O Porto de Sines voltou a receber gás natural liquefeito proveniente da Rússia, numa operação realizada a cerca de seis meses da entrada em vigor da proibição europeia às importações deste combustível. Segundo dados recolhidos pelo jornal Expresso, esta foi a segunda descarga de gás russo em Portugal desde o início do ano.
O navio Yakov Gakkel, com bandeira das Bahamas, atracou este domingo no Porto de Sines, depois de ter partido do terminal de Sabetta, na península de Yamal, no Ártico russo. A saída da embarcação estava prevista para a manhã desta segunda-feira, altura em que chegaria ao terminal da REN – Redes Energéticas Nacionais outro navio de transporte de gás, proveniente da Nigéria.
Com quase 300 metros de comprimento, o Yakov Gakkel já tinha estado em Sines em agosto de 2022, quando realizou uma das primeiras descargas de gás russo em Portugal após o início da guerra na Ucrânia. A embarcação é operada pela Seapeak, empresa anteriormente designada Teekay LNG Partners e atualmente detida por fundos da norte-americana Stonepeak.
Sines mantém papel central na entrada de gás em Portugal
O terminal de gás natural liquefeito de Sines continua a ser uma das principais portas de entrada de gás natural em Portugal. A infraestrutura da REN recebe cargas de diferentes origens, incluindo Nigéria, Estados Unidos e, ainda que em menor proporção, Rússia.
De acordo com a plataforma REN Datahub, nos primeiros cinco meses deste ano Portugal importou 20,9 terawatt-hora de gás natural. A Nigéria foi a principal origem, com 50,5%, seguindo-se os Estados Unidos, com 34,4%. Espanha representou 9,9% das importações, por gasoduto, enquanto a Rússia correspondeu a 5,2%.
Este ano, Sines já tinha recebido uma descarga de gás russo em fevereiro. Nesse mês, uma das quatro cargas que chegaram ao terminal da REN teve origem em Sabetta, na Rússia. As restantes vieram dos Estados Unidos e da Nigéria.
Importador da carga não é identificado
Os dados da Administração do Porto de Sines não indicam quem é o importador da carga agora descarregada. A informação disponibilizada pela REN também não identifica a entidade responsável pela importação.
No entanto, segundo o Expresso, o único contrato de longo prazo que tem trazido gás russo para Portugal pertence à espanhola Naturgy, informação que já foi assumida publicamente pelo Governo português.
A Naturgy assinou em 2013 um contrato com a Yamal LNG para a compra anual de 38 terawatt-hora de gás até 2041. O acordo é do tipo “take or pay”, obrigando a empresa a pagar o gás contratado mesmo que não utilize a totalidade do volume.
Proibição europeia entra em vigor em janeiro de 2027
A Comissão Europeia anunciou em 2022 a intenção de reduzir a dependência energética da Rússia, na sequência da invasão da Ucrânia. No entanto, a proibição total da importação de gás natural liquefeito russo só entrará em vigor em janeiro de 2027.
A medida abrangerá também negócios de empresas europeias destinados à revenda desse gás fora do espaço comunitário. Até à entrada em vigor da proibição, contratos de longo prazo continuam a permitir a chegada de gás russo a portos europeus, incluindo Sines.
Em 2025, Portugal importou 3,3 TWh de gás russo, valor semelhante ao registado no ano anterior. Em 2021, antes da invasão da Ucrânia pela Rússia, as importações portuguesas chegaram aos 8,7 TWh, de acordo com os dados citados pelo Expresso.
Espanha entre os países mais expostos ao gás russo
A decisão europeia deverá ter impacto em países que continuam a receber gás natural liquefeito russo. Espanha é um dos casos com maior exposição, sendo também relevante para Portugal devido à ligação do mercado ibérico de energia.
O porto de Bilbau é o quarto maior destino europeu do gás proveniente da península de Yamal, atrás de Zeebrugge, na Bélgica, e de Montoir e Dunquerque, em França. Segundo o Expresso, o presidente do porto de Bilbau, Ivan Jimenez, afirmou ao Financial Times que as importações de gás russo devem ser reduzidas, mas que esse processo não pode ser feito “de um dia para o outro”.
Em maio, a Rússia representou quase 28% das importações de gás natural de Espanha, segundo dados da Enagás, operadora espanhola equivalente à portuguesa REN. A Argélia mantém-se como o principal fornecedor do mercado espanhol.
Também citada pelo Financial Times, a ministra espanhola da Energia, Sara Aagesen, defendeu que é possível eliminar as importações de gás russo a partir de 1 de janeiro de 2027.



















