docentes e guardas prisionais.
“A Terceira Pessoa vai continuar a trabalhar no EP da Guarda com o ‘Radioatividade’ e também queremos uma relação de proximidade com a Câmara e o Teatro Municipal da Guarda noutros projetos teatrais, de artes de palco, que a Terceira Pessoa tem”.
Para Luís Couto, diretor do EP da Guarda, projetos como o “Ar Livre” e “Radioatividade” “ajudam muito no processo de reinserção social dos reclusos”.
“Desde 2003 que vamos fazendo estes projetos e sabemos que têm repercussões muito positivas na população prisional. O que fica é mais uma ferramenta que, no seu projeto de vida, os ajuda muito a modificar-se, os comportamentos mudam muito à custa da intervenção desta área artística e, portanto, nós vamos continuar com este trabalho”.
O EP da Guarda conta, desde 2013, com apoios da DGArtes, da Gulbenkian e da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC).
















