Os Industriais do Mármore estão “numa espécie de gueto, em que eles são uma coisa e o resto da sociedade é outra”, diz Carlos Filipe sobre a evolução do sector (c/som)

O Teatro Bernardim Ribeiro, em Estremoz, recebeu, esta quinta-feira (27 de Fevereiro) um seminário, com o tema “Mármores, uma actividade industrial com história e futuro”, enquadrado no âmbito do estudo Património e História da Indústria dos Mármores (PHIM).

Este é um projecto que vai na sua 3ª fase e é promovido pelo CECHAP – Centro de Estudos de Cultura, História, Artes e Património.

Neste seminário, realizado em Estremoz, debateram-se vários temas como “O Direito das Minas”, o “Território, Sustentabilidade e Recursos Naturais”, “Os Mármores na Economia entre os séculos XVII e XX”, entre outros temas.

ODigital.pt acompanhou este seminário e falou com Carlos Filipe, do CECHAP, que começou por explicar que neste seminário foram abordadas “as questões que vão decorrer desta 3ª fase do projecto Património e História da Indústria dos Mármores (PHIM)”, acrescentando que “este projecto que se iniciou em 2012 e que já vai na 3ª fase de trabalho por parte da investigação, vai ter agora o contributo da jurisprudência, ou seja, do direito e também da economia. São questões fundamentais para compreender como é que a organização deste sector industrial foi sendo desenvolvido ao longo dos séculos.”

O historiador referiu também que neste seminário falou-se “por exemplo da história oral, que é fundamental para recolher testemunhos de antigos actores que estiveram ligados ao sector dos mármores, desde técnicos, industriais, empresários, técnicos de pedreiras, cabouqueiros, canteiros, e todas as outras profissões e vamos trazer esse contributo para ser publicado no sumário final desta fase.”

Neste projecto, Património e História da Indústria dos Mármores, vão ser criados conteúdos para os mais novos, com Carlos Filipe a explicar que se trata de um “serviço de educação patrimonial vamos procurar envolver as escolas dos vários ciclos que tenham uma aproximação com a esta realidade do património produzido através do recurso marmóreo, quer na arquitectura, quer na escultura, quer nas diversas vivencias culturais que à  paisagem.”

Questionado se as novas gerações se estão a afastar do sector dos Mármores, Carlos Filipe salienta que “não temos a garantia que eles se afastem por desinteresse total, o que nós achamos é que tem havido uma falha enorme da parte do ensino, em não vocacionar os jovens para os seus produtos regionais e para os seus produtos endógenos, e isso é fundamental compreender o território a partir daquilo que é os nosso recursos naturais e depois lhe dar ferramentas a esses jovens para que eles possam vir a explorar a ter uma ligação direta com o sector.”

Carlos Filipe criticou ainda, fortemente, os industriais do mármore, pela “falta de interesse”, pois “ainda não perceberam que é importantíssimo para o seu futuro ter esta ligação com o conhecimento por um lado e por outro lado a valorização do território. Os seus recursos só podem ser reconhecidos se forem divulgados, e nós temos aqui uma ferramenta preciosa para divulgar a indústria e os recursos naturais aqui produzidos.”

O membro do CECHAP afirma que “se a indústria mantiver esta atitude no futuro, vai ser muito difícil que se possa manter na postura actual, estarem numa espécie de gueto em que eles são uma coisa e o resto da sociedade é outra, não! Para indústria do Mármores é fundamental perceber que faz parte a cultura, a história, porque é através deste conhecimento que lhe podemos dar alguma visibilidade por um lado, por outro lado dar-lhe alguma actuação futura para não se cometerem determinados excessos de vária natureza”.

Questionado sobre o que leva a este desinteresse por parte dos industriais do mármore, Carlos Filipe refere que “é uma questão de fundo, há uma falta de cultura e uma falta de interesse cultural. As pessoas não foram formatadas para exercerem um equilíbrio entre a sua profissão, a sua actividade profissional e socio-económica e aquilo que á o resto da importância que é a economia, é a questão social, é a questão a todos nos toca que é a economia de escala.”

Conclui fazendo um desafio aos industriais do mármore para darem o seu contributo a este projecto, pois “este projecto tem um portal online 24 horas, onde podem buscar informação sobre a sua actividade e sobre tudo aquilo que é os recursos ligados à indústria dos mármores”.

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