Plantas aromáticas em ninhos de Chapim-azul? Universidade de Évora estuda esse uso e os efeitos

Chapim-azul

Depois de se saber que “algumas espécies de aves adicionam plantas aromáticas na construção de ninhos, como é o caso do Estorninho-comum Sturnus vulgaris, do Estorninho-preto Sturnus unicolor  ou da Águia-de-Bonelli Hieraaetus fasciatus”, a tese de doutoramento de Bárbara Pires, em Biologia pela Universidade de Évora (UÉ) permitiu avançar com várias hipóteses relacionadas com dissimulação/sombra dos ninhos, entre elas a regulação da perda de água e níveis de calor, acrescenta a Universidade de Évora em comunicado.

Segundo a nota enviada, os resultados agora obtidos “permitiram melhorar consideravelmente o conhecimento sobre este tema, introduzindo novas variáveis de estudo, novas metodologias e novas ideias” assegura Bárbara Pires.

Para explicar este comportamento a sua tese de doutoramento em Biologia avança que “em aves cavernícolas secundárias, como é o caso do Chapim-azul, as hipóteses relacionadas com a redução das populações de parasitas e a melhoria da condição das crias têm sido valorizadas para explicar este comportamento”, salientando-se que os ninhos são muitas vezes reutilizados ano após ano, pelo que as crias “encontram-se mais expostas a parasitas, principalmente devido ao facto de várias espécies de insetos hibernarem  nas cavidades durante o inverno” destaca.

É por isso que, desta forma, e avaliar pelo seu estudo, “as crias de aves cavernícolas são afetadas por parasitas que se encontram presentes nos ninhos através de contato direto, mas também através da condição corporal dos progenitores” frisa Bárbara Pires, acrescentando que progenitores e crias adotam diferentes mecanismos de defesa para limitar e/ou aliviar os efeitos prejudiciais desses parasitas.

As cavidades onde são construídos os ninhos “proporcionam proteção de predadores e condições ambientais mais desfavoráveis, pelo que constituem um excelente abrigo para as crias, mas também para os insetos que utilizam as cavidades para se reproduzir e alimentar” salienta ainda Bárbara Pires, referindo que esses insetos são parasitas de aves, podendo alimentar-se de pele, penas e sangue.

Neste caso, “poderão parasitar tanto as crias como os progenitores, mas no processo destes parasitas alimentarem-se das aves, podem transmitir parasitas sanguíneos que, embora não esteja confirmado que provoquem a morte tanto de crias como dos pais, debilitam bastante o organismo” refere ainda, realçando que a condição dos pais “terá um efeito direto na condição das crias: se os pais estiverem em fraca condição corporal ou parasitados, os cuidados que prestam às crias ficarão comprometidos”.

Bárbara Pires, indica assim que a incorporação de plantas aromáticas específicas em ninhos de Chapim-azul permitiu “produziu crias com maior tarso, mas apenas em ninhadas grandes”, verificando-se que, mesmo com suplementação de plantas aromáticas nos ninhos, as fêmeas de Chapim-azul “adicionaram plantas escolhidas por si, com um padrão de uso muito diverso, e nem sempre diretamente relacionado com a disponibilidade dessas plantas na área circundante dos ninhos”.

Para além destas observações, foram ainda verificadas “relações significativas entre plantas aromáticas adicionadas aos ninhos pelas fêmeas, peso dos ninhos, data de postura e parâmetros reprodutivos”, resultados fornecem novas perspetivas de como as fêmeas de Chapim-azul “utilizam plantas aromáticas nos seus ninhos e de como este uso está relacionado com características dos ninhos, parâmetros reprodutivos e condição das crias”, destaca com base na tese de doutoramento orientada pelos investigadores da UÉ, Anabela Belo e João Rabaça, e por Merino Rodriguez Santiago, investigador no Museo Nacional de Ciencias Naturales, um institutos de investigação científica espanhol de referência no âmbito das ciências naturais.

No estudo sublinha-se que as crias são afetados por parasitas de várias formas, entre estas, “através de ectoparasitas presentes em ninhos que estabelecem contato direto com os filhotes”. Para mitigar os impactos negativos dos parasitas, quer os progenitores quer as crias podem adotar diferentes mecanismos de defesa que irão reduzir a probabilidade de chegada de parasitas e aliviar o contato com esses parasitas.

Os resultados obtidos deram suporte científico a estudos anteriores, “mas este veio melhorar consideravelmente o conhecimento sobre este tema, incluindo novas variáveis de estudo, novas metodologias e novas ideias”, afirma Bárbara Pires, afirmando que “ficou claro que a introdução de plantas aromáticas em ninhos beneficia o desenvolvimento e a condição das crias

A seletividade das plantas aromáticas pelas fêmeas e a periodicidade com que as plantas aromáticas são incluídas nos ninhos já eram conhecidas, mas não com o nível de detalhe que este estudo permitiu alcançar.

Bárbara Pires sublinha ainda a este respeito que “a biodiversidade enfrenta uma crise, amplificada pelos efeitos das alterações climáticas, e que a variação dessas alterações afetará a disponibilidade de recursos” dando como exemplo a oferta de alimentos ou os materiais usados na construção dos ninhos, pelo que “será importante testemunhar como as espécies com tais comportamentos específicos irão adaptar-se” questiona Bárbara Pires.

A concluir, a investigadora da UÉ explica que as plantas utilizadas podem influenciar as características dos ninhos, parâmetros reprodutivos e condição das crias, uma vez que estes são construídos pela fêmea e as plantas são igualmente incorporadas pela fêmea. “Se pensarmos no ninho e nas plantas como uma extensão dos cuidados parentais da fêmea, fará sentido que os “melhores” ninhos sejam os que têm mais plantas ou aqueles em que as plantas são utilizadas mais vezes” sustenta, do mesmo modo, e assumindo que as plantas têm um efeito positivo na taxa de sobrevivência das crias e no seu desenvolvimento, “então fará sentido pensar que os “melhores” ninhos, têm mais plantas e, por isso criam mais crias e crias com melhores condições corporais.”