Presidente do ICOM Portugal volta a alertar para grandes dificuldades dos museus do Alentejo, após visita da Deputada do BE

Presidente do ICOM Portugal

Nos últimos anos, alguns museus e sítios arqueológicos do Alentejo têm sofrido de subfinanciamento e de algum esquecimento, levando a que se degradem mais rapidamente, facto que tem preocupado o ICOM Portugal.

Neste sentido, o ICOM Portugal tem feito alguma pressão, junto do poder político, de forma a que este património não caia definitivamente no esquecimento. No mês de agosto, Maria de Jesus Monge, Presidente do ICOM Portugal enviou uma carta à Ministra da Cultura, alertando-a para a problemática situação do Museu Nacional de Évora.

No final da passada semana, a Presidente do ICOM Portugal acompanhou a Deputada do Bloco de Esquerda, Alexandra Vieira, numa visita realizada a vários museus e sítios arqueológicos do Alentejo, nomeadamente em Mértola, Beja e Évora.

ODigital.pt falou com Maria de Jesus Monge, Presidente do ICOM Portugal, que começou por referir que “os momentos singulares que vivemos vieram acentuar as grandes dificuldades com que lutam diariamente os museus e os seus profissionais. A direção do ICOM Portugal acompanha e procura dar voz a estes problemas, por todos os meios que tem ao seu alcance”, revelando que “temos vindo a informar e a manter um diálogo ativo com os vários grupos parlamentares.  No Dia Internacional do Museus tivemos oportunidade de dar a conhecer a deputados do PSD, as dificuldades sentidas em vários museus de Lisboa, no momento da reabertura ao público.”

Sobre a visita do passado dia 3, salientou que “correspondemos ao interesse manifestado pela deputada Alexandra Vieira do BE, na sequência do alerta do ICOM Portugal sobre o encerramento do Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo, em Évora, que se traduziu no envio de uma carta à Ministra da Cultura pedindo medidas urgentes para garantir a abertura ao público do único museu nacional a sul do Tejo.”

Sobre a visita em si, Maria de Jesus referiu que foi tomado “conhecimento das realidades no terreno, falando directamente com as equipas das diversas instituições museológicas, pois é a melhor forma de conhecer o imenso trabalho que é desenvolvido. Estas pequenas equipas realizam as funções museológicas de conservação, estudo, exposição e divulgação, em condições difíceis que são acentuadas pela distância dos grandes centros urbanos”, acrescentando que “foi muito positivo e ficamos agradecidos à deputada por ter vindo até nós, ter vindo conhecer estas realidades e puder ser eco das situações e preocupações que encontrou.”

Questionada sobre quais os problemas que este património atravessa, a Presidente do ICOM Portugal afirmou que “a visita proposta pelo ICOM Portugal abrangeu apenas instituições museológicas, sabemos que a deputada terá também visitado sítios, nomeadamente a Anta grande do Zambujeiro e o Cromeleque dos Almendres, que necessitam de atenção urgente”, já no que respeita aos museus, “para além da especificidade das situações, há problemas transversais, com a falta de recursos humanos em primeiro lugar. Esta falta é geral, mas afecta muito particularmente as equipas técnicas, com profissionais à beira da reforma que não podem transmitir o saber acumulado, em outras situações já mesmo sem possibilidade de passagem de testemunho”, acrescentando que “a este grave problema somam-se a insuficiência de recursos a outros níveis, demonstrando a falta de investimento geral no Património Cultural, quando esta área é das que mais potencia a coesão territorial, o bem-estar e capacitação das comunidades, o turismo cultural e a regeneração dos tecidos social e económicos locais, regionais e nacional.”

Sobre a carta que em Agosto o ICOM Portugal enviou à Ministra da Cultura, Maria de Jesus Monge referiu que “o Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo padece de um esquecimento crónico por parte da tutela. Tem décadas a carência de recursos humanos adequados, a suborçamentação, a impossibilidade de implementar projectos consistentes e continuados” e deixou claro que “a carta enviada pelo ICOM Portugal não teve resposta.”

Ainda sobre o Museu de Évora, Maria de Jesus revela que “está prevista a vinda de um novo diretor (estão a concurso todas as direções de museus nacionais) e, no âmbito da implementação do decreto–lei que regulamenta uma maior autonomia para os museus nacionais, é de esperar que este museu seja finalmente dotado de condições para cumprir a sua missão. A verba que está orçamentada é tão pequena e as condições existentes são tão insuficientes que é, contudo, imperativa uma atenção especial e constante.”

Se a falta de interesse do Poder Central pelos Museus e Sítios do Alentejo pode pôr em causa o futuro deste património, Maria de Jesus Monge, é clara ao dizer que “o desinteresse pelo Património Cultural é, infelizmente, transversal a todo o país, com algumas excepções assinaláveis, por exemplo de alguns municípios” e refere que “a anunciada extinção das Direções Regionais de Cultura e sua absorção pelas Comissões de Coordenação Regionais, sem que estejam a ser acauteladas competências e circunstâncias específicas, preocupa todos os que desejam que o Património Cultural e os museus regionais (caso do Museu de Beja) em particular tenham condições para cumprir a sua missão”. Conclui referindo que “as instituições museológicas têm especificidades que exigem competências próprias. A implementação da Lei-quadro dos Museus e a acção da Rede Portuguesa de Museus tiveram um papel relevante neste reconhecimento, mas de há uma década para cá o desinvestimento instalou-se.”

A realização de outro tipo de visitas com outros partidos políticos e até mesmo com a Ministra da Cultura é uma possibilidade, pois “o ICOM Portugal tem vindo a falar com todas as forças políticas, a alertar para situações particularmente preocupantes mas, sobretudo, a pedir uma estratégia nacional de longa duração para uma área central na construção de uma cidadania responsável, informada e inclusiva. Não convém também esquecer o papel económico que as instituições de cultura já provaram ter, tão mais significativas em territórios pouco povoados, tradicionalmente com pouca atratividade para a fixação de jovens qualificados”, referiu Maria de Jesus Monge, que lembrou que “é fundamental lembrar que os museus têm potencial multiplicador de quaisquer investimentos”, especialmente agora que vai ser “negociado o Orçamento de Estado para 2021 e é estudada a aplicação dos fundos europeus destinados a combater o impacto da pandemia”.

Se não houver um investimento rápido nos museus e sítios arqueológicos do Alentejo, há património que se pode perder, como disse a Presidente do ICOM Portugal que afirmou que “diariamente há notícia de vandalização de Património, por falta de conhecimento ou crentes na inoperação dos instrumentos legais de proteção. O alastrar da permissividade e permitir que as decisões sobre salvaguarda passam para órgãos ainda mais permeáveis a pressões pode efetivamente colocar em perigo a imensa riqueza patrimonial do Alentejo. O turismo cultural tem vindo a crescer e se os bons hotéis e restaurantes são um bom complemento, não são eles a razão porque tantos nos procuram.”

Concluiu dizendo que “a regulamentação e efetiva fiscalização de proximidade, que inclui o envolvimento direto e empenhado das comunidades são fundamentais. Para proteger, temos que conhecer, temos que tecer laços e aí os museus são o veículo certo para promover uma cidadania ativa.”