Performances sobre ideia de ócio em antiga escola primária de Évora

A ideia de ócio como tempo necessário ao desenvolvimento da reflexão é a ‘pedra de toque’ de três performances criadas pela Malvada Associação Artística, de Évora, e cuja primeira parte, “Vagar”, estreia-se na quarta-feira.

“São três performances que foram ensaiadas ao mesmo tempo, a partir desta ideia de ócio”, explicou à agência Lusa Ana Luena, da Malvada.

O trabalho artístico deu origem às performances intituladas “Vagar”, “Festa” e Sono”, que vão ser apresentadas ao público na antiga Escola Primária dos Canaviais, em Évora, sempre às 19:30, até ao início de dezembro.

O primeiro capítulo deste tríptico, que se estreia na quarta-feira e é representado também na quinta e na sexta-feira, “é sobre a palavra ‘vagar’ e sobre ter tempo para o ócio”, disse Ana Luena.

A próxima representação, a “Festa”, vai poder ser vista na próxima semana, entre os dias 24 e 26, e centra-se “na necessidade que temos de celebrar e sobre como isso também tem a ver com o ócio”.

Durante a pandemia de covid-19, “não tivemos essa celebração e o tempo parece que passa de outra maneira, perdemos um bocadinho a noção do próprio tempo”, argumentou.

A Malvada encerra este tríptico artístico, desenvolvido no âmbito do ciclo “Skholé”, criado e dirigido por Ana Luena e José Miguel Soares, com “Sono”, de 01 a 03 de dezembro.

“Essa performance tem a ver com o facto de, agora, durante a pandemia, este excesso de produtividade e de consumo nos levar a desvalorizar o sono. E, se não dormimos, não sonhamos”, disse.

Segundo a associação artística alentejana, “Skholé” é a palavra grega que designa ócio, lazer e contemplação, tendo originado “a palavra portuguesa escola”.

No âmbito deste ciclo de contemplação e criação artística, a Malvada ocupou a antiga Escola Primária dos Canaviais “num processo de cruzamento disciplinar que recupera a ideia de ócio como tempo necessário ao desenvolvimento da reflexão, imprescindível a uma existência ética e feliz”.

“Na contemporaneidade, essa relação inverteu-se totalmente”, porque “o ócio é visto como tempo de recuperação subordinado ao trabalho ou como sinónimo de desocupação e inutilidade”, argumentou a associação.

E “o pensamento já não dita o tempo”, mas antes “é o tempo que dita o pensamento”, frisou.

“No processo de discernir o que foi e é o ócio, de mapear a forma como vem sendo sucessivamente reconfigurado em ciclos de perda e reivindicação”, a estrutura cultural chegou às três performances, disponíveis também para serem apresentadas ao público escolar.

“Interessa-nos o campo aberto por um tempo julgado inútil e dilatado, a hiperatividade e a inibição de festejar, a coação para a produção e o consumo e também a ideia de que dormir pode ser um ato de resistência”, resumiu a associação.

O projeto “Skholé” integra também residências artísticas, até 16 de dezembro, uma exposição, patente até 27 de janeiro, oficinas e projeção de vídeos, em janeiro.

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