Cabeção, no concelho de Mora, em janeiro transforma-se no epicentro da celebração do vinho de talha, reunindo produtores, enólogos, especialistas e visitantes num evento que reafirma a importância deste método ancestral de vinificação.
A XXVIII Prova do Vinho Novo de Talha levou à vila não apenas aficionados da região, mas também apreciadores vindos de outros pontos do país e do estrangeiro.
Vítor Marques, Grão-mestre da Confraria do Vinho de Talha de Cabeção, partilhou o seu entusiasmo e o compromisso da confraria em preservar uma prática que considera “a alma” da terra. «O objetivo é simples: manter a dinâmica de uma tradição que é nossa. Produzimos um vinho genuíno, puro sumo de uva fermentado, com intervenção mínima. E queremos que esta autenticidade seja reconhecida nos rótulos das nossas garrafas», afirmou.
O que torna o vinho de talha único?
O vinho de talha é reconhecido pela sua simplicidade e naturalidade. A vinificação ocorre em grandes talhas de barro, um processo que remonta à presença romana na Península Ibérica. «É puro sumo de uva fermentado. Um vinho de intervenção mínima, sem produtos químicos em excesso. Na sua maioria, apenas contém sulfitos em percentagens muito baixas», explicou Vítor Marques, destacando o elevado grau alcoólico e a maciez do produto final.
Além disso, sublinha a experiência sensorial associada ao vinho de talha: «É um vinho diferente. Quem prova reconhece a sua suavidade e a ausência de agressividade. Mesmo consumindo moderadamente, no dia seguinte não há dores de cabeça, o que o torna especial e procurado por quem valoriza a qualidade», referiu. O Grão-Mestre também apontou o regresso da popularidade deste vinho: «Antes, consideravam o vinho de talha ultrapassado. Foi preciso que o mercado norte-americano identificasse este nicho para as grandes casas vinícolas nacionais perceberem o seu valor».
O ritual da vindima e da abertura da talha
O processo de produção inicia-se com uma vindima manual, realizada durante as manhãs frescas de setembro. «Com as alterações climáticas, temos vindo a ajustar as datas, mas a tradição mantém-se. Retiramos os engaços e colocamos o restante na talha, onde o vinho permanece até meados de dezembro», explicou o Grão-mestre.
A abertura das talhas é um momento de festa. «O som do vinho a correr é quase música. Nem Beethoven faria uma melodia igual. É um momento único, partilhado com amigos e que representa o culminar de todo o trabalho», descreveu. «É nesta ocasião que celebramos a tradição, não apenas pelo consumo, mas pelo convívio e pela união que o vinho proporciona», acrescentou.
Desafios e oportunidades
Apesar do entusiasmo, a produção de vinho de talha enfrenta desafios. Segundo Vítor Marques, o envelhecimento da população e a perda de terrenos dedicados à vinha têm diminuído a produção. «Há 40 anos, Cabeção tinha mais de 500 artigos cadastrados com vinha. Hoje, temos apenas 128 hectares. Muitos venderam os direitos de plantio, um património que não volta», lamentou.
Ainda assim, há sinais de revitalização. «Estamos a atrair novos produtores. Um casal francês, por exemplo, investiu significativamente em Cabeção porque se apaixonou pela tradição. Isto mostra que o nosso vinho continua a inspirar», sublinhou.
A questão da certificação é também uma prioridade. Atualmente, o vinho de talha está integrado na classificação de Vinho Regional Alentejano, mas os produtores reivindicam uma distinção específica. «Fiscalizem, controlem, mas deixem-nos colocar nos rótulos o que é verdade: vinho de talha. O consumidor tem direito a saber o que está a comprar», reforçou.
A confraria e o futuro do vinho de talha
A Confraria do Vinho de Talha de Cabeção, fundada há três anos, tem desempenhado um papel essencial na promoção e preservação desta herança. «Somos uma comunidade de produtores e apreciadores que partilha um objetivo comum: valorizar e dar continuidade a esta tradição», explicou o Grão-mestre. A organização do evento anual tem sido uma das suas principais conquistas. «É uma oportunidade para mostrar ao mundo o que temos de melhor, atrair visitantes e partilhar o nosso legado», concluiu.
Com uma história de séculos e uma comunidade empenhada, Cabeção reafirma o seu lugar como guardiã do vinho de talha, perpetuando uma tradição que é, acima de tudo, um património cultural e afetivo.



















